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mar 29, 2010 - Crônicas    No Comments

Analisando Thalia…

Analisando Thalia…

Por Rosalva Rocha – 15/03/10

Hoje resolvi parar para analisar Thalia, se é que este é um direito que me assiste. Thalia foi uma grande amiga de infância e que, muito nova ainda, casou-se. De lá para cá “aposentou-se”, mesmo que inconscientemente, dos amigos, dos tios, dos primos e de tantas pessoas que sempre a amaram. Sempre foi dócil, bonita, cabelos lisos e pesados, olhos pretos muito expressivos e uma boca que muitos desejavam. Mas Thalia escolheu o “seu mundo” e nele ficou. Teve filhos, dedicou-se de corpo e alma a eles, cuidou de familiares, trabalhou, mas sequer “caminhou pelo mundão que existe aqui fora”.

Os anos passaram, os filhos cresceram, começou a ter mais tempo, alguns fatos inesperados aconteceram e Thalia, subitamente, renasceu …
Renasceu como uma criança pronta para esperar o presente de aniversário.
Renasceu para a sua beleza e passou a cuidar melhor de si.
Renasceu para a família que havia deixado perdida sem perceber.
Renasceu para o trabalho, que sequer sabia o significado.
Renasceu para a sua auto-estima, há tantos anos adormecida. E Thalia me prometeu há poucas semanas atrás:
– “De agora em diante serei outra!”
E, quando eu estava querendo dizer o quanto estava feliz com isto, ela complementou:
– “Mas será que ainda há tempo para isto?”
Tempo, tempo … o tempo!

Só ele para abrandar a minha alma, trazer-me mais calma, mostrar-me o grande caminho que tenho pela frente. E tudo o que tenho de projetos em mente. Só ele para me fazer renascer, crescer, remexer na minha vida, para melhor viver…
E eu lhe disse:
– Thalia: sempre há tempo! sempre!

mar 25, 2010 - Crônicas    No Comments

Leve-me contigo

Leve-me contigo

Por Mário Feijó, 25.03.2009

Leve-me com você
Quero conhecer tua estrela
O lugar aonde moras
A tua casa – meu paraíso…
 
Não me deixe só
Quero contigo viajar
Nosso lugar é no infinito azul
 
Eu posso voar contigo
Sei que posso
Então me leve…
 
De que planeta vieste?
Sei que não és da Terra
Um ser divino feito você
Não pode ser humano – é angelical…

mar 19, 2010 - Crônicas    No Comments

Um adeus que não se quer dar

Um adeus que não se quer dar

 Por Almeri E. de Souza

Meu pai sempre diz que o difícil de viver muito – ele já está há 90 anos por aqui- é que se tem de enterrar os amigos. Mal compreendia isso, pois que felizmente poucos dos que fizeram parte da minha tropa, se foram. Morreu o Cilceu há uns 3 anos e foi muito cruel. Parece que vai um pouquinho de nós quando um amigão, um camarada daqueles que nos fazem rir se espicha naquele caixão feioso e, sério, se vai sem dar tchau. Mas passa um pouco e agente se recupera e pensa: agora está tudo certo. Estamos todos aqui. Ficaremos aqui todos juntinhos e só iremos quando já não nos quisermos mais. Nesta ilusão se faz de conta que não envelhecemos, que nosso fígado não envelhece, que nosso coração está tinindo, que nossas células nem dão bola para este tal de tempo. Daí o golpe: O Fresta se foi. Como assim? O Fresta, não! Este não morre! Imagine este mundo sem o Fresta? Não, não brinque com isso que é sério. O Fresta faz parte da paisagem da cidade, com seus cabelos desgrenhados, suas orelhas grandes – até escrevi sobre isso num livro que publiquei, e acho que ele não leu – suas mãos enormes e um caminhar calmo – sem pressa – meio desengonçado até, mas sempre alegre. Fechamos o trânsito muitas vezes. Porque estando em Osório, encontrá-lo e não parar o carro, era coisa do outro mundo. Ele foi personalidade. Acho que tinha um selo com numeração. Fazia parte da arquitetura da cidade. Uma arquitetura tombada. Conservada, que não poderia ser demolida, somente restaurada e mantida. Uma peça de restauro. Talvez até pertencesse ao catálogo do IPHAN. Sagrado amigo: partistes com a sutileza que nunca te pertenceu. Saísses de cena sorrateiro e esgueirado, para estarrecimento de todos nós. Deixastes comigo nossos planos de cenários, de peças teatrais, de encontros de chimarrão que não deu tempo. Com tua família tua marca irreverente, alegre e juvenil. Certamente um buraco, pois tem gente que é tão especial que não tem ninguém mais parecido. Nada semelhante.

