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maio 12, 2016 - Textos históricos    No Comments

Alferes Manoel Ferreira Porto Filho ganha iconografia

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O Centro de Estudos Históricos de Torres e Região (CEHTR) promoveu na sexta-feira, dia 6, a entrega ao Museu Histórico de Torres da iconografia do Alferes Manoel Ferreira Porto Filho, pioneiro na formação do núcleo urbano de Torres. A iconografia foi entregue à guarda Secretaria Municipal de Cultura e Esportes e ficará em exibição no Museu Histórico junto com um banner com informações sobre a vida e a obra do Alferes e seus Familiares.

Ao ato compareceram a prefeita Nilvia, o vice-prefeito Brocca, o presidente da Câmara, Davino Lopes (descendente do Alferes), secretária Clarice Brovendan, vereadores Machado (PRB) e Gimi (PMDB), representantes da Academia dos Escritores do Litoral Norte, jornalista Célia Victorino e historiadora Leda Saraiva, representando a municipalidade de Imbé, e membros do CEHTR que coordenado pelo jornalista Nelson Adams Filho. Além dos descendentes do Alferes, o escritor e pesquisador Diderô Lopes, o pesquisador e genealogista Marco Antônio Velho Pereira e o professor Ennio Ferreira Porto.

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O trabalho de reconstituição da imagem do Alferes foi feito pelo artista e artista Jorge Herrmann com base em fotografias e pinturas de rostos dos descendentes. Diderô Lopes fez uma explanação sobre a vida e a obra do Alferes que, com sua família, ajudou a constituir o nucleamento de Torres no início do século XIX. O Alferes foi o comandante da Guarda e Registro das Torres, aqui chegando por volta de 1803. Também foi comandante-substituto do Baluarte Ipiranga, 2º forte que existiu em Torres, entre 1819 e 1850 (o 1º forte foi o São Diogo das Torres, construído em 1776 e ambos localizados no Morro do Farol). Os descendentes do Alferes foram e são pessoas de importância na comunidade torrense do século XIX e até os dias atuais, com ativa participação social, política e econômica na cidade.

Diderô Lopes é também um dos maiores pesquisadores atuais sobre a trajetória do Alferes em Torres e com seu trabalho vem ajudando a reconstituir momentos importantes da História de Torres, como a implantação da Capella de São Domingos das Torres (a partir de 1815), a construção propriamente dita da igreja (entre 1820 e 1824). Aspectos, datas, momentos, informações que faziam parte da historiografia existentes e começam a ser revistos e reajustados à realidade, com base em documentos e fontes primárias.

O CEHTR foi criado há cerca de um ano tendo como uma de suas propostas o aprofundamento dos estudos e pesquisas sobre a História de Torres. Reúne pesquisadores, escritores, professores, jornalista e demais interessados no estudo da História de Torres. A reuniões do CEHTR são mensais.

Fonte: Nelson Adams Filho

maio 29, 2015 - Textos históricos    No Comments

Torres, 137 anos

TORRES – 137 ANOS I

Por Nelson Adams Filho – Jornalista e pesquisador

21 de Maio, através da Lei nº 1.152 assinada pelo presidente da Província, Américo de Moura Andrade, marca o aniversário de nascimento do município de São Domingos das Torres, emancipado de Osório em 1878 (que por sua vez emancipou-se de Santo Antônio da Patrulha em 1857). Apesar do longo tempo e de Torres ser um dos municípios mais antigos do Rio Grande do Sul, a história desse momento é pouco estudada e pesquisada. Basicamente o que se conhece tem origem nas pesquisas do professor e historiador Ruy Ruben Ruschel, especialmente no livro “Torres Origens” editado em 1995 pelo jornal Gazeta (edição esgotada). Ruschel aborda mais a questão política de emancipação. E inclusive o duplo nascimento do município (em 1878 e depois em 23 de janeiro de 1890, pois em 1887 o município havia sido extinto no período em que o Brasil era governado pelo Barão de Cotegipe, do Partido Conservador).

Mas há muitas lacunas a serem preenchidas nessa história. Especialmente nos motivos que levaram à emancipação, que foram de ordem econômica, e sobre as personagens envolvidas. Fica em aberto esse desafio para os historiadores e pesquisadores, inclusive eu.
As razões para emancipação foram econômicas. Osório e Torres, que pertenciam geográfica e administrativamente a Santo Antônio da Patrulha (criado em 1811), tinham economia maior e mais forte que a “mãe”. Cachaça, melado, rapadura, mandioca e outros produtos agrícolas eram o forte de Osório e Torres, além da mão-de-obra açoriana e alemã (dos alemães que aqui chegaram a partir de 1826). Portanto, temos emancipações com origem econômica e não por disputa de terras, de poder ou de domínio político como eram características da época. Basicamente o mesmo ciclo que se daria depois, a partir de 1985/88, com os “filhos de Torres” – Arroio do Sal, Três Cachoeiras, Três Forquilhas, Morrinhos do Sul, Dom Pedro de Alcântara e Mampituba.

Razões também de ordem econômica e social levaram essas comunidades a assumirem o destino com as próprias mãos. Encararam o desafio, suplantaram barreiras políticas (de políticos que mantinham “currais eleitorais” nessas localidades) e administrativas e fizeram-se municípios. Bem diferente da Vila São João que tem todas essas qualidades mas “perdeu o trem da história” basicamente por interesses políticos localizados.

Já desde 1847 lideranças do distrito de N.S. da Conceição do Arroio (Osório) animavam-se a tentar a emancipação, junto com Torres.  Alegavam que juntos (Osório, Torres, Maquiné, Palmares do Sul) poderiam resolver suas dificuldades com o governo da Província sem ter que passar pela Câmara de Sto. Antônio da Patrulha.

Nesse ano, porém, um incisivo discurso do deputado Santa Bárbara, na Assembléia Provincial, pôs fim às tentativas. Segundo o deputado, (mantida a grafia da época) “essa povoação [Osório] he muito miserável, não tem a população para ministrar quinze meninos aos estudos de primeiras letras; consta que sua escola foi transferida para outra parte. Ora, sendo assim, como haverá quem preencha as funções de vereadores da camara municipal e outras?”

Em 1854 a notícia da existência de cobre, prata e carvão de pedra na costa do Mampituba reacendeu os debates sobre a emancipação da região e a ligação das lagoas como meio de escoar a produção agrícola, já que as estradas inexistiam ou eram precárias. Em 17 de dezembro de 1857 Conceição do Arroio conseguiu finalmente emancipar-se, levando junto a área de São Domingos das Torres. 21 anos depois Torres se emanciparia.

Antes disso, porém, já em 1859, Torres tentaria desligar-se de Osório. Torres era abundante em riquezas naturais, conforme “Estatística Geográfica, Natural e Civil da Freguesia de São Domingos das Torres” enviada pelo presidente da Câmara de Conceição do Arroio ao Governo da Província: abundância em madeiras de construção; boa quantidade de madeiras de marcenaria; 453 estabelecimentos agrícolas que cultivavam cana, aguardente (produção anual de 451 pipas), açúcar (1.616 arrobas), rapadura (50 mil unidades), mandioca (10.700 alqueires), feijão (1.461 alqueires), milho (1859); trigo, centeio, cevada, arroz (640), batata, fumo (90 arrobas), café (200 arrobas) e favas; valor da terras por braça (1,88 metro) de 8 réis; grande quantidade de bois,carroças e bestas; 3 fornos de cal, 21 engenhos de açúcar, 100 de mandioca, 56 “fábricas” de moer grão, 291 fazendas [propriedades rurais]e 4.105 animais.

