dez 18, 2009 - Contos    Sem comentario

O dia de Natal

O dia de Natal

Por Leda Saraiva Soares

   Era uma expectativa muito grande até o dia 24, véspera do dia de Natal, data em que o Papai Noel chegaria com os seus presentes tão esperados.

   As pessoas, em sua maioria, deixam para fazer suas compras de Natal na última hora. O mesmo acontecia em  Tramandaí. Era um dia de movimento fantástico. A loja e armazém de meus pais ficavam apinhados de gente, todos querendo ser atendidos ao mesmo tempo. Parecia até o movimento da “Bolsa de Valores”, claro que  em menor escala…. O balcão da loja, sem exagero, ficava literalmente tomado por tecidos, uns sobre os outros porque não dava tempo de recolocá-los no lugar. Ninguém achava mais a tesoura para cortar tecidos… nem o metro… era o caos! Quando o movimento se acalmava, corria-se a pôr tudo em ordem para que possibilitasse dar continuidade ao atendimento. Todos ficavam exaustos. Mas a festa de Natal ainda estava para acontecer.

   Dez horas da noite… essa era a hora em que a família conseguia se reunir. As crianças desde cedo, estavam arrumadas, numa excitação grande, questionando sobre o Papai Noel: Existe? Não existe?

   O pinheirinho todo enfeitado era uma grande  atração. O presépio era um encanto! O tio Pedro liderava o ensaio das músicas que deveríamos cantar para o Papai Noel:  “Já faz tempo que eu pedi, mas o meu Papai Noel não vem…”(…) A bênção, Papai Noel, eu quero um presente seu, aquele que lhe pedi, você ainda não me deu…”(…) O canto nos acalmava e os adultos ganhavam tempo.  Cada criança tinha que fazer alguma coisa para o papai Noel: cantar, dizer um verso, dançar, rezar…

   À medida que as horas iam passando, sempre chegava mais uma pessoa atrasada. Alguém anunciava que o Papai Noel já estava a caminho. Era a hora de acender as  velinhas da árvore. Uma de nossas tias, tia Rola, tia Ioia ou tia Julieta, com um fósforo, acendia cada velinha do pinheiro. As luzes se apagavam. era um momento mágico!. Só o pinheirinho ficava iluminado. Nessa época, não havia, ainda, essas luzes “pisca-pisca” tão usadas atualmente. Entoávamos a música “Noite Feliz”. O coro de vozes  ia se intensificando e o cântico “Noite Feliz” era entoado por todos com grande emoção. Naquele momento, a lembrança de pessoas queridas que partiram desta vida, doía em saudade no peito de alguém. As lágrimas eram inevitáveis. A luz das velinhas realçava os enfeites da árvore que brilhavam intensamente, refletindo-se nos olhos dos presentes. Era um momento de saudade que se misturava à alegria daqueles rostinhos felizes e ingênuos das crianças.

   Finalmente, ouvia-se um bater forte da bengala do Papai Noel na madeira da escada do sobrado que conduzia ao hall. As crianças ficavam nervosas, alvoroçadas. Algumas começavam a chorar com medo do   Papai Noel. As maiores, com a presença do velhinho, aquietavam-se.

   A festa começava. As crianças faziam suas apresentações. Um adulto auxiliava o Papai Noel lendo os nomes escritos nos papéis dos presentes.O Papai Noel ia chamando, cada um por seu nome: Renato!, Marco Antônio! Glaci! Lizette! Leda! Gilberto! Beti, Clovis(…) Depois começava a chamar os adultos: Vovô Fernando! Vovó Bernardina! Mariquinha! Palmarito! Pedro! Rola! Aristides! Julieta! Ioia! E tantos outros nomes de pessoas que trabalhavam em nossa casa, tanto no balcão como nos afazeres domésticos: Santa! Elvira! Sem falar dos amigos que sempre estavam presentes em nossos Natais: Sedinha!Ah! essa não poderia faltar. Já fazia parte de nossa família, era a nossa amiga inseparável, sem a qual os brinquedos perdiam a graça.

   Papai Noel, depois de chamar por tantos nomes, despedia-se para voltar no ano seguinte.

Texto do livro: SOARES, Leda Saraiva.Tramandaí / Lembranças a Granel.Edição da autora,Porto Alegre, 2004, pp.70,71.

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