A ausência do Fresta é como a daquela figueira antiga, que todos conhecem, que sabem de cada um dos seus galhos, que todos já desfrutarem da sua sombra e que um dia o temporal vem e a arranca, deixando a paisagem árida e ressecada pelo sol. Não tem mais a figueira. Não tem mais o Fresta.

Num dia desses, nos encontraremos lá embaixo daquela figueira que não existe mais, quando nós também não estaremos mais em lugar algum. Enquanto espiamos pelo buraco da vida, gelados de medo do próximo adeus, nos resta tomar mais uma gelada, trocar mais um abraço e dar mais uma risada, porque qualquer uma dessas pode ser a última.

mar 15, 2010 - Crônicas    No Comments

Ignorância

 Ignorância

Por Rubens Lace

“A ignorância é à noite da mente, mas uma noite sem lua e sem estrelas” – Confúcio

Estamos cansados de dizer “mas que cara ignorante”. Realmente, nos deparamos sempre com pessoas que por estarem de mal com o mundo, por serem desinformadas, por não termos aceito uma idéia sua, enfim, por diversos motivos, estouram, esbravejam, nos ofendem. Mas gostaria de destacar nestas linhas uma especifica, que é a ignorância por não ter humildade para reconhecer o erro. E neste caso ficamos a conjecturar o motivo do porque não reconhece-lo. Não existe o soldadinho do passo certo. Se a esmagadora maioria das pessoas não aceitam ou não gostam de uma coisa, o motivo daquela pessoa não aceitar a culpa por ter falhado nos passa a impressão que ele sabe do erro, mas algo maior ou mais importante está ocorrendo para ele se fazer de cego ao erro cometido. Um preâmbulo grande para uma razão talvez não tão grande. Como neste espaço há possibilidade dos leitores se manifestarem, gostaria de saber a opinião de vocês ao que vou dizer. Será que alguém nesta cidade achou bonita a decoração de Natal, com que a Secretaria de Turismo nos brindou este ano? Procurei olha-la de todos os ângulos, mas não achei nada que justificasse o dinheiro empregado na mesma. Os fantasmas na frente da prefeitura. Os quadrados pendurados nos postes com dois fiozinhos de luz de cada lado. A árvore (arvore?) na praça Agostinelli, que não passa de um poste branco com alguns fios de luz pendurados ao seu redor. Enfim, ou nos julgam uns imbecis, e querem nos impingir uma arte moderna que ninguém entende, ou o mau gosto e a pouca criatividade se juntaram na mente de quem bolou estes “enfeites”. Pior, se tentar argumentar com o Secretario a resposta é “se não gostou faça melhor”. E continua “o que você fez para a cidade?”. Afinal, será que ele é cego ou é uma noite sem lua e sem estrelas?