Na área do transporte havia 400 carretas de boi, 1 lanchão “de coberta”, 3 sem “coberta” e 100 canoas. Entre os artesãos e técnicos, 8 artes e ferrarias; 7 carpintarias; 2 marcenarias; 1 tanoaria; 9 sapatarias; 5 alfaiates; 4 ourives; 1 tamancaria;  28 “lombilheiros”, além de outros produtores rurais, comerciantes, tropeiros, freteiros e população em geral.

A Câmara de Conceição do Arroio, como era de se esperar, rechaçou a tentativa sob a alegação principal de que não haveria em Torres cidadãos capazes de assumir cargos públicos, como subdelegado, por exemplo, e, portanto, sem autoridade policial para as atividades, o que, por esse aspecto, inviabilizava a emancipação.

Fontes: Torres Origens – Ruy Ruben Ruschel/Edição Gazeta esgotada; Correspondência da Câmara Municipal de Conceição do Arroio/1859 AHRS; Raízes de Torres 1995 – Historiadora Vera Lúcia Maciel Barroso Relações Litorâneas de Santo Antônio da Patrulha a Torres 1809/1857 – Arquivos da Câmara Municipal de Santo Antônio da Patrulha 1854/57; Anais da Assembléia Legislativa do RS/1847

TORRES – 137 ANOS II

Por Nelson Adams Filho – Jornalista e pesquisador

Em sequencia ao artigo publicado na edição anterior sobre os 137 anos do município de São Domingos das Torres, analisamos agora as personagens que fizeram parte desse processo. São várias e ainda não devidamente pesquisadas pelos historiadores e pesquisadores. Começamos por 1859, dois anos após a emancipação de Osório, quando Torres tenta desmembrar-se de Conceição do Arroio. Nesse período aparecem os nomes de Hipólito Antônio Rolim, Juiz de Paz na Freguesia, de José de Lemos Terra, sesmeiro da região de Chimarrão (futuro município de Três Cachoeiras) e suplente de vereador; Ricardo e Caetano Ferreira Porto, filhos do alferes Manoel Ferreira Porto, Tomaz Teixeira da Rosa, Tomaz Francisco Ferreira. Esses quatro faziam parte da Comissão constituída para tocar as obras de reparos nas Igreja de São Domingos e eram lideranças locais.

Nesse período – 1857/58 – a Igreja teve 2 padres que podem também ter participado dos primeiros movimentos pela emancipação: padre Carvalho (que depois transferiu-se para Porto Alegre) e padre Blaz Puerta Rodrigues, um espanhol. Outros padres que pode ter-se envolvido no movimento de emancipação foram os italianos Francisco Rosito Moranno, que permaneceu em Torres até 1872; José Antonio Fazzi até 1877. A Irmandade do Santíssimo Sacramento e São Domingos tinha em sua Mesa outras lideranças locais que certamente participaram do movimento.  Caetano Carlos Glunder, Antonio Francisco de Emerin, José Teodoro Nunes e Oliveira, Antônio Ferreira Porto.

Como vimos no Capítulo anterior, Osório fulminou a intenção de Torres de emancipar-se em 1857 sob a alegação de que a freguesia não tinha homens capazes de assumir uma subdelegacia e uma autoridade policial. Osório queria que Torres continuasse dependente dela e entregando a ela parte de sua riqueza econômica.

A emancipação, como se sabe, ocorreu em 21 de maio de 1878. O tenente coronel da Guarda Nacional Manoel Fortunato de Souza, do Partido Liberal, foi a principal liderança nesse período e processo, embora não se tenha maiores e mais aprofundadas pesquisas. Ele assumiu a presidência da Junta Governativa (a atual Câmara de Vereadores e que à época fazia as funções da Prefeitura)  em 22 de fevereiro de 1879. Em 1887 o município de Torres foi extinto quando o Brasil era governador pelo gabinete do Barão do Cotegipe, do Partido Conservador. Com a proclamação da República o ato da extinção do município de Torres foi reconsiderado e já em 23 de janeiro de 1890, 2 meses após a República, o município voltava a existir.

Passa a atuar no cenário torrense o jovem Álvaro Afonso Pereira, mais tarde conhecido como “Capa Verde” (atualmente Capaverde) justamente por usar um enorme capotão verde. Ele era natural de São José do Norte e chegou jovem a Torres. Era telegrafista e parece ter-se indisposto com as lideranças locais, já que era do Partido Republicano. Através de pesquisas sabe-se que Capaverde foi para Porto Alegre e lá desligou-se dos Correios e Telégrafos (que era uma atividade importante e bem remunerada á época)., Certamente deve ter-se acercado a Júlio de Castilhos, chefe Republicano, e suas lideranças, pois em 2 de fevereiro de 1890 instalava-se uma nova Junta Governativa Provisória e Álvaro Afonso Pereira Capaverde a presidia. Dela fazia parte ainda Henrique André Muller e Francisco Antônio Rolim, outros dois nomes que certamente fizeram parte do processo de emancipação de 1878.

Entre 1890 e 1892 várias outras pessoas fizeram parte de Juntas Governativas de Torres. Eram lideranças e poderiam ter-se envolvido com a emancipação. O escrivão Jacó Gayer Ourives, presidente da Junta em 1891; Quintiliano Raupp em 1892; Luiz Bauer também em 1892; os membros do primeiro Conselho Municipal: o professor Teodoro Pacheco de Freitas (pai do coronel Pacheco), Manoel José Maria dos Santos, João Amaro Pereira, Manoel José de Matos Pereira, Pedro Pacheco dos Santos, Timóteo da Silva Bueno e José Jacó Tietboehl. Muitos deles são homenageados com seus nomes em ruas, avenidas e praças em Torres        

São algumas dos lideres políticos, militares e até eclesiásticos de Torres à época das duas emancipações, em 1878 e 1890/92.  Teria que se estudar mais sobre a procedência, a vida e o destino desses homens para se ter, então, uma visão completa desse período tão importante do nascedouro político-administrativo do município de São Domingos das Torres.

Fonte: Torres Origens, de Ruy Ruben Ruschel, edição Gazeta 1995/esgotada; correspondência da Câmara Municipal de Conceição do Arroio de 18 1857 em 1858/AHRS; A Vida Religiosa da Grande Torres, de Rizzieri Delai, Raízes de Torres 1995

O DNA polítcio riograndense

Por Marisa Simon

No Rio Grande do Sul,após a sangrenta Revolução  de  1893 (1893-1895)se sucederam  violentas manifestações de ódio e rancor destiladas nas páginas do jornal  A Federação, órgão do Partido Republicano Riograndense(PRR), fundado por Júlio de Castilhos, eleito 1ºGovernador do  Estado após a Proclamação da República.

Os opositores maragatos, que se faziam ouvir através do jornal” A Reforma”,fundado em 1869 por Gaspar Silveira Martins eram  rotulados como “bandidos,déspotas, caudilhos”. Os maragatos  acusavam os republicanos do PRR de terem dividido o povo gaúcho tornando o governo um órgão do partido,   instaurando uma política de ódios .

 Neste clima de embates políticos na então imprensa gaúcha foi lançado o jornal Correio do Povo, fundado  pelo jornalista Caldas Júnior, que se destacou pela sua imparcialidade, informações objetivas e comentários  Isentos.

   Os gaúchos entraram no século XX tendo como governador Antônio Augusto Borges de Medeiros(PRR), que se manteve no poder por 4 décadas. Para a oposição as eleições eram uma farsa e o castilhismo, representado por Borges, uma ditadura.

Porto Alegre com cerca de 70.000 habitantes com ruas íngremes , pouco calçamento,abastecimento de ´agua em carros pipas, sem esgoto, contando com  o  transporte por tração animal, iniciou sua modernização           a partir do século XIX. A capital era a” caixa de ressonância” dos embates políticos da época.

