maio 29, 2015 - Textos históricos    Sem comentario

Torres, 137 anos

TORRES – 137 ANOS I

Por Nelson Adams Filho – Jornalista e pesquisador

21 de Maio, através da Lei nº 1.152 assinada pelo presidente da Província, Américo de Moura Andrade, marca o aniversário de nascimento do município de São Domingos das Torres, emancipado de Osório em 1878 (que por sua vez emancipou-se de Santo Antônio da Patrulha em 1857). Apesar do longo tempo e de Torres ser um dos municípios mais antigos do Rio Grande do Sul, a história desse momento é pouco estudada e pesquisada. Basicamente o que se conhece tem origem nas pesquisas do professor e historiador Ruy Ruben Ruschel, especialmente no livro “Torres Origens” editado em 1995 pelo jornal Gazeta (edição esgotada). Ruschel aborda mais a questão política de emancipação. E inclusive o duplo nascimento do município (em 1878 e depois em 23 de janeiro de 1890, pois em 1887 o município havia sido extinto no período em que o Brasil era governado pelo Barão de Cotegipe, do Partido Conservador).

Mas há muitas lacunas a serem preenchidas nessa história. Especialmente nos motivos que levaram à emancipação, que foram de ordem econômica, e sobre as personagens envolvidas. Fica em aberto esse desafio para os historiadores e pesquisadores, inclusive eu.
As razões para emancipação foram econômicas. Osório e Torres, que pertenciam geográfica e administrativamente a Santo Antônio da Patrulha (criado em 1811), tinham economia maior e mais forte que a “mãe”. Cachaça, melado, rapadura, mandioca e outros produtos agrícolas eram o forte de Osório e Torres, além da mão-de-obra açoriana e alemã (dos alemães que aqui chegaram a partir de 1826). Portanto, temos emancipações com origem econômica e não por disputa de terras, de poder ou de domínio político como eram características da época. Basicamente o mesmo ciclo que se daria depois, a partir de 1985/88, com os “filhos de Torres” – Arroio do Sal, Três Cachoeiras, Três Forquilhas, Morrinhos do Sul, Dom Pedro de Alcântara e Mampituba.

Razões também de ordem econômica e social levaram essas comunidades a assumirem o destino com as próprias mãos. Encararam o desafio, suplantaram barreiras políticas (de políticos que mantinham “currais eleitorais” nessas localidades) e administrativas e fizeram-se municípios. Bem diferente da Vila São João que tem todas essas qualidades mas “perdeu o trem da história” basicamente por interesses políticos localizados.

Já desde 1847 lideranças do distrito de N.S. da Conceição do Arroio (Osório) animavam-se a tentar a emancipação, junto com Torres.  Alegavam que juntos (Osório, Torres, Maquiné, Palmares do Sul) poderiam resolver suas dificuldades com o governo da Província sem ter que passar pela Câmara de Sto. Antônio da Patrulha.

Nesse ano, porém, um incisivo discurso do deputado Santa Bárbara, na Assembléia Provincial, pôs fim às tentativas. Segundo o deputado, (mantida a grafia da época) “essa povoação [Osório] he muito miserável, não tem a população para ministrar quinze meninos aos estudos de primeiras letras; consta que sua escola foi transferida para outra parte. Ora, sendo assim, como haverá quem preencha as funções de vereadores da camara municipal e outras?”

Em 1854 a notícia da existência de cobre, prata e carvão de pedra na costa do Mampituba reacendeu os debates sobre a emancipação da região e a ligação das lagoas como meio de escoar a produção agrícola, já que as estradas inexistiam ou eram precárias. Em 17 de dezembro de 1857 Conceição do Arroio conseguiu finalmente emancipar-se, levando junto a área de São Domingos das Torres. 21 anos depois Torres se emanciparia.

Antes disso, porém, já em 1859, Torres tentaria desligar-se de Osório. Torres era abundante em riquezas naturais, conforme “Estatística Geográfica, Natural e Civil da Freguesia de São Domingos das Torres” enviada pelo presidente da Câmara de Conceição do Arroio ao Governo da Província: abundância em madeiras de construção; boa quantidade de madeiras de marcenaria; 453 estabelecimentos agrícolas que cultivavam cana, aguardente (produção anual de 451 pipas), açúcar (1.616 arrobas), rapadura (50 mil unidades), mandioca (10.700 alqueires), feijão (1.461 alqueires), milho (1859); trigo, centeio, cevada, arroz (640), batata, fumo (90 arrobas), café (200 arrobas) e favas; valor da terras por braça (1,88 metro) de 8 réis; grande quantidade de bois,carroças e bestas; 3 fornos de cal, 21 engenhos de açúcar, 100 de mandioca, 56 “fábricas” de moer grão, 291 fazendas [propriedades rurais]e 4.105 animais.

Na área do transporte havia 400 carretas de boi, 1 lanchão “de coberta”, 3 sem “coberta” e 100 canoas. Entre os artesãos e técnicos, 8 artes e ferrarias; 7 carpintarias; 2 marcenarias; 1 tanoaria; 9 sapatarias; 5 alfaiates; 4 ourives; 1 tamancaria;  28 “lombilheiros”, além de outros produtores rurais, comerciantes, tropeiros, freteiros e população em geral.

A Câmara de Conceição do Arroio, como era de se esperar, rechaçou a tentativa sob a alegação principal de que não haveria em Torres cidadãos capazes de assumir cargos públicos, como subdelegado, por exemplo, e, portanto, sem autoridade policial para as atividades, o que, por esse aspecto, inviabilizava a emancipação.