mar 15, 2010 - Crônicas    No Comments

Juventude Eterna

 Juventude Eterna

Por Rubens Lace

“O passado não reconhece seu lugar, está sempre presente” – Mario Quintana

Você se olha no espelho. Aquele rosto imberbe, sem rugas, os cabelos negros que ficaram para trás. Hoje fios prateados coroam sua cabeça, vários sulcos cortam sua face e os fios brancos também teimam em aparecer pelo resto de seu corpo. No entanto seus olhos ainda visualizam rostos lindos das jovens mulheres que cortam seu caminho. Seus pensamentos ainda teimam em sonhar com beijos macios daqueles lábios vermelhos. A maciez daquela pele ainda teima em provocar-lhe arrepios. Mas suas mãos, estas não mais as alcançam. Estão além de seus sonhos e vontades. Você é velho, mesmo que seu coração teime em dizer-lhe mentiras: você ainda tem charme, você é inteligente, você ainda é um cavalheiro. Tudo isto pode ser verdade, mas o pergaminho de sua pele é a camuflagem que a vida te deu. E aí, se estás sozinho nesta fase da vida, você tem que ver na mulher que procuras, abaixo de sua pele, por trás daquela cintura que não é mais a de uma gazela, não enxergar as manchas nas mãos. Beijar os lábios que contem pequenas rugas, como os seus, aliás. Tem que captar seus pensamentos e perceber que ela o ama não pela face que a ela apresenta, mas apesar dela. Que ela ainda pode sentir desejo por você, mesmo com a barriga proeminente. Que ela, certamente, poderá te transmitir a paz que durante tantos anos procurou em rostos e corpos perfeitos, mas a loucura da juventude não a fez alcançar. E aí, e só aí, poderá acalmar o fogo que teima ainda a arder em seu coração.

mar 15, 2010 - Crônicas    No Comments

A dor

A dor

Por Rubens Lace 

“A adversidade é um trampolim para a maturidade” – C. C. Colton

Cada um de nós enfrenta as batalhas que a vida nos impõe de uma maneira. Há aqueles que se entregam, se acovardam diante do mundo, se arrasam. Outros passam a ter ódio de Deus, raiva contra a humanidade, contra o destino que, supostamente, o agrediu. Alguns sofrem calados, depois de um primeiro desabafo da dor causada por uma perda, separação, ou outro infortúnio. Em qualquer situação, porém, o tempo se encarrega de amenizar o sofrimento. Passamos a conviver com a situação de uma forma mais racional, aprendemos que a vida é assim com todos, em maior ou menor grau. O trabalho ajuda a amenizar o sofrimento. E, mesmo sem percebermos, o que nos causou sofrimento, nos provou que somos fortes, pois o suportamos. Quando a dor atinge um casal pode destruir a união, mas quando isso não acontece fortalece os laços que os unem. E a maturidade acontece justamente por isso, por aceitarmos e nos fortalecermos para combater outras vicissitudes. Por experiência própria posso dizer muito sobre isso. Em meu último casamento, que durou oito anos, tive um momento dificílimo, por ter problemas com a depressão. Cheguei ao extremo do sofrimento e só consegui supera-lo por ela estar a meu lado e amparar-me e agüentar minha agonia. Depois de alguns anos foi a vez dela sofrer tremendamente com a doença e falecimento do pai. Filha única tinha verdadeira adoração pelo pai. Qualquer decisão ou problema ela ligava para ele para ouvir o que tinha a dizer. Isso a acalmava. Nos momentos da crise da doença, no hospital ou em casa eu estava ali, ao lado, segurando seu sofrimento, apesar de estar sofrendo junto. No Natal do ano passado estávamos juntos no hospital. Nas vésperas do Ano Novo ele faleceu. Depois de alguns meses resolvemos, de comum acordo nos separarmos. Ela estava morando em S. Leopoldo e eu aqui em Capão. No entanto, apesar de separados os laços de uma grande amizade perduram. O que passamos juntos nos ligou. Amadurecemos com o sofrimento e acho que, mesmo separados, aprendemos que lutamos juntos nos piores momentos de nossas vidas. Somos todos previsíveis quando sofremos, mas é a vida nos ensinando a cada momento. É só sabermos analisar o que ela quer de nós.

mar 8, 2010 - Crônicas    No Comments

Como está a cultura em nossos municípios?

