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mar 21, 2012 - Crônicas, Fragmentos Literários   

Crescer dói

Por Evanise Gonçalves

Sim, crescer dói! Isso é uma constatação inegável.

Quando nasci chorei, mas a dor de nascer não me trouxe recordações futuras, não me lembro desse fato. A dor de que me lembro foi a dor de crescer, a primeira noite na casa da madrinha, ainda criancinha, de quatro ou cinco anos, a primeira vez longe da mãe. E a dor da insegurança no primeiro dia de aula.

Ah, sim… crescer dói, e muito . Também lembro de uma dor infantil, mas  inesquecível, quando um marimbondo me picou o dedo mindinho , eu estava ajudando meu pai a cortar as folhas da bananeira, já me sentia útil, crescida, mas quando o bichinho me picou,voltei a ser bebê, chorei, chorei.

Em outra ocasião, tinha oito anos, sofri, quando o primeiro amor platônico foi embora da cidade.

E fui crescendo, a dor não nos impede de crescer. A adolescência chegou e com ela as dores físicas e emocionais, talvez mais físicas, o corpo mudando, as primeiras cólicas, além das mudanças súbitas de humor que até então eram desconhecidas, mas passei no estágio para a fase adulta. Formatura, emoções, amores, separações, primeiro emprego. Nessa fase descobri que os amigos não são para sempre, que os empregos, por mais que esperamos, também são provisórios, e novamente me via recomeçar, novos amores, empregos, amizades…

Dores, dores. Sim, crescer dói. E veio a gravidez, as inseguranças, o fantasma do medo. Mas tudo correu bem, depois da pré-eclâpcia , parto prematuro de 27 semanas e meia , meu filho nasceu pequenino, mas saudável, 72 dias no hospital. Esse período foi o mais longo de espera e esperança, lágrimas incontidas. Só que o tempo e o medo passaram e voltei para casa feliz com meu filho nos braços. Não senti a dor do parto, mas quem vai negar que a cesariana dói, no primeiro dia, no segundo… na segunda semana, e às vezes, até no primeiro mês depois do parto.

É verdade, crescer dói. Mas não sentimos apenas dores, crescer também nos traz maturidade, serenidade, múltiplas alegrias.

E o tempo não para e continuou atropelando-me, sorvendo-me os dias, e a dor da perda do meu pai, trouxe-me as saudades da infância perdida, dos momentos felizes, a dor da perda trouxe-me a vontade desesperadora de voltar no tempo, de buscar o que nunca mais será possível, um abraço, uma palavra, uma voz longínqua que ecoa pela casa, uma risada sonora, inesquecível.

É, crescer dói, mas precisamos crescer e aprender com as perdas e ganhos como diz Lya Luft em seu livro que traz esse título. Crescer dói, mas precisamos ter coragem e perseverança para continuar a caminhada que nos foi presenteada por Deus: a vida.

mar 3, 2011 - Crônicas, Fragmentos Literários   

A mulher na Literatura Brasileira

A mulher na Literatura Brasileira

Por Suely Braga

Educadora e Professora, Osório, 03/03/2011

No ano Internacional da Mulher, especialmente neste dia oito de março, vamos refletir sobre a importância da mulher na Literatura Brasileira. No século XIX, as mulheres viviam em sua maioria enclausuradas.Sem o direito de  aprender a ler e escrever e votar. Havia e sabemos, que há ainda uma discriminação muito grande das mulheres nesta sociedade machista.A  primeira legislação autorizando a abertura de escolas públicas se deu em 1827. A mulheres daquela época eram criadas para serem boa  mães ,boas donas de casa e obedecer seu chefe,o marido.Com o casamento elas saiam do jugo paterno, para caírem no jugo do seu dono, o esposo. Não precisavam serem  cultas ,nem intelectuais.

O machismo, como ainda hoje existe em muitas partes do mundo,naquela época imperava predominantemente. A sociedade era patriarcal. A brasileira Nísia Floresta Brasileira Augusta, nascida no Rio Grande do Norte e residiu em Recife, Porto Alegre e Rio de Janeiro, antes de se mudar para a Europa, foi uma das primeiras mulheres a romper o espaço privado dos homens na Literatura. Publicou textos em jornais da chamada “grande imprensa”.