O Rio Grande do Sul sempre foi um fator de “instabilidade política” no contexto nacional. Passaram-se 100 ano se ainda apresentamos as mesmas características  de confronto.. É o DNA gaúcho determinado  pela sua história.

jul 27, 2014 - Textos históricos    No Comments

Perda de três grandes escritores

Por Suely Braga

JOÃO UBALDO RIBEIRO – Nasceu em Itaparica em 28 de janeiro de 1941 e faleceu em 18 de julho de 2014. Foi escritor, jornalista, roteirista e professor. Teve algumas de suas obras adaptadas para a televisão. Membro a Academia Brasileira de Letras. Suas principais obras são: romance Sargento Getúlio, O Livro do Lagarto, Viva o Povo Brasileiro entre outras.

RUBEM ALVES – Nasceu em Boa Eperança, Minas Gerais em 15 de setembro de 1933. Morreu em Campinas em 19 de julho de 2014. Foi psicanalista, teólogo, educador e escritor. Deixa-nos um legado muito grande. Suas principais obras são: Ostra Feliz não faz pérolas, Coversa com quem gosta de ensinar, A alegria de ensinar, Pedagogia dos caracóis e muitos outros. Infantis: A menina e o pássaro, A volta do pássaro encantado e Pipa e a flor e outros.

ARIANO SUASSUNA – Nasceu em João Pessoa em 16 de junho de 1927 e morreu em Recife em 23 de julho de 2014. Foi dramaturgo, ensaísta e poeta. Suas principais obras são: O Auto da Compadecida, levado à televisão, o Romance d’A Pedra do Reino, o Príncipe do Sangue Vai-e-Volta. Foi o maior defensor da cultura do Nordeste Brasileiro.
Membro da Academia Brasileira de Letras e Doutor Honoris Causa de Universidade do Rio de Janeiro.

Fonte: internet
Osório, 26/07/2014

O Dia do Escritor Osoriense

Por Rodrigo Trespach
O Legislativo Municipal votou e aprovou por unanimidade na última segunda-feira, dia 14 de outubro, o Projeto de Lei nº 186/2013, de autoria do vereador Carlos Jaime Dalpaz, que institui o dia 8 de junho como o Dia do Escritor Osoriense. A ideia não é nova, já circulava nas reuniões de pauta para a revista Doispontos, do amigo Anderson Alves Costa, que recentemente lançou “Fragmentos e iluminuras do discurso pré-maturo”, pela editora Pragmatha, de Porto Alegre, e nos cafezinhos com o professor Jerri Roberto Almeida. Também havia consultado a direção da AELN – Academia de Escritores do Litoral Norte gaúcho antes de levar a proposta ao vereador.
Justifica-se a data por ser ela a data de nascimento de Antônio Stenzel Filho, escritor e historiador, autor de “A Vila da Serra (Conceição do Arroio): Sua descrição física, histórica. Usos e costumes até 1872”. Stenzel Filho foi o primeiro cidadão osoriense a ter uma obra publicada. Para usarmos a denominação gentílica preferida do saudoso Guido Muri, Stenzel Filho era “arroiense”. De corpo e alma. No próximo ano sua “A Vila da Serra” completa nove décadas! O livro, publicado em 1924, pela Livraria Globo de Porto Alegre, teve uma segunda edição impressa pela IEL/UCS/EST, em 1980.
Antônio Stenzel Filho nasceu na então Conceição do Arroio em 8 de junho de 1862, tendo falecido na mesma cidade em 4 de novembro de 1933. Filho do imigrante alemão Anton Stenzel, igualmente de notável colaboração para a cultura local, e de Maria Carlota dos Santos, Stenzel Filho casou em 12 de setembro de 1910 com Haydée Jacques de Oliveira. Não deixou descendência.
Além de ter sido escrivão do júri (1888), Tabelião e Escrivão de Órfãos (entre 1906 e 1922) e um dos idealizadores da Sociedade Beneficente São Francisco de Paula, criada em 1925, dedicou-se a atividade literária e cultural, tendo participado Sociedade Dramática e Recreativa Amor à Arte, cujo prédio sede fora construído por seu pai.
Como autor dramático escreveu e encenou “Mário”, “Cenas da Revolução” e “O Filho da lavadeira”. Durante a década de 1930, foi também o redator do jornal municipal “O Legendário”. Deixou ainda um manuscrito denominado “Apontamentos Históricos e Geográficos sobre Conceição do Arroio”.
No campo político, participou da Revolução Federalista (1893-1895) e foi, provisoriamente, Prefeito Municipal, em 1908.
Justifica-se assim, que o dia 08 de junho de 2014 marque a história da cidade com um evento alusivo aos 90 anos da publicação de “A Vila da Serra” e que esse dia seja lembrado pela comunidade como o “Dia do Escritor Osoriense”. Homenagem que se presta não somente a Antônio Stenzel Filho, mas a todos àqueles, antigos e novos, que têm colaborado com a divulgação da literatura como um todo e, em especial, a literatura produzida na cidade.
Parabéns ao vereador Dalpaz por levar adiante os anseios dos escritores da cidade, e a Câmara de Vereadores pela sensibilidade em aprovar o projeto. Aguardemos agora a sanção do prefeito.

 

mar 19, 2013 - Textos históricos    2 Comments

Por que vieram os açorianos para o Brasil? Um pouco de história

Por Leda Saraiva Soares

Após o descobrimento do Brasil, por mais de dois séculos, o Rio Grande do Sul ficou isolado do centro do País (questões geopolíticas).


Era necessário que se povoasse o Continente do Rio Grande de São Pedro para garantir a posse das terras. Espanhóis e portugueses viviam em constantes disputas, consequência do Tratado de Tordesilhas. Os portugueses mantinham um posto avançado do rio da Prata, defronte Buenos Aires, onde fundaram a Colônia do Sacramento em 1680, tendo como objetivo fixar nesse ponto a fronteira do Brasil. De São Paulo até Colônia do Sacramento não havia um só povoado. Em 1684 fundam Laguna para abastecer a Colônia. Até então, o acesso se dava por mar.
Em 1703, abre-se o primeiro caminho pelo litoral: antiga Estrada da Laguna, ora pela praia, ora pelo campo e por muito tempo foi palmilhado por todos que se aventuravam a estas paragens:

– Frota de João de Magalhães em 1725, para povoar o Rio Grande.
-Padres Jesuítas que vinham catequizar índios.
-Paulistas e bandeirantes que vinham atraídos pelas minas de prata no Peru e para aprisionar índios que eram levados para a lavoura no centro do País.
– Tropeiros que buscavam gado.
-Militares que vinham defender as fronteiras.
-Casais açorianos que vieram povoar esta terra.
Em 1737, Silva Paes funda Rio Grande com o forte militar Jesus, Maria e José para servir de apoio militar, defensivo à Colônia do Sacramento, constantemente sitiada por forças espanholas.

Em 1742, Silva Paes escreve ao Rei de Portugal sobre a necessidade da vinda de casais açorianos para trabalhar a terra nestas paragens. Diga-se que no Rio Grande só havia militares e criadores de gado que não se fixavam a terra. Deixavam em suas estâncias peões e capatazes. Viviam com suas famílias em Laguna, São Paulo…
Estâncias, rincões, invernadas iam surgindo ao longo do caminho trilhado pelos tropeiros.

Assim como Minas Gerais, as terras do Sul do Brasil começaram a fascinar os paulistas por conduzirem ao estuário platino e às minas de prata do Peru. Outro fator de atração foi a descoberta de expressiva quantidade de gado muar, cavalar e vacum. Tropear gado para o centro do país transformou-se em rendoso comércio para os tropeiros.

