dez 7, 2014 - Contos    Sem comentario

O frio

Por Artur Pereira dos Santos

Aqui entre nós! Achas que estás muito perto de mim? E eu te digo que estás apenas encostada em mim. É grande a distância entre nós, quase setenta anos.

Em todo esse tempo passaram-se tantas coisas que desconheces. Por exemplo: Brincaste com boizinhos de sabugo? Não né?. Sabias que no meu tempo não se encontrava para comprar essas bonecas lindas com que brincas hoje? Bem, eu nem brincaria com elas, é coisa de menina.

Eu já era bem grande e tive que fazer meus próprios brinquedos: Tive que construir carrinhos de madeira para brincar na lama quando chovia.

Ah, e quando não chovia eu jogava bola. Qualquer bola: de meia, de trapos enroladas em fios que retirava do rolo que a vovó usava para fazer mantas tecidas em um antigo tear de madeira.

O tear era tão rústico e antigo que parecia pintado de suor misturado ao sangue de suas mãos calejadas.

Mas sabe de uma coisa? A vovó também me dizia que eu estava distante dela no conhecimento da vida. Eu achava que não, até ajudava ela a desenrolar os fios de fazer mantas.

Hoje eu entendo o que ela queria dizer. Tu também entenderás um dia, pois essa distância que te falo é apenas o recheio dos sonhos de quem durante a existência quer brincar com todos os brinquedos que a vida vai construindo e com todas as crianças que, através de gerações, vão ajudando a desenrolar os fios com que tecemos as mantas que aquecem nossos corações. Vamos entrar. Tá tão frio aqui.

Tem alguma coisa a dizer? Vá em frente e deixe um comentário!


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