Seu primeiro livro: “Direitos das mulheres e injustiça dos homens”, de 1932, é também no Brasil, o primeiro a tratar dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho. Anos depois, em Porto Alegre, Ana Eurídice Eufrosina Barandas, jovem escritora, publicou o livro: “Aphilósopha por amor” com contos, versos e uma peça teatral.

Já muito depois, Raquel de Queiroz colocou-se na vanguarda de sua época ao penetrar no mundo das letras. Sua estreia em livros, em1930, foi com o romance: “O Quinze”. Causou assombro. Seria realmente de    mulher? Indagavam.  O Quinze foi levado à televisão, numa série na Globo.

No regime militar ,algumas se posicionaram contra o governo ditatorial, revelando com coragem  suas posições políticas como Nélida Pinon, Lila Ripoll e outras. Nélida Pinon foi a primeira mulher a ser Presidente da Academia Brasileira de Letras . O rol das escritoras brasileiras  do século XX é vasto: Cecília Meireles, Lígia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Marina Colassanti, Zélia Gatai, as nossas gaúchas Lia Luft, Hilda Hist, Marta Medeiros, Letícia Wierzchowski ,na poesia a grande lírica Lila Ripoll, t ambém destacada por sua militância política. Na poesia infantil Maria Dinorah.


As mulheres vêm conquistando ,como muita luta , em todos os setores da sociedade seu posto, até na Presidência do Brasil, algo inédito em nosso país.  Na Literatura e na Academia de Letras temos algumas mulheres.
Atualmente,vem surgindo uma plêiade de escritoras jovens,outras nem tão jovens,que se espalham pelas editoras com suas obras literárias.

A escritora e historiadora Hilda Flores vem buscando escritoras para seu “Dicionário das escritoras gaúchas”. S urgiram também  algumas Academias Femininas  de Letras. Agora ,com a internet é infindável o número de escritoras com livros digitais, sites, blogs e twitter. As mulheres do séculos XX e XXI deixaram de ser as Amélias para ocuparem posições e cargos e navegarem no mundo das Letras.

fev 28, 2011 - Crônicas, Fragmentos Literários   

A perda de um grande escritor

A perda de um grande escritor

Por Suely Braga

Hoje, para mim, foi um dia triste. O Rio Grande do Sul está de luto pela perda de nosso maior escritor Moacyr Scliar.

O único escritor gaúcho que galgou as escadas da Academia Brasileira de Letras.Assentou-se na cadeira número 31.

Moacyr Scliar nasceu em Porto  Alegre em 1937. Foi autor de mais de oitenta livros abrangendo vários gêneros:romances,contos,crônicas ,ensaios e ficção infanto – juvenil. Muitos deles foram publicados nos Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Portugal, Suécia, Argentina, Colômbia, Israel e outros países, com grande repercussão da crítica. Recebeu muitos prêmios. Prêmio Jaboti em 1988, 1993 e em 2009. Prêmio Pen Clube do Brasil em 1990 e muitos outros. Formou-se em medicina em 1962,especializando-se em saúde pública.Viajava frequentemente tanto no país como no exterior para congressos e conferências. Em 1993 e 1997 foi professor visitante na Brown University (Departament for portuguese and Brasian Studies,nos Estados Unidos ). Foi colunista dos jornais Zero Hora e Folha de São Paulo Colaborador de vários órgãos de imprensa no país e no exterior.

Moacyr Scliar era um portento em sabedoria e de uma simplicidade incomparável.

Conhecedor profundo da Bíblia,baseava muitas de suas histórias nas histórias bíblicas como: A mulher que escreveu a Bíblia e Manual da Paixão Solitária,em 2009. Perguntei-lhe por que ele era o único escritor gaúcho que escrevia sobre a Bíblia. Ele me respondeu que a Bíblia tem as histórias mais bonitas. Fiz uma oficina de crônicas com ele, em Porto Alegre e pude testemunhar  o seu imenso cabedal de conhecimento e sua simplicidade.

Esteve várias vezes em Osório, nas Feiras de Livro para palestras ,bate-papos e foi Patrono uma vez.

Na nossa última Feira, em novembro-dezembro, ,esteve presente proferindo uma palestra. Tirei fotos com ele e autografou meu livro :Histórias para (quase ) todos os gostos,livro de contos lançado na 56ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Estava agendado para ser Patrono da Feira de Capão da Canoa, na Páscoa.