Como está a cultura em nossos municípios?

Por Almeri Espíndola de Souza

Como está a cultura em nossos municípios? Quem cuida da cultura? O que é cultura para você? É difícil não se fazer estas indagações quando se percebe que o nosso Estado está com a cultura renegada à última das necessidades. Cabe-nos, enquanto cidadãos – que lemos livros, que fazemos livros, que dançamos, que cantamos, que fazemos músicas, que pintamos quadros, que subimos no palco e contamos histórias, que escrevemos histórias – ficarmos atentos. Que levantemo-nos desta cadeira confortável e brademos por cultura. Por orçamentos, por projetos, por fundos para a cultura. Há que se criar Fundo Municipal de Cultura, com responsabilidade, com Conselhos municipais representativos da sociedade cultural. Há que se ter projetos que contemplem a todas as nuances culturais que nosso povo possa apresentar. As políticas culturais devem emergir do estado, do município, mas devem ser cuidadas e acompanhadas pelo povo. Este é um direito que todo cidadão deve reivindicar. Há que encaminhar ao município suas demandas por verbas, por projetos onde a sociedade seja o ator principal. A cultura enobrece a alma. Purifica o viver. Eleva a inteligência. Ronald Radde, diretor da Cia de Teatro Novo, disse sabiamente neste final de semana num jornal de grande circulação: “até hoje muito poucos governantes tiveram a sensibilidade para compreender que arte e cultura e bom entretenimento são tão importantes quanto a construção de uma ponte. E possivelmente nenhum compreendeu que um evento artístico, além de iluminar a alma das pessoas que lhe tem acesso, ainda rendem mais notícias do que a inauguração de uma ponte, e é claro, muitas vezes a participação num ato cultural repercute pela vida toda em muitas pessoas”. É nesta linha que conclamo a todos que sabem do valor que uma criação cultural tem no estado de felicidade de cada jovem, de cada idoso, de cada cidadão mutilado pelo estresse do cotidiano, que se erga a favor dos espaços culturais de Osório, de Tramandai, de Capão da Canoa, de Imbé, de Terra de Areia, de Cidreira, de Pinhal, de Santo Antonio da Patrulha… Que pensemos ações culturais que resgate, a autoestima dos nossos jovens. Que eleve a motivação pela vida dos nossos idosos. Que traga alegria e leveza para o cidadão de todas as idades e classes sociais. Que nossos políticos possam além de inaugurar pontes, inaugurarem Casas de Cultura, salas de cinema, bibliotecas, museus, espaços para criação de artes cênicas, espaços para que todos possam aprender e se divertir fazendo arte.

fev 25, 2010 - Crônicas    No Comments

A queda do Jacarandá

A queda do Jacarandá

Por Artur Pereira dos Santos

Velavam-te os pássaros que de ti dependiam.
Os homens, embora descansassem em tua sombra, traziam seus cães para urinarem no tronco, enquanto tropeçavam em tuas raízes, ignorando o tapete de flores que o vento estendera na primavera.
O peso dos ramos, contendo ervas demais para a sobrevivência de uns poucos sabiás citadinos, anunciava a tua queda, prematura para tua espécie.
O tempo, muito tempo, não foi suficiente para alertar as autoridades sobre a necessidade de cuidados.
A poda que te daria viço chegou atrasada. Podaram antes tuas raízes.
Bastou um vento mais forte, a chuva erodir o chão, onde um dia alguém te plantou, e a morte foi decretada.
Quem te abreviou a vida e um dia descansou em tua sombra será acusado de tua morte.
Quem, por ofício, devia cuidar de ti, continuará chegando atrasado.
Quem velava por ti encontrará outros ramos para deitar seu ninho.
Teu tronco se transformará na poluição que combateste.
Enquanto isso, o ar, que querias tornar puro, foi insuficiente no pulmão do homem que se dirigia ao altar.

jan 28, 2010 - Crônicas    No