O Brasil transformava-se na Terra da Promissão para os filhos de Portugal. O ouro atraia no fim do século XVII e começo do seguinte, toda a gente, acalentados todos na esperança de descobrirem novos garimpos de Minas Gerais e nas catas de suas montanhas auríferas o cobiçado metal que seria a fortuna e a realização dos mais belos sonhos humanos .
O número de portugueses do continente, decidido a vir para o Brasil era tão grande que o governo começou a se preocupar.
A notícia do ouro e diamantes também chegou ao Arquipélago dos Açores. E um bom número de embarcações começou a fazer viagens para o Brasil, estabelecendo comércio de forma direta, sem o conhecimento do governo português, levando também o metal precioso para as ilhas, o que passou a desagradar ao rei de Portugal. Mas o Brasil precisava ser povoado. Os espanhóis já estavam avançando sobre o território brasileiro. A terra era de quem a povoasse. O governo português, para tomar controle da situação, baixou um edital no arquipélago dos Açores, acenando aos ilhéus com algumas benesses. O interesse foi grande. Muitos se inscreveram. O governo Português ao enviar ilhéus para o Brasil estaria resolvendo dois grandes problemas:
1-    A necessidade premente de povoar o Brasil.
2-    Superlotação das Ilhas dos Açores e falta de terras.
Os açorianos, por natureza, eram dotados de forte espírito de família, hospitaleiros, altivos, religiosos, tolerantes, valorosos, sem propensão ao crime. Amavam a liberdade e a independência. Eram disciplinados, obedientes e conservadores dos costumes domésticos e sociais.
Vejamos o que escreve Fernandes Bastos sobre a portaria que cria a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Arroio (Osório):

Transcrição ipisis litteris:
 (…) O Governador José Marcelino de Figueiredo [R.G.S.] consegue que o Vice-Rei do Brasil mande fundar uma povoação com o título de Nossa-Senhora-da-Conceição-do-Arroio, entre as Freguesias de Santo-Antonio-da-Guarda-Velha [Santo Antônio da Patrulha] e a de S.Luiz-do-Norte [Mostardas] para assentar sessenta casais açorianos.

Para isso expede o Bispo do Rio-de-Janeiro, Dom Frei Antônio do Desterro a necessária portaria, que tem a data de 18 de janeiro de 1773.   

Transcrição ipsis litteris da portaria expedida pelo Bispo D. Antônio do Desterro:
Dom Frei Antônio do Desterro, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo do Rio de Janeiro e do Conselho de sua Magestade [sic] Fidelíssima. Porquanto ilustríssimo e Excellentissimo Senhor Marquez Vice-Rey d’este Estado manda fundar uma nova povoação de moradores com o titulo de N.S.-da-Conceição-do-Arroio no lugar que fica entre a Freguesia de Santo-Antonio-da-Velha-Guarda e outra nova povoação que manda tão bem fundar com o titulo de São-Luiz-do-Norte, na Província do Rio-Grande,deste nosso Bispado:

Notas

 1 – Fortes, Gen. João Borges. Os Casais Açorianos. Presença Lusa na Formação sul-rio-grandense. Martins Livreiro – Editor –  p. 21,.(Edição do Centenário Farroupilha). 1999.
2 – BASTOS, Manoel E. Fernandes. A Fundação da Freguezia [sic] de N.S.da Conceição do Arroio, cap. VI, p.154.

nov 8, 2012 - Textos históricos    No Comments

Rastros da História

Rastros da História

Por Leda Saraiva Soares
Texto publicado no jornal Boto há alguns anos:

Nossa história começa bem longe daqui…
Percorrendo caminhos que mexem com a memória e o imaginário, observei um grande rastro deixado pelo trânsito intenso de animais. Eram pegadas que iam e vinham. Parei para ver o que significava aquilo. Surpresa: deparei-me com tropeiros que cavalgavam rumo ao Sul do Brasil. A curiosidade tomou conta de mim. Eu queria saber de onde vinham, para onde iam, quem eram…

Mergulhei nos arquivos silenciosos da história e descobri que aqueles homens destemidos eram paulistas, que se aventuravam por estas paragens em incursões exploratórias, no século XVIII. Haviam descoberto grande quantidade de gado “chimarrão” (vacum, cavalar e muar), trazidos pelos espanhóis e que se desenvolvera desordenadamente lá pelas bandas do Prata. Arrebanhar esse “gado de ninguém” estava se transformando num negócio rendoso para eles!… Faziam isso a partir de 1700, quando o primeiro caminho pelo litoral, fora desbravado para povoar o Rio Grande.  Estrada da Laguna era o nome que deram a esse difícil acesso palmilhado por tropeiros, bandeirantes,  militares, padres jesuítas e tantos quantos vinham para o Sul garantir a Portugal a posse das terras já invadidas por espanhóis.

Em 1680, quatro anos antes da fundação de Laguna, S.C. , os Portugueses ergueram um forte avançado junto ao Rio da Prata,na Colônia do Sacramento, em ponto estratégico para iniciar a definição dos limites do Brasil. Nessa época, o Sul do Brasil se estendia até o Rio da Prata. Nenhuma povoação havia entre esses dois pontos.

De Laguna à Colônia do Sacramento gastavam- se cento e vinte dias de jornada. A  metade do tempo ficavam resolvendo toda sorte de problemas:   esperavam condições favoráveis para a travessia de rios; construíam jangadas com troncos de árvores para atravessar os rios mais profundos… Substituíam os eixos  que  se incendiavam pelo constante atrito, das pesadas carretas que transportavam os mantimentos com madeira de troncos de árvores. Paravam de viajar às quatro ou cinco horas da tarde para se arrancharem. Levavam vários cavalos para montaria, que iam se alternando para resistirem à jornada. Acendiam fogueiras para que os animais ferozes não os atacassem. À noite, ficavam alguns homens em vigília, armados, para evitar que as onças devorassem suas montarias. As dificuldades eram muitas, mesmo porque não havia ainda nem roteiro… Iam escolhendo caminhos. Em tempo de seca, no rio Tramandaí, atravessavam com água pela cintura. As mercadorias das carretas eram transportadas em jangadas para a outra margem do rio. As carretas vazias, com os bois atrelados, eram  guiadas por um homem experiente que ia nadando e fustigando os bois, até alcançarem o outro lado. Em tempo de enchente, as dificuldades se avolumavam com as águas. Currais, invernadas, rincões e estâncias foram surgindo ao longo do caminho.

O tempo foi ficando para trás. E, no eco do tropel produzido pelas patas dos animais, entre restingas, campos e areais  foi se delineando a história da Província do Rio Grande de São Pedro!…

A guarda de registro
Rastreando os caminhos que se abriam para a nossa história, cheguei às margens do rio Tramandaí. Ali acontecia alguma coisa… Fui me achegando para descobrir do que se tratava. Verifiquei que em 1738 – 40 estabelecera – se à margem desse rio uma Guarda de Registro  com o objetivo de controlar o trânsito de mercadorias e de pessoas e ,ainda, cobrar uma taxa ( imposto). Compunha – se de seis soldados e de um cabo, tendo à sua disposição vinte e oito cavalos. Ao nascer do sol, diariamente, o cabo observava as estradas: campo e praia, nos dois passos do Tramandaí, novo e velho, para ver se por estas partes havia rastros de gente, de pé ou de cavalo que se ocultasse à sua vista(…) Permaneceu aqui por volta de meio século. No final de século XVIII transferiu – se para Torres. Em 1813, Manoel da Silva Mascarenhas requereu a concessão de meia légua de terras ao Norte do Tramandaí( Imbé), onde antes servira à Guarda, ficando devolutas aquelas terras com a transferência desta para São Domingos das Torres. Obteve as terras requeridas e demarcou – as em 1815.

