abr 15, 2015 - Contos    Sem comentario

Conto Feliz Ano Novo!

Por Leda Saraiva

Era dia trinta e um de dezembro.

Grandes preparativos após um dia de intenso trabalho. Reunião na casa de um dos filhos com alguns comes e bebes, rapidamente, preparados para depois assistirem à queima de fogos na praia de Tramandaí.No ar uma euforia. O entusiasmo da família reunida saia pelas janelas.A noite estava perfeita.Era uma sensação de iminente liberdade a deixar para trás contrariedades que ficariam para sempre com o Ano Velho que agonizava. Cadeiras de praia, caixas de isopor à espera de um “vamos lá, minha gente!”. Teriam que se apressar para conseguirem um bom lugar na praia.

-Vamos! Depressa! – dizia Antônia. As crianças não vão.As crianças ficam. É muita gente na praia.

Por decreto, ficou decidido que naquela passagem de ano, os netos ficariam conosco. É evidente que não desejavam nos acompanhar. Mostraram resistência.Mas estava decidido. A contrariedade estampava-se em seus rostos. Eu fiz de conta que nada percebera.Pensei: “O que posso fazer com essas crianças contrariadas? E agora? Como proporcionar-lhes momentos interessantes?

Entraram no carro a contragosto.

– Vó, onde é que nós vamos? – pergunta Carlinhos um tanto indiferente, atirado displicentemente no banco do automóvel.

-Ah! Hoje nós vamos visitar Netuno na praia de Imbé.

-Quem é Netuno, é algum amigo de vocês que não conhecemos, vó? – pergunta Maristela meio sem graça.

-Netuno é o deus dos mares. Ele tem um palácio poderoso no fundo do mar Egeu…

-Vó, onde fica o mar Egeu?- curiosa manifesta-se Suzete.

-O mar Egeu fica na Grécia. Netuno é um Deus grego. Mas como eu estava dizendo, ele mora num palácio no fundo do mar Egeu e percorre os oceanos numa carruagem belíssima, puxada por cavalos com cabeças e crinas de ouro. É acompanhado por uma comitiva de milhares de nereidas, hipocampos, delfins e outros bichos mais. Quando ele passa, o mar se abre. As ondas serenam.

-Vó, que é nereida e essas coisas que tu falaste? – perguntou Maristela.

-Nereida é uma ninfa, uma divindade, uma moça belíssima, parece uma fada; Hipocampo é cavalo marinho. Já viste um cavalo marinho?

-Vi. Lá no CECLIMAR, num aquário. –  respondeu.

-Pois então. Delfins são golfinhos, botos. Vocês já viram os botos na barra do rio Tramandaí?

-Ah! Agora entendi. E daí, vó? Conta, conta… – manifesta-se Maristela.

– Netuno tem uma barba muito longa. Mais longa que a barba do Papai Noel. Na mão direita, costuma empunhar um tridente.

-Que é tridente, vó? – pergunta Daniela, a menor.  E Maristela responde:

-Ô, guria. Tu não sabes o que é tridente? É uma coisa parecida com um garfo enorme. Tem três dentes. Uma vara com três espetos na ponta. Nunca viu o tridente do diabo?

-Tá…tá… tá… Já entendi.

– Bem. Tridente é uma espécie de cetro mitológico de Netuno. Vocês já viram nas histórias que leram. Todo rei tem um cetro. O cetro representa poder. O tridente de Netuno, conforme a mitologia,tem o poder de abalar a terra e o oceano, produzindo terremotos e maremotos, mas também pode fazer a água brotar das rochas e do solo. Traz as grandes secas e as grandes inundações.

– Puxa vida! Então é poderoso esse tal de Netuno! E anda solto pelo mundo. – diz Carlinhos, o mais velho.

-Vó, quem eram os pais de Netuno? – pergunta Suzete.

-Netuno é o filho mais velho da deusa Ops (deusa da fertilidade) e de Saturno (deus do tempo e da agricultura). De acordo com a mitologia, Netuno cavalga nas ondas do mar em cima de cavalos brancos.

-Chegamos, minha gente!  Vamos estacionar o carro e descer.

-Ai vó, eu tô com medo do velho Netuno -fala Daniela

-Desçam! Rápido! Daqui a pouco é meia noite e nós ainda estamos aqui dentro do carro. Deem as mãos. Está meio escuro. Procurem não se perder.

Os quiosques estavam literalmente tomados de gente. O vento resolvera recolher-se naquela noite em que o Ano Velho daria lugar ao Ano Novo.

 Seria uma boa ação de Netuno?

À medida que nos aproximávamos da praia de Imbé, o movimento aumentava. Era gente que chegava com cadeiras de praia, caixas de isopor carregadas de bebidas, crianças ao colo, crianças levadas pela mão, crianças em carrinhos de bebês.

A lua estava discreta. Algumas nuvens no céu a encobriam para que não tirasse o brilho dos fogos. Na barra, mar e rio entendiam-se: o mar entrava no rio, e este procurava chegar ao mar sem atrapalhá-lo. Era uma troca de gentilezas.

As crianças nunca haviam estado na praia à noite. Para elas era uma novidade.

-Vô, que horas são? – pergunta Carlinhos.

-Faltam cinco minutos para a meia noite.

Sem perder as crianças de vista, aproximamo-nos do mar.Alguns foguetes espocavam aqui e acolá.

Carlinhos, o mais atrevido, demonstrando coragem, entrou no mar e deu não sei quantos pulos nas ondas que chegavam a seus pés. Disse que dava sorte.

É Chegada a hora tão especial. Os ponteiros estão um sobre o outro. Diz o avô

-É meia noite! – Gritam as crianças.

De repente, se desencadeia uma sequência de fogos. O céu enche-se de ruídos e de luzes, proporcionando-nos um espetáculo visual magnífico.Nessa hora, entre gritos, músicas e espocar de foguetes, abraçamo-nos. Então, olhamos para o mar.Fixamos nosso olhar no horizonte, onde céu e mar parecem encontrar-se. Nesse momento, um daqueles fogos de artifício eclode na direção onde o sol costuma nascer. Abraçados,  com a água batendo em nossos pés, vivenciamos um momento de sonho, diante das mais belas formas e cores dos fogos de artifício. Pura magia no meio da noite.Uma voz que parece vir da profundeza das águas, mistura-se aos ruídos:

-Vô, vó, guris, olhem! Lá está o Netuno! Estão vendo?

E foram tantos abraços, tantos beijos meio a felicitações:

Feliz ano Novo! … Feliz Ano Novo!…

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