Fontes: Torres Origens – Ruy Ruben Ruschel/Edição Gazeta esgotada; Correspondência da Câmara Municipal de Conceição do Arroio/1859 AHRS; Raízes de Torres 1995 – Historiadora Vera Lúcia Maciel Barroso Relações Litorâneas de Santo Antônio da Patrulha a Torres 1809/1857 – Arquivos da Câmara Municipal de Santo Antônio da Patrulha 1854/57; Anais da Assembléia Legislativa do RS/1847

TORRES – 137 ANOS II

Por Nelson Adams Filho – Jornalista e pesquisador

Em sequencia ao artigo publicado na edição anterior sobre os 137 anos do município de São Domingos das Torres, analisamos agora as personagens que fizeram parte desse processo. São várias e ainda não devidamente pesquisadas pelos historiadores e pesquisadores. Começamos por 1859, dois anos após a emancipação de Osório, quando Torres tenta desmembrar-se de Conceição do Arroio. Nesse período aparecem os nomes de Hipólito Antônio Rolim, Juiz de Paz na Freguesia, de José de Lemos Terra, sesmeiro da região de Chimarrão (futuro município de Três Cachoeiras) e suplente de vereador; Ricardo e Caetano Ferreira Porto, filhos do alferes Manoel Ferreira Porto, Tomaz Teixeira da Rosa, Tomaz Francisco Ferreira. Esses quatro faziam parte da Comissão constituída para tocar as obras de reparos nas Igreja de São Domingos e eram lideranças locais.

Nesse período – 1857/58 – a Igreja teve 2 padres que podem também ter participado dos primeiros movimentos pela emancipação: padre Carvalho (que depois transferiu-se para Porto Alegre) e padre Blaz Puerta Rodrigues, um espanhol. Outros padres que pode ter-se envolvido no movimento de emancipação foram os italianos Francisco Rosito Moranno, que permaneceu em Torres até 1872; José Antonio Fazzi até 1877. A Irmandade do Santíssimo Sacramento e São Domingos tinha em sua Mesa outras lideranças locais que certamente participaram do movimento.  Caetano Carlos Glunder, Antonio Francisco de Emerin, José Teodoro Nunes e Oliveira, Antônio Ferreira Porto.

Como vimos no Capítulo anterior, Osório fulminou a intenção de Torres de emancipar-se em 1857 sob a alegação de que a freguesia não tinha homens capazes de assumir uma subdelegacia e uma autoridade policial. Osório queria que Torres continuasse dependente dela e entregando a ela parte de sua riqueza econômica.

A emancipação, como se sabe, ocorreu em 21 de maio de 1878. O tenente coronel da Guarda Nacional Manoel Fortunato de Souza, do Partido Liberal, foi a principal liderança nesse período e processo, embora não se tenha maiores e mais aprofundadas pesquisas. Ele assumiu a presidência da Junta Governativa (a atual Câmara de Vereadores e que à época fazia as funções da Prefeitura)  em 22 de fevereiro de 1879. Em 1887 o município de Torres foi extinto quando o Brasil era governador pelo gabinete do Barão do Cotegipe, do Partido Conservador. Com a proclamação da República o ato da extinção do município de Torres foi reconsiderado e já em 23 de janeiro de 1890, 2 meses após a República, o município voltava a existir.

Passa a atuar no cenário torrense o jovem Álvaro Afonso Pereira, mais tarde conhecido como “Capa Verde” (atualmente Capaverde) justamente por usar um enorme capotão verde. Ele era natural de São José do Norte e chegou jovem a Torres. Era telegrafista e parece ter-se indisposto com as lideranças locais, já que era do Partido Republicano. Através de pesquisas sabe-se que Capaverde foi para Porto Alegre e lá desligou-se dos Correios e Telégrafos (que era uma atividade importante e bem remunerada á época)., Certamente deve ter-se acercado a Júlio de Castilhos, chefe Republicano, e suas lideranças, pois em 2 de fevereiro de 1890 instalava-se uma nova Junta Governativa Provisória e Álvaro Afonso Pereira Capaverde a presidia. Dela fazia parte ainda Henrique André Muller e Francisco Antônio Rolim, outros dois nomes que certamente fizeram parte do processo de emancipação de 1878.

Entre 1890 e 1892 várias outras pessoas fizeram parte de Juntas Governativas de Torres. Eram lideranças e poderiam ter-se envolvido com a emancipação. O escrivão Jacó Gayer Ourives, presidente da Junta em 1891; Quintiliano Raupp em 1892; Luiz Bauer também em 1892; os membros do primeiro Conselho Municipal: o professor Teodoro Pacheco de Freitas (pai do coronel Pacheco), Manoel José Maria dos Santos, João Amaro Pereira, Manoel José de Matos Pereira, Pedro Pacheco dos Santos, Timóteo da Silva Bueno e José Jacó Tietboehl. Muitos deles são homenageados com seus nomes em ruas, avenidas e praças em Torres        

São algumas dos lideres políticos, militares e até eclesiásticos de Torres à época das duas emancipações, em 1878 e 1890/92.  Teria que se estudar mais sobre a procedência, a vida e o destino desses homens para se ter, então, uma visão completa desse período tão importante do nascedouro político-administrativo do município de São Domingos das Torres.

Fonte: Torres Origens, de Ruy Ruben Ruschel, edição Gazeta 1995/esgotada; correspondência da Câmara Municipal de Conceição do Arroio de 18 1857 em 1858/AHRS; A Vida Religiosa da Grande Torres, de Rizzieri Delai, Raízes de Torres 1995

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