Trilhando o caminho que se modernizou, procurei alguma coisa que fizesse referência à Guarda de Registro. Nada encontrei às margens do rio Tramandaí que pudesse sinalizar esta parte tão significativa da história. Fiquei triste, angustiada e me perguntei: “Será que ninguém sabe que um dia existiu essa Guarda de Registro aqui em Tramandaí?” E fiquei preocupada, porque é muito triste um povo sem memória!…Naquele momento, eu desejei ser uma arquiteta para projetar um monumento imponente  em parceria com o governo português , onde houvesse detalhes com azulejos trazidos do “além – mar” e um jardim muito bem cuidado para  chamar a atenção de  todos que por este litoral cruzassem. Esse local se transformaria em um ponto de grande atração turística, do qual toda população de Imbé e de Tramandaí pudesse se orgulhar. Evidentemente constaria no calendário de eventos do Estado, não só por sua beleza mas por sua  importância histórica!…

A Independência do Brasil

A Independência do Brasil

Por Mariza Simon dos Santos

A maré de inovações e mudanças que invadiu a Europa após a Revolução Francesa (1789) também teve u m efeito devastador na então colônia de Portugal- o Brasil. Era uma população analfabeta, isolada do mundo da época e controlada rigidamente. Manufaturas e indústria grafica eram proibidas , como também jornais. Não havia circulação de idéias. Uma minoria tinha acesso a livros e até mesmo réu niões eram vigiadas e proibidas. De cem brasileiros só saibam ler e escrever cerca de dez .

Publicações de pensadores europeus , com idéias libertárias eram trazidas da Europa, onde alguns privilegiados haviam estudado, e alimentavam as reuniões secretas, como as da maçonaria. A partir do século XVIII surgiriam revoltas derivadas do conflito de interesses entre a colônia e Portugal chamadas de nativistas pelo seu caráter local, tendo á frente brasileiros nativos; a Revolta dos Beckman 1684); a Guerra dos Emboabas (1707, Minas Gerais); a Guerra dos Mascates (1710, Pernambuco); a Revolta de Felipe dos Santos (1720, Minas Gerais). As mais separatistas foram a Inconfidência Mineira (Vila Rica, 1789) e a Conjuração Baiana (Salvador ,1798) que evidenciaram uma certa consciência da posição colonialista.

A possibilidade de tornar-se um país independente era muita remota. O isolamento e as rivalidades entre grupos pobres e analfabetos (90% ) e uma minoria rica e intelectualizada de um país à beira da falência, sem exércitos,navios,armas e munições,prenunciava uma longa e sangrenta guerra contra os portugueses. Mas o anseio de liberdade crescia numa pequena elite já existente. O retorno a Lisboa (abril1821) de D.João VI deixou o país despojado de seus bens financeiros,guardados no Banco do Brasil e no Tesouro Real.Seu filho D.Pedro I, como Príncipe Regente encontrou os cofres vazios. Ao manter a chama acesa da independência brasileira D.Pedro I apelou para empréstimos estrangeiros( quando nasceu nossa dívida) e pela valorização fitícia do dinheiro (gerando inflação). Somou-se-se a este quadro político graves problemas econômicos, já que a produção açucareira e a mineração de ouro e diamantes estavam em decadência, apesar do incremento da produção do algodão.Estava sur gindo um novo eixo econômico no vale do Paraíba com a produção do café, uma riqueza que se expandiu.

Após o “grito da Independência” ( concepção artística, visualizada e proclamada pela pintura de Pedro Américo- o quadro “Independência do Brasil”) iniciou-se definitivamente o processo de separação de Portugal. O Brasil se apresentava como um binômio: um Brasil transformado pela presença da Corte Portuguesa, com algumas milhares de pessoas com requintes de refinamento, alojadas num vilarejo modesto e colonial(Rio de Janeiro); contráriamente havia brasileiros espalhados por um vasto territorio quase desconhecido, isolados e ignorantes. Não haviam elos de ligação entre estes dois Brasis., a não ser a aversão ao trabalho manual , dependente da mão de obra escrava. A situação brasileira nos anos seguintes foi muito delicada e exigiu habilidade política,na tentativa de não fraccionar o território, a exemplo das colônias que se separavam da Espanha.A Bahia manteve-se fiel à Coroa Portuguesa e também o Maranhão, Piauí, o Pará e o Amazonas. Após inúmeros conflitos foram sufocadas as rebeliões nestas Províncias, instalando-se uma relativa acomodação ao status quo.

Já se passaram 500 anos da descoberta do Brasil e cerca de quase 200 anos de nossa libertação da Coroa Portuguesa. No entanto, ainda hoje observamos um país bipartido, com lugares de alto padrão intelectualizado e lugare e segmentos sociais de homens e mulheres analfabetos. Temos uma imensa juventude semi-alfabetizada e atrasada. Temos um Brasil multicultural e de extensa territorialidade mas convivendo entre abismos sócio-culturais. Ainda não tomamos consciência de nossas deficiências e atrasos neste século XXI. Não enfrentamos decisivamente nosso pior inimigo: a ignorância cultural e o semi-analfabetismo. Canalizamos nossos esforços econômicos e sociais nos segmentos universitários e formamos jovens despreparados para erguer e projetar nosso país.Que projeto teremos para este nosso País, senão pensarmos e prepararmos as multidões de crianças e jovens para um futuro tão próximo? Desta maneira faremos a verdadeira Independência deste Brasil tão rico, privilegiado por uma Natureza exuberante, que responderá generosamente aos nossos esforços. Precisamos concretizar a verdadeira independência de nosso país.

jun 24, 2011 - Textos históricos    No Comments

Machado de Assis

Machado de Assis


Pesquisa Carlos Leite Ribeiro

Joaquim Maria Machado de Assis,é o maior escritor brasileiro de todos os tempos, o mais extraordinário contista da Língua Portuguesa e um dos raros romancistas de carácter universal, não tanto pela temática mas pela análise certeira e perene da alma humana. O primeiro documento que pode ser chamado de Literatura Brasileira é a carta de Pêro Vaz de Caminha ao Rei Manuel I de Portugal, em que o Brasil é descrito, em 1500. Nos dois séculos seguintes, a literatura brasileira ficou resumida à descrições de viajantes e à textos religiosos. O neoclassicismo se expandiu no século XVIII na região das Minas Gerais.


Aproximadamente em 1836, o Romantismo afetou a Literatura Brasileira e nesse período, pela primeira vez, a literatura brasileira tomou formas próprias, adquirindo características diferentes da literatura europeia. O Romantismo brasileiro (possuindo uma temática indigenistas), teve como seu maior nome José de Alencar e exaltava as belezas naturais do Brasil e os indígenas brasileiros.


Após o Romantismo, o Realismo se expandiu no Brasil, principalmente pelas obras de Machado de Assis (fundador da Academia Brasileira de Letras). A obra de Machado de Assis abrange, praticamente, todos os géneros literários. Na poesia, inicia com o romantismo de Crisálidas (1864) e Falenas (1870), passando pelo Indianismo em Americanas (1875), e o parnasianismo em Ocidentais (1897-1880). Paralelamente, apareciam as colectâneas de Contos fluminenses (1870) e Histórias da meia-noite (1873); os romances Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878), considerados como pertencentes ao seu período romântico. A partir daí, Machado de Assis entrou na grande fase das obras-primas, que fogem a qualquer denominação de escola literária e que o tornaram o escritor maior das letras brasileiras e um dos maiores autores da literatura de Língua Portuguesa.

Joaquim Maria Machado de Assis era um menino pobre, neto de escravos, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira portuguesa. Passou a infância num sítio onde sua família trabalhava, na cidade de Ladeira Nova do Livramento, no Rio de Janeiro. Uma pessoa que muito ajudou Joaquim foi sua madrinha Dona Maria José de Mendonça Barroso, viúva do brigadeiro e senador do Império Bento Barroso Pereira, dona da fazenda.


Quando criança, Joaquim teve uma saúde muito frágil. Possuía uma doença chamada epilepsia, que afectava seus movimentos, e também era ga-ga-gago. Divertia-se empinando pipas, caçando lagartixas e ninhos de passarinho. Gostava também de observar as pessoas, ver o que elas faziam, como se comportavam e o que diziam. Assim era ele, curioso que só. Nessa época, ainda pequeno, perdeu sua única irmã e também sua mãe.


Naquela época, quando ainda havia escravidão no País, as pessoas mestiças, que tinham uma cor misturada entre o negro e o branco, sofriam muitos preconceitos. Machado de Assis, por ser neto de escravos, era mulato, e também muito discriminado. E por ser pobre, não tinha condições de estudar em cursos regulares, pois precisava trabalhar para ajudar o pai e a madrasta a sustentarem a casa.


Embora não tenha estudado durante muito tempo, adorava aprender. Em São Cristóvão, conheceu uma senhora francesa, proprietária de uma padaria; lá, o forneiro (encarregado das fornadas de pães) deu as primeiras lições de Francês ao menino.
Aos 14 anos, resolveu que já era hora de enfrentar a vida. Passou a ajudar a madrasta a vender doces. Trabalhou também como caixeiro de livraria (entregava livros nas casas), tipógrafo e revisor.


Havia muita coisa que ele queria aprender. E mesmo sobre as coisas que ele já tinha aprendido, sempre queria saber mais. Queria estudar diferentes línguas, conhecer toda a história, todos os países, ler livros de grandes escritores… Essas coisas, ninguém lhe ensinava, ele estudava e aprendia sozinho mesmo (era autodidacta). Nas horas vagas, estava sempre mergulhado na leitura. Na biblioteca Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, pegava muitos livros emprestados e não só os lia, mas também tinha o cuidado de anotar os trechos que lhe traziam ensinamentos. Por esse motivo, desde muito jovem, tornou-se um dos maiores intelectuais do País. Aos 16 anos, publicou seu primeiro poema, “Ela”, na revista Marmota Fluminense. E, a partir daí, tornou-se jornalista e cronista.


Naquela época, a profissão de escritor não dava dinheiro suficiente para pagar as contas; por isso, Machado de Assis entrou para o serviço público. Com o tempo, as coisas foram melhorando e sobrou mais tempo para ele escrever.
Foram grandes as dificuldades; mas mesmo assim, por meio de muito esforço, Machado conseguiu superar os desafios e se tornar um escritor talentoso e respeitado.


Em 12 de Novembro de 1869, casou-se com a portuguesa Carolina Xavier de Novaes, com quem teve um casamento feliz e harmonioso durante os 35 anos em que ficaram juntos. Não tiveram filhos. D. Carolina Novaes, mulher culta, apresentou Machado de Assis aos clássicos portugueses e a vários autores da língua inglesa. Em 29 de Setembro de 1908, quatro anos após a morte de sua esposa, Machado de Assis faleceu na cidade do Rio de Janeiro. Sua oração fúnebre foi proferida pelo académico Rui Barbosa.

Comentários a dois contos de Machado de Assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Por Machado de Assis
A história é narrada por Brás Cubas, um defunto autor que após narrar sua morte e funeral começa a contar a sua vida. Conta a infância, as travessuras, o primeiro namoro com Marcela (interesseira e bela, fica pobre e feia), um namoro com Eugênia (que acaba pobre) e mais tarde seu noivado com Virgília. Como Virgília casa com outro eles mais tarde se tornam amantes. O romance era ajudado por Dona Plácida (que também morre pobre) e acaba quando esta vai para o Norte com o marido. Conta então seu reencontro com o amigo Quincas Borba (primeiro na miséria, depois rico, depois miserável e louco), que lhe expõem sua filosofia, o Humanitismo. Cubas passa seguir o Humanitismo. Já deputado, não se reelege ou se torna ministro e funda um jornal de oposição baseado no Humanitismo. Mais velho se volta para a caridade e morre logo após criar um emplasto que curaria a hipocondria e lhe traria fama.

Quincas Borba – Por Machado de Assis
Continuação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba conta a história do ex-professor primário Pedro Rubião de Alvarenga, que após cuidar do filósofo Quincas Borba até a morte, recebe dele toda a fortuna sob a condição de tomar conta do cachorro, que também tem o nome de Quincas Borba. Rubião muda-se então para o Rio. No caminho conhece o casal Sofia e Cristiano Palha. Apaixonado por Sofia e ingênuo, Rubião vai sendo explorado e aproveitado por todos os amigos, que lhe tomam dinheiro emprestado, lhe pedem favores, jantam em sua casa mesmo quando ele não está, etc. Vai envolvendo-se sem sucesso com a política e perdendo muito dinheiro com gastos exagerados e empréstimos. Cristiano e Sofia (que não corresponde o amor) vão se aproveitando dele muito mais, subtraindo-lhe a fortuna, saindo do estado original de dívidas para um de opulência no final. A medida que o tempo passa, a decadência material e o desespero de não ter correspondido seu amor leva Rubião a enlouquecer. Enquanto no começo travava “discussões” com Quincas Borba (o cão), depois começa a pensar ser Napoleão III e Sofia sua esposa Eugênia. Passa a nomear todos nobres e generais, ter visões, falar sozinho. Quando ao final é internado num manicômio, sua fortuna não é mais 1% do que antes fora. Ele foge do manicômio e volta para Barbacena, de onde saíra após enriquecer, levando apenas Quincas Borba. Enlouquecido e pobre, é recolhido pela comadre e morre louco, corando-se Napoleão III, repetindo incessantemente nos seus últimos dias a célebre frase “Ao vencedor, as batatas!” Narrado em terceira pessoa, cheio de ironia sofisticada, uma personagem feminina dissimulada, uma dúvida constante (Quincas Borba é o título por causa do cão ou do filósofo?).

jun 15, 2011 - Textos históricos    No Comments

Fernando António Nogueira Pessoa

Fernando António Nogueira Pessoa, nasceu em Lisboa, cidade onde também faleceu, na sequência de uma cólica hepática, depois de uma vida praticamente desconhecida e anónima. Fernando Pessoa ele, mesmo é, só por si, um grande poeta do simbolismo e do modernismo, pela temática da evanescência, indefinição e insatisfação das coisas e dos seres, e pela inovação praticada por entre diversas sendas de formulação do discurso poético (sensacionismo, paulismo, interseccionismo, etc.).

Com Fernando Pessoa, a quem se deve também o enigmático volume de poemas a Mensagem, que transcende em muito a simples glorificação do passado mítico português (e sem falar da sua produção teatral, ou dos poemas ingleses), a literatura portuguesa encontra a equacionação lírica de questões fundamentais da existência humana, de timbre filosófico ou de avulsa emergência quotidiana, numa escrita fundadora dos pilares em que verdadeiramente se afirma a nossa modernidade.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa
Escritor português, nasceu a 13 de Junho de 1888, numa casa do Largo de São Carlos, em Lisboa. Aos cinco anos morreu-lhe o pai, vitimado pela tuberculose, e, no ano seguinte, o irmão, Jorge. Devido ao segundo casamento da mãe, em 1896, com o cônsul português em Durban, na África do Sul, viveu nesse país entre 1895 e 1905, aí seguindo, no Liceu de Durban, os estudos secundários.

Frequentou, durante um ano, uma escola comercial e a Durban High School e concluiu, ainda, o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade do Cabo (onde obteve o «Queen Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio de estilo inglês), com que terminou os seus estudos na África do Sul. No tempo em que viveu neste país, passou um ano de férias (entre 1901 e 1902), em Portugal, tendo residido em Lisboa e viajado para Tavira, para contactar com a família paterna, e para a Ilha Terceira, onde vivia a família materna. Já nesse tempo redigiu, sozinho, vários jornais, assinados com diferentes nomes.

De regresso definitivo a Lisboa, em 1905, frequentou, por um período breve (1906-1907), o Curso Superior de Letras. Após uma tentativa falhada de montar uma tipografia e editora, «Empresa Íbis — Tipográfica e Editora», dedicou-se, a partir de 1908, e a tempo parcial, à tradução de correspondência estrangeira de várias casas comerciais, sendo o restante tempo dedicado à escrita e ao estudo de filosofia (grega e alemã), ciências humanas e políticas, teosofia e literatura moderna, que assim acrescentava à sua formação cultural anglo-saxónica, determinante na sua personalidade.

Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos e em que Fernando Pessoa foi viver de novo com a família, iniciou uma relação sentimental com Ophélia Queiroz (interrompida nesse mesmo ano e retomada, para rápida e definitivamente terminar, em 1929) testemunhada pelas Cartas de Amor de Pessoa, organizadas e anotadas por David Mourão-Ferreira, e editadas em 1978. Em 1925, ocorreria a morte da mãe. Fernando Pessoa viria a morrer uma década depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde foi internado com uma cólica hepática, causada provavelmente pelo consumo excessivo de álcool.

Levando uma vida relativamente apagada, movimentando-se num círculo restrito de amigos que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés da capital, envolveu-se nas discussões literárias e até políticas da época. Colaborou na revista A Águia, da Renascença Portuguesa, com artigos de crítica literária sobre a nova poesia portuguesa, imbuídos de um sebastianismo animado pela crença no surgimento de um grande poeta nacional, o «super-Camões» (ele próprio?). Data de 1913 a publicação de «Impressões do Crepúsculo» (poema tomado como exemplo de uma nova corrente, o paulismo, designação advinda da primeira palavra do poema) e de 1914 o aparecimento dos seus três principais heterónimos, segundo indicação do próprio Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem destes.

Em 1915, com Mário de Sá-Carneiro (seu dilecto amigo, com o qual trocou intensa correspondência e cujas crises acompanhou de perto), Luís de Montalvor e outros poetas e artistas plásticos com os quais formou o grupo «Orpheu», lançou a revista Orpheu, marco do modernismo português, onde publicou, no primeiro número, Opiário e Ode Triunfal, de Campos, e O Marinheiro, de Pessoa ortónimo, e, no segundo, Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa ortónimo, e a Ode Marítima, de Campos. Publicou, ainda em vida, Antinous (1918), 35 Sonnets (1918), e três séries de English Poems (publicados, em 1921, na editora Olisipo, fundada por si). Em 1934, concorreu com Mensagem a um prémio da Secretaria de Propaganda Nacional, que conquistou na categoria B, devido à reduzida extensão do livro. Colaborou ainda nas revistas Exílio (1916), Portugal Futurista (1917), Contemporânea (1922-1926, de que foi co-director e onde publicou O Banqueiro Anarquista, conto de raciocínio e dedução, e o poema Mar Português), Athena (1924-1925, igualmente como co-director e onde foram publicadas algumas odes de Ricardo Reis e excertos de poemas de Alberto Caeiro) e Presença.

A sua obra, que permaneceu maioritariamente inédita, foi difundida e valorizada pelo grupo da Presença. A partir de 1943, Luís de Montalvor deu início à edição das obras completas de Fernando Pessoa, abrangendo os textos em poesia dos heterónimos e de Pessoa ortónimo. Foram ainda sucessivamente editados escritos seus sobre temas de doutrina e crítica literárias, filosofia, política e páginas íntimas. Entre estes, contam-se a organização dos volumes poéticos de Poesias (de Fernando Pessoa), Poemas Dramáticos (de Fernando Pessoa), Poemas (de Alberto Caeiro), Poesias (de Álvaro de Campos), Odes (de Ricardo Reis), Poesias Inéditas (de Fernando Pessoa, dois volumes), Quadras ao Gosto Popular (de Fernando Pessoa), e os textos de prosa de Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Textos Filosóficos, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, Da República (1910-1935) e Ultimatum e Páginas de Sociologia Política. Do seu vasto espólio foram também retirados o Livro do Desassossego por Bernardo Soares e uma série de outros textos.

A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.

Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República. Pagão intelectual, lúcido e consciente, reflectia uma moral estoico-epicurista, misto de altivez resignada e gozo dos prazeres que o não comprometessem na sua liberdade interior, e que é a resposta possível do homem à dureza ou ao desprezo dos deuses e à efemeridade da vida.

Álvaro de Campos, nascido em Tavira em 1890, era um homem viajado. Depois de uma educação vulgar de liceu formou-se em engenharia mecânica e naval na Escócia e, numas férias, fez uma viagem ao Oriente, de que resultou o poema Opiário. Viveu depois em Lisboa, sem exercer a sua profissão. Dedicou-se à literatura, intervindo em polémicas literárias e políticas. É da sua autoria o Ultimatum, publicado no Portugal Futurista, manifesto contra os literatos instalados da época. Apesar dos pontos de contacto entre ambos, travou com Pessoa ortónimo uma polémica aberta. Protótipo do vanguardismo modernista, é o cantor da energia bruta e da velocidade, da vertigem agressiva do progresso, de que a Ode Triunfal é um dos melhores exemplos, evoluindo depois no sentido de um tédio, de um desencanto e de um cansaço da vida, progressivos e auto-irónicos.

De entre outros, de menor expressão, destaca-se ainda o semi-heterónimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros que sempre viveu sozinho em Lisboa e revela, no seu Livro do Desassossego, uma lucidez extrema na análise e na capacidade de exploração da alma humana.

Quanto a Fernando Pessoa ortónimo, segue, formalmente, os modelos da poesia tradicional portuguesa, em textos de grande suavidade rítmica e musical. Poeta introvertido e meditativo, anti-sentimental, reflecte inquietações e estranhezas que questionam os limites da realidade da sua existência e do mundo. O poema Mensagem, exaltação sebastiânica que se cruza com um certo desalento, numa expectativa ansiosa de ressurgimento nacional, revela uma faceta esotérica e mística do poeta, manifestada também nas suas incursões pelas ciências ocultas e pelo rosa-crucianismo.

Figura cimeira da literatura portuguesa e da poesia europeia do século XX, se o seu virtuosismo é, sobretudo inicialmente, uma forma de abalar a sociedade e a literatura burguesas decrépitas (nomeadamente através dos seus «ismos»: paulismo, interseccionismo, sensacionismo), ele fundamenta a resposta revolucionária à concepção romântica, sentimentalmente metafísica, da literatura. O apagamento da sua vida pessoal não obviou ao exercício activo da crítica e da polémica em vida, e sobretudo a uma grande influência na literatura portuguesa do século XX.

Existe presentemente, em Lisboa, a Casa Fernando Pessoa, instalada na última morada do autor.

Cronologia de sua vida:
13 de Junho de 1888 – Nasce em Lisboa, às 3 horas da tarde, Fernando António Nogueira Pessoa.
1896 – Parte para Durban, na África do Sul.
1905 – Regressa a Lisboa
1906 – Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa
1907 – Abandona o curso.
1914 – Surge o mestre Alberto Caeiro. Fernando Pessoa passa a escrever poemas dos três heterónimos.
1915 – Primeiro número da Revista “Orfeu”. Pessoa “mata” Alberto Caeiro.
1916 – Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.
1924 – Surge a Revista “Atena”, dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz.
1926 – Fernando Pessoa requerer patente de invenção de um Anuário Indicador Sintético, por Nomes e Outras Classificações, Consultável em Qualquer Língua. Dirige, com seu cunhado, a Revista de Comércio e Contabilidade.
1927 – Passa a colaborar com a Revista “Presença”.
1934 – Aparece “Mensagem”, seu único livro publicado.
30 de Novembro de 1935 – Morre em Lisboa, aos 47 anos.

Fernando Pessoa
Segundo o Professor Linhares Filho, as duas principais características da sua modernidade seriam: a consciência do fazer artístico e a prevalência do apolíneo sobre o dionisíaco, no elaborar-se poético. Sensacionalista, o ortónimo nos mostra como sentir a paisagem, pois, para ele, todo objectivo é uma sensação nossa, toda arte é conversão da sensação em objecto, toda arte é conversão da sensação em sensação. O próprio Pessoa apresenta cinco condições ou qualidades para entender os símbolos do ortónimo: a simpatia, a intuição, a inteligência, a compreensão e a graça. Depois conclui que:

“Todo estado de alma é uma paisagem.
Uma tristeza é um lago morto dentro de nós.
Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior
e do nosso espírito, e sendo nosso espírito uma paisagem,
temos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens.”

Como se vê, um espírito tão rico e até paradoxal como o de Pessoa não podia se resumir numa só personalidade. Daí o surgimento de muitos heterónimos, principalmente o de Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos.

Morreu Fernando Pessoa – Grande poeta de Portugal
A notícia necrológica do «Diário de Notícias» com as palavras proferidas por Luís de Montalvor Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da «Mensagem», poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se tem escrito, foi ontem a enterrar.

Surpreendeu-o a morte, num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite.

A sua passagem pela vida foi um rastro de luz e de originalidade. Em 1915, com Luís de Montalvor, Mário de Sá-Carneiro e Ronald de Carvalho – estes dois já mortos para a vida – lançou o «Orpheu», que tão profunda influência exerceu no nosso meio literário, e a sua personalidade foi-se depois afirmando mais e mais. Do fundo da sua «tertúlia», a uma mesa do Martinho da Arcada, Fernando Pessoa era sempre o mais novo de todos os novos que em volta dele se sentavam. Desconcertante, profundamente original e estruturalmente verdadeiro, a sua personalidade era vária como vário o rumo da sua vida. Ele não tinha uma actividade «una», uma actividade dirigida: tinha múltiplas actividades.

Na poesia não era só ele: Fernando Pessoa; ele era também Álvaro de Campos e Alberto Caeiro e Ricardo Reis. E era-os profundamente, como só ele sabia ser. E na poesia como na vida. E na vida como na arte.
Tudo nele era inesperado. Desde a sua vida, até aos seus poemas, até à sua morte.

Inesperadamente, como se se anunciasse um livro ou uma nova corrente literária por ele idealizada e vitalizada, correu a notícia da sua morte. Um grupo de amigos conduziu-o ontem a um jazigo banal do cemitério dos Prazeres. Lá ficou, vizinho de outro grande poeta que ele muito admirava, junto do seu querido Cesário, desse Cesário que ele não conhecera e que, como ninguém, compreendia.

Se Fernando Pessoa morreu, se a matéria abandonou o corpo, o seu espírito não abandonará nunca o coração e o cérebro dos que o amavam e admiravam. Entre eles fica a sua obra e a sua alma. A eles compete velar para que o nome daquele que foi grande não caia na vala comum do esquecimento.

Tinha 47 anos o poeta que ontem foi a enterrar. Quarenta e sete anos e um grande amor à Vida, à Arte e à Beleza. Quando novo, acasos do Destino, a que ele obedecia inteiramente – Fernando Pessoa teósofo, cristão, que conhecia todas as seitas religiosas e as negativistas, pagão como só os artistas sabem ser, Fernando Pessoa obedecia cegamente ao Destino – levaram-no para a África do Sul. E na Universidade do Cabo cursou o inglês. E de tal maneira estudou a língua que Shakespeare e Milton imortalizaram, que, anos passados, apresentava aos «cercles» literários da serena Albion quatro livros de poemas – «English Poems», I, II, III, IV; «Antinous» e «35 Sonnets». E num concurso de língua inglesa alcançou o primeiro prémio.

Depois, uma vez em Portugal, a sua actividade literária aumentou. É de então que data a sua colaboração na «Águia», onde o seu messianismo metafísico, num célebre e elevado estudo, anunciou o aparecimento do Super-Camões da literatura portuguesa.

1915. «Orpheu». Movimento intenso de renovação. Entretanto, colabora no «Centauro», «Exílio», «Portugal Futurista», «Contemporânea». Começa a ser amado e compreendido.

1924. Funda com Rui Vaz a revista «Athena». Depois, de então para cá, a sua actividade multiplica-se. Colabora em revistas modernistas, como «Presença», «Momento» e, há um mês ainda, no «Sudoeste», que Almada Negreiros fundou com notável desassombro. Traduziu Shakespeare e Edgar Poe. Estas são, em linhas muito esquemáticas e gerais, as obras que definem a sua personalidade. Quem o quiser compreender folheie a sua obra vasta e dispersa. Começará a amá-lo.

Da capela do cemitério dos Prazeres, para jazigo de família, cerca das onze horas de ontem, partiu o corpo do grande poeta. Alguns amigos de sempre acompanharam-no. Foram eles, pelo «Orpheu», Luís de Montalvor, António Ferro, Raul Leal, Alfredo Guisado e Almada Negreiros; pela «Presença», João Gaspar Simões; pelo «Momento», Artur Augusto e José Augusto; e Ferreira Gomes, Diogo de Macedo, Dr. Celestino Soares, António Botto, Castelo de Morais, João de Sousa Fonseca, Dr. Jaime Neves, António Pedro, Albino Lapa, Silva Tavares, Vitoriano Braga, Augusto de Santa-Rita, Luís Pedro, Luís Moita, Manuel Serras, Dr. Boto de Carvalho, Rogério Perez, Celestino Silva, Telino Felgueiras, Nogueira de Brito, Dante Silva Ramos, Carlos Queiroz, Mário de Barros, Dr. Rui Santos, Marques Matias, Gil Vaz, Luís Teixeira e poucos mais.

O sr. capitão Caetano Dias, cunhado do poeta, representava a família.
Em frente do jazigo que Fernando Pessoa passa a habitar, Luís de Montalvor, seu companheiro de 24 anos de vida literária, proferiu simples e emotivas palavras em nome dos sobreviventes do grupo do «Orpheu».

E disse:
«Duas palavras sobre o trânsito mortal de Fernando Pessoa.
Para ele chegam duas palavras, ou nenhumas. Preferível fora o silêncio, o silêncio que já o envolve a ele e a nós, que é da estatura do seu espírito.
Com ele só está bem o que está perto de Deus. Mas também não deviam, nem podiam, os que foram pares com ele no convívio da sua Beleza, vê-lo descer à terra, ou antes, subir, ganhar as linhas definitivas da Eternidade, sem enunciar o protesto calmo, mas humano, da raiva que nos fica da sua partida.
«Não podiam os seus companheiros de «Orpheu», antes os seus irmãos, do mesmo sangue ideal da sua Beleza, não podiam, repito, deixá-lo aqui, na terra extrema, sem ao menos terem desfolhado, sobre a sua morte gentil, o lírio branco do seu silêncio e da sua dor.

«Lastimamos o homem, que a morte nos rouba, e com ele a perda do prodígio do seu convívio e da graça da sua presença humana. Somente o homem, é duro dizê-lo, pois que ao seu espírito e ao seu poder criador, a esses deu-lhes o Destino uma estranha formosura, que não morre. O resto é com o génio de Fernando Pessoa.»

Fonte: Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande – Portugal.

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