Certa vez ,numa entrevista na televisão afirmou, que sempre que era convidado e se sua agenda permitisse comparecia em qualquer cidade ,mesmo na pequenas.

Eu sempre tive uma grande admiração por ele como grande escritor e maravilhosa pessoa humana.

Moacyr Scliar deixa uma imensa lacuna na Literatura não só gaúcha, mas na Literatura brasileira.

fev 28, 2011 - Crônicas, Fragmentos Literários   

Adeus Moacyr Scliar

Adeus Moacyr Scliar

Por Benedito Saldanha

Dizem que os imortais nunca morrem. E nesta verdade cegamente acreditávamos. A Academia Brasileira de Letras declarou que o escritor gaúcho Moacyr Scliar era imortal a partir de seu ingresso naquela conceituada instituição. Só esqueceu de combinar esta moção junto aos desígnios superiores.

Scliar faleceu neste domingo, 27 de fevereiro de 2011, depois de um período de coma, em que lutou bravamente pelo bem maior que é vida. A noticia se espalhou rapidamente pelo estado, deixando entristecidos seus leitores e todos aqueles que reconheciam a sua importância para a cultura rio-grandense.

Como presidente atual da Sociedade Partenon Literário, reconheço que Scliar teve um papel importante para nossa instituição quando proferiu uma palestra histórica atendendo a convite do ex-presidente Serafim de Lima. E isto numa época em que ainda se estabelecia o processo de reativação e fortalecimento do Partenon. Agradecemos profundamente escritor imortal sua contribuição para nossa entidade pioneira e espero que este agradecimento chegue até à dimensão em que agora te encontras.

Pessoalmente tive dois encontros com o mestre da literatura. Primeiro em 2004, quando ele era Patrono e parou para conversar comigo num dos corredores da Feira do Livro de Porto Alegre. Depois em 2008, novamente na Feira do Livro, quando pedi para que ele posasse para uma foto que deixo abaixo como uma imagem que guardo até hoje no meu acervo.

Sua partida nos demonstra a grande verdade de que a vida é muito perene. Mas muitos fazem dela uma lição de dignidade, de amor e dedicação ao conhecimento como é o caso de Moacyr Scliar. Adeus Escritor. Sua obra é imortal!

fev 10, 2011 - Crônicas, Fragmentos Literários   

Quem compra livros? Quem lê livros?

Quem compra livros? Quem lê livros?

Por Mariza Simon

Que pergunta estranha! Grandes autores apresentam grandes vendagens. Saramago foi um deles, assim como tantos outros. Mas certamente não foi um dos mais lidos. A razão é que Saramago é um escritor difícil, penetrante. Coloca questionamentos, dúvidas existenciais. Propõem problemas para o leitor, especialmente o problema da forma.Certamente, vendeu muito mas foi pouco lido por se tratar de um autor filosófico.

A maioria do leitor brasileiro só alcança o nível dos autores de entretenimento, de autoajuda ou curiosidades. Livros  de conhecimento, de pesquisa, de história, livros  que induzam à reflexão e à questionamentos mais complexos interessam  a poucos..

Por que a maioria de compradores de livros não consegue ler autores de maior amplitude e complexidade? Falta de interesse?

Acredito que existam algumas respostas.  Uma delas : o nível da educação é baixo e   a  cultura, de maneira geral, é limitada.   Neste sentido, a filosofia   morreu.  A arte de interpelar o mundo, as angústias do nosso tempo, o conhecimento interior, tudo isto foi suplantado  pela crença do presente, do aqui e agora.

O mundo da cultura (arte, ciência, política, hábitos, idéias)  melhorou e avançou muito. Temos  a informação científica e os avanços da ciência no nosso cotidiano,a produção artística se desenvolveu, direitos humanos e política estão avançando bem mais que há 50 anos atrás, a sociedade se expandiu quantitativamente  mas não qualitativamente.

Por que pioramos culturalmente?  Penso,   porque a filosofia desapareceu.Filosofia- no sentido do questionamento sistemático do mundo e do eu. Esta é a razão dos livros mais elaborados pouco serem lidos e comentados; muitos deles relegados às páginas de variedades de jornais e revistas, de maneira geral.

Vivemos a cultura do presente e o que interessa é a posse material e não o conhecimento,  tão necessário   para que as pessoas reflitam e se conheçam, pois, seguramente, vivemos  à sombra do passado.

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