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abr 20, 2011 - Textos históricos    No Comments

Origens da Páscoa

Origens da Páscoa

Por Rodrigo Trespach

Semelhante ao Natal a Páscoa, apesar de ter o caráter cristão de hoje, também está relacionada aos tempos do paganismo Indo-Europeu, principalmente dos povos germânicos. Em português o nome Páscoa está ligado etimologicamente a festa judaica da “Pessach” (passagem), que celebra a passagem do povo hebreu pelo deserto do Sinai durante 40 anos, que é contado no livro de Êxodo, na Bíblia.

A morte de Jesus em uma Páscoa judaica foi associada pelos primeiros seguidores de Cristo, antes de tudo também judeus como ele, como a imolação do cordeiro pascal realizado nessa festa. Jesus Cristo era o cordeiro (o filho) de Deus sacrificado para remissão dos pecados do homem. Sua suposta ressurreição no domingo de Páscoa foi assim associada a um ritual de passagem.

Em 325 d.C., no Concílio de Nicéia, famoso por proclamar muito dos dogmas cristãos, definiu-se também a data da Páscoa. A Páscoa, que encerra o que se denominou de a Paixão de Cristo com sua Ressurreição, ocorreria de acordo com o calendário lunar, conforme a tradição judaica, no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera no hemisfério norte. Essa data variável ocorre entre 31 de março e 25 de abril.  No entanto, no hemisfério sul, nosso caso, a estação é o outono o que faz com que percamos a compreensão de alguns dos símbolos/significados dessa época.

Ao contrário das línguas com origem no latim, como o italiano, o espanhol e o próprio português, onde o nome da festa recebe influência da palavra hebraica Pessach – daí Pasqua, Pascua e Páscoa respectivamente – as línguas saxônicas, como o alemão e o inglês, usam outra palavra para designar a mesma festa, demonstrando a forte influência pagã. Para os alemães Páscoa é Ostern, para os ingleses Easter.

A religião dos germanos, assim como demais povos da antiguidade, estava geralmente ligada a produtividade da terra e os ciclos de plantação e colheita.  Natural que sua religião fosse o reflexo disso. Ostern, ou Easter, origina-se do nome da antiga deusa germânica da fertilidade Eostre ou Ostara. Eostre estava relacionada ao inicio da primavera (no hemisfério norte), e ao  Eostemonat o mês germânico para essa deusa. Apesar da cristianização, realizada sob a força da espada ainda até o século IX, os alemães, e suas antigas tribos, continuaram a acreditar em seus antigos deuses e tradições, guardando as datas dos solstícios e equinócios, alguns ritos e também símbolos sagrados.

Como exemplo dessa simbologia temos o carvalho. O carvalho era cultuado pelos antigos celtas, era um santuário/templo. Quando os primeiros padres cristãos entraram na germânia para a evangelização tiveram de aceitar certos “dogmas” pagãos, o que se transformou em uma espécie de sincretismo religioso. A própria igreja se utilizou disso para popularizar o cristianismo associando-o aos velhos costumes (mitos e lendas) pagãos.

A igreja procurou aos poucos eliminar alguns costumes e símbolos. Alguns, no entanto, permaneciam intocáveis. O carvalho foi um deles. Conta-se que quando os pregadores de São Bonifácio (672-755), o Apostolo da Germania, tentaram cortar um carvalho para erigir uma igreja no local foram mortos por aldeões que eles haviam “cristianizados”. Muitas igrejas na Alemanha, principalmente em áreas rurais, ainda tem até hoje ao lado do “templo cristão” (a igreja) um “tempo pagão” (o carvalho). A simbologia da Páscoa é outro exemplo, mesmo que ocultos, a maioria dos símbolos da Páscoa são pagãos.

