abr 15, 2015 - Contos    Sem comentario

Conto Uma tarde de domingo

Por Leda Saraiva*

Diversas pedras circulares, medindo uns oitenta centímetros de diâmetro, incrustadas ao nível do gramado,distribuíam-se ao redor da Caixa d’água de Imbé. Era ali que brincávamos de “Tem Casa pra Alugar?”

Cada criança se colocava sobre uma pedra. No imaginário infantil, cada pedra se transformava em casa. Um dos participantes da brincadeira ficava de fora e percorria o grupo perguntando:

-Tem casa pra alugar?

As outras crianças respondiam, quando perguntadas:

– Não. Passe outro dia.

Na distração daquele que procurava casa para alugar, alguns trocavam rapidamente de lugar,uns com os outros. Era nessa hora de certa confusão que os mais lentos se perdiam e o que perguntava, ocupava o lugar do distraído. O que perdeu o seu lugar passava a perguntar: “Tem casa pra alugar?” E a brincadeira se estendia pela tarde de primavera. Assim, nos divertíamos por algum tempoem volta da Caixa d’água de Imbé.

Esse reservatório de água localizava-se defronte a Igreja Nossa Senhora de Fátima, sobre o canteiro da Avenida Porto Alegre. Hoje, restam os alicerces que testemunham, num silêncio secreto, nossas brincadeiras e visitas àquele lugar.

Meu avô era nosso companheiro. Um avô alegre brincalhão. Andávamos sempre à sua volta. Morávamos em Tramandaí. Aos domingos, costumava passear conosco.  Muitas vezes,atravessamos a velha ponte de madeira para chegar a Imbé. Nessa época, Imbé era um bairro nobre de Tramandaí, predominantemente, habitado por veranistas. No inverno, era só nosso.Era o nosso parque de diversão. Virava um paraíso a ser explorado por nós, crianças curiosas a buscar novidades em suas ruas, verdadeiros labirintos.

 Procurávamos ninhos de quero-quero. Dizem que o quero-quero canta de um lado e o ninho está em outro. Naquela tarde,meio à grama, achamos um ovo partido com um passarinho ainda em formação, agonizando, com aqueles olhos enormes, envoltos numa película leitosa. Naquele instante, aquele frágil corpo parou de se mexer.Foi a nossa primeira experiência com a morte dentro de um ovo. Ficamos observando aquele projeto de pássaro, implume ainda, e sem vida. Por alguns segundos,permanecemos calados diante do mistério da ausência de vida.

Que belo pássaro é o quero-quero! Imponente por sua postura e altivez. É destemido. Está sempre alerta como uma sentinela. O quero-quero é a “Sentinela dos Pampas”, um dos símbolos do Rio Grande do Sul. A beleza de suas penas encanta.Parece uma pintura. Mas Cuidado! É defensor de seu território. Se alguém se aproxima de seu ninho ou de seus filhotes, ataca o invasor com rasantes assustadores, podendo ferir o intruso com os esporões que traz em suas asas.

Depois de admirar um quero-quero que se aproximou de nós, voltamos a observar aquele minúsculo passarinho que não vingou. Um esboço de ave, sem vida, que poderia transformar-se numa espécie belíssima. Só então, nos demos conta de que nosso avô já se distanciara de nós, caminhando com as mãos às costas – era esse o seu jeito de caminhar. Devolvemos o bichinho à grama e corremos em sua direção,apostando corrida para ver quem chegava primeiro.

O meu irmão mais velho era nosso líder.Chamava nossa atenção para o que encontrava de curioso. Corria muito. Distanciara-se de nós. Parou na frente de duas casas geminadas,inteiramente de pedras.Chamou-nos gritando:

– Venham aqui. Ligeiro! Venham ver estas duas casas.

Paramos para observá-las. E ele falou:

-Estas duas casas parecem tão frias… Geladas… Ui…Misteriosas… Mal-assombradas…Parece que estão cheias de fantasmas. Vocês estão ouvindo ruídos estranhos que vêm de dentro delas?

Paralisados de medo, olhos arregalados, ouvidos aguçados.Já estávamos ouvindo os barulhos dos fantasmas a conversarem dentro da casa.Até parecia que objetos voavam e explodiam nas paredes, quando, surpreendentemente, nosso irmão deu um grito fantasmagórico:

 UUUUUUUUUUUUUUUUUUU!…Buáááááááá´!…

Quase desmaiamos. A cor fugiu de nossos rostos. Ficamos algum tempo paralisados, presos ao solo. Com o coração aos pulos, horrorizados, saíamos em disparada, sem olhar para trás. Sabe-se lá… E se algum fantasma resolvesse nos perseguir?…Corremos muito até alcançar o nosso avô que já havia ultrapassado o imponente prédio do Hotel – Cassino Picoral.

 O vento começara a soprar e corria rápido pelas antigas ruas curvas do centro antigo de Imbé que sempre nos enganavam. Apontavam para um lado e nos levavam para outro.

À nossa direita, estava o rio. Silencioso, livro fechado, coberto de limo e de lama,envolto em mistérios, guardando histórias de vidas e lendas que passavam de geração em geração no antigo povoado:A lenda do Minhocão da Lagoa do Armazém; A lenda do Siri, do Linguado e da Savelha. Lembram-se do siri que atravessou o rio,com Nossa Senhora em suas costas?  A lenda da abertura da Barra. Os causos de lobisomem, de bruxas e assombrações… Esse rio é um guardião da história. Guarda a vida dos primeiros pescadores, senhores das águas e dos ventos, sábios conhecedores da natureza. Homens de fé que, no dia a dia, tiravam de suas generosas águas o sustento de suas famílias.

Em determinadas noites, a lua resolvia recolher-se para descansar atrás das grossas nuvens. A escuridão,revestida de vento, envolvia os ranchos dos pescadores, iluminados pela fraca luz das pixiricas e candeeiros. A lenha verde chorava no rústico fogão que cozinhava, sem pressa, o ensopado de peixe e o pirão de farinha de mandioca. O cheiro do fervido espalhava-se pelo rancho, saindo pelas frestas, misturando-se ao vento.

O tempo e o vento corriam de mãos dadas na praia de Imbé a brincar nas águas do rio e a se embalar nas ondas do mar.

A vida era difícil para aquelas famílias sem recurso algum. Gente que seu nia na alegria, na dor, na doença, sempre solidários. Sua história ficará para sempre guardada nas águas do rio silencioso, outrora tão pleno de vida. Atualmente, um tanto ignorado pela população, a esperar que um dia lhe devolvam a vitalidade.

Hoje, quando atravesso a ponte Giuseppe Garibaldi, não me canso de admirar o rio Tramandaí e vejo cristalizada em suas águas, como a acenar para mim, toda a história que não se mostra para aqueles que a desconhecem.

-Crianças! Venham!- grita meu avô -Chegou o grande momento de atravessarmos a ponte pênsil. Agora eu quero ver quem é valente…

* Conto enviado para o I Concurso de Contos de Imbé, em 23/10/2014.
Classificado em 5ºlugar.

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