O costume de utilizar ovos como presente também é uma tradição dos povos germânicos (alemães, austríacos, etc..) e dos povos eslavos (ucranianos, poloneses, etc..). Esse costume tem origem, ainda, em tradições pagãs relacionadas à deusa Eostre, deusa da fertilidade a qual o ovo, origem da vida, é símbolo.   O coelho, ou a lebre, igualmente estariam associados à deusa, devido a sua notória fertilidade. No entanto sabe-se que povos da antiguidade, como os persas e romanos, também já tinham esse costume de utilizar o ovo como presente a ser dado na época da primavera, época sempre associada pelos povos antigos como de renascimento, florescimento e fertilidade.

Ora, os germânicos estavam aceitando o cristianismo como religião mantendo os significados de sua antiga cultura, e a Páscoa (Ressurreição de Cristo) foi associada ao Eostemonat (florescimento/renascimento da vida).  Da mesma maneira que Cristo havia vencido a morte (a Paixão na Cruz) renascendo para a vida eterna na Páscoa (a Ressurreição), a primavera era uma passagem da morte (inverno) para a vida (verão) representada na festa para a deusa Eostre.

Com símbolos pagãos e mensagem cristã a Páscoa foi agregando ao longo dos séculos vários outros costumes, variando de um país para outro. Tendo em sua última roupagem os ovos de chocolate, que teriam sido um costume criado na França moderna.

jan 7, 2011 - Textos históricos    No Comments

Tráfego mútuo: lacustre e ferroviário

Tráfego mútuo: lacustre e ferroviário

Por Leda Saraiva Soares
Livro “A Saga das Praias Gaúchas”, editado pela Martins Livreiro, 2000.
(Fotos: do arquivo pessoal da autora e do Arquivo Histórico Antônio Stenzel Filho, em Osório)

Em 1921, oficializa – se nova modalidade em transporte para as praias da orla Atlântica Sul: Tráfego Mútuo (Lacustre e Ferroviário). Uma alternativa encontrada,  na época, para escoar a produção colonial da Costa da Serra de Osório a Torres. Não havia a BR 101 e as estradas que, na verdade eram caminhos,  transitados por carretas, atrasava o desenvolvimento da região.

Houve o aproveitamento do potencial hídrico existente, com a dragagem dos canais que interligam o colar de lagoas existentes entre Osório e Torres, viabilizando a navegação e o comércio com a capital do Estado.

Já em 1906, têm – se registros da navegação lacustre de Palmares a Porto Alegre, via lagoa dos Patos, até o cais do porto de Porto Alegre, por onde era escoada não só a produção agrícola, mas também o pescado de Tramandaí, salgado e seco. Portanto, desde há muito que essa alternativa já era utilizada para exportar, através de vapor, o que a região produzia, importando produtos manufaturados.

Havia navegação lacustre desde Torres até a Lagoa do Marcelino, onde se iniciava a estrada de ferro. Desse ponto, a viagem se dava via férrea até Palmares do Sul. De Palmares seguia em barcos até o cais do porto de Porto Alegre.

Antes da construção da estrada de ferro, havia outros projetos a serem estudados pelo governo. 

Em 1921 é inaugurada a estrada de ferro, ligando o porto de Osório, localizado na Lagoa do Marcelino, ao porto de Palmares. Esse tipo de transporte recebeu o nome de Tráfego Mútuo.

Transcrição de trechos do relatório acima citado, referente à inauguração da estrada de ferro, página 30:

 

Serviços de Transportes Ferroviários e Lacustre entre Palmares e Torres.

Por decreto n. 2.872 de 4 de outubro de 1921, foi approvado o regulamento para estes serviços e a 15 de novembro, inaugurado o tráfego da estrada de ferro de Palmares a Conceição do Arroio e o da linha de navegação entre o porto dessa villa e o do Estácio na lagoa Itapeva, a cerca de 10 kilômetros da villa de Torres.

Em dezembro, de acordo com a proposta apresentada em concorrência pública, foi cellebrado o contrato de tráfego mútuo com a firma Dreher, Silveira & Moojen, proprietária dos vapores que navegam entre o porto desta capital e o porto de Palmares.

Para o transporte de passageiros do porto do Estácio à villa de Torres foram adquiridos dois autos – omnibus, e a fim de facilitar o respectivo tráfego autorizou V. Ex.a. a reparação geral da estrada de rodagem entre aquelles pontos, sendo desviado o traçado junto à Torre do Norte e na Pedra da Itapeva, para ficarem reduzidas as rampas.

Resolveu ainda V. Ex.a. que a secretaria organizasse um serviço de transporte de passageiros na linha de navegação do Tramandahy.

Para esse fim foi adquirida uma lancha que recebeu o nome de Tramandahy e na qual foi instalado um motor a gasolina.

Como  providência essencial mandou V. Ex. desobstruir os baixios nas lagoas do Passo e Tramandahy, serviço que está quase terminado(…)

(…) Nessas condições, poderão ser commoda e pronptamente atendidos os transportes de passageiros, na próxima estação balnear.

O transporte fluvial e lacustre de mercadorias é ainda feito em condições onerosas, sendo necessária a substituição das embarcações a gasolina por um serviço de chatas rebocadas por vapor.(…)

A seguir, trecho transcrito de um telegrama enviado ao governador em 27 de maio de 1922, após inspeção feita pelo mesmo secretário de obras citado no relatório transcrito:

 

(…) Navegação bem organizada e dotada. Material sufficiente para atender as necessidades actuais transportes e bem assim passageiros fuctura estação balnear, tanto praia Torres como Tramandahy. Para esse fim dispomos três lanchas gasolina plena segurança commodidade. São ellas: General Osório e Santa Maria para linha porto Estácio; Tramandahy para o porto mesmo nome.(…). 

Em 1922, para dar maior conforto às pessoas que utilizavam essa via de acesso às praias, surge um vapor de nome  CAMAQUAM,  com serviço combinado de transportes de passageiros e cargas entre Porto Alegre e Torres  via Palmares, Conceição do Arroio e demais portos intermediários.

Fez tanto sucesso esse vapor que aparece no Correio do Povo mais um anúncio do Vapor Camaquam com uma  VIAGEM EXTRAORDINÁRIA.

 

A partir de 1922, a maioria dos hotéis das praias gaúchas não só anunciavam seus serviços, mas propagavam e recomendavam a seus hóspedes a utilização do novo sistema de transporte, bem mais confortável do que as fatigantes viagens de diligências ou viagens de automóveis. Estas com suas intermináveis mudas de animais. Aquelas, sendo os veículos mais  tracionados por juntas de bois do que se auto – locomovendo, por causa da precariedade das estradas.

Transcrição da propaganda do Hotel Corrêa, do Correio do Povo de 8 de janeiro de 1922, p. 12: 

TRAMANDAHY 

HOTEL CORRÊA

O proprietario deste conhecido estabelecimento, cuja diaria está ao alcance de todos, previne a sua distinta freguesia que dispõe de excellentes chalets com todo conforto. Cozinha de primeira ordem, dirigida por habil cozinheira, agua potavel em abundancia.

O transporte é feito por via Palmares – conceição do Arroio( Osório) ou de Taquara, diretamente em autos de propriedade de João Vidal e de Emilio Behs. Em Conceição do arroio encontrarão diligencia e carro para bagagem, pertencente ao proprietario do hotel a quem devem dirigir aviso. 

O serviço de transporte Lacustre e Ferroviário passou a ser utilizado regularmente, aumentando a cada temporada. Todos os hotéis sugeriam a seus hóspedes utilizarem esse meio de transporte que não só transportava passageiros, mas mercadorias e toda a produção regional.

Em 1928, há registros sobre a estrada para Cidreira, trecho que parte da Estação Experimental, em Osório, e vai até além da ponte da Alexandrina, quatro quilômetros e meio. Fala, ainda, da macadamização da estrada de Porto Alegre a Conceição do Arroio. Esse relatório faz menção ao serviço de transporte Ferroviário e lacustre que começa a dar prejuízo ao governo. Depois foi construída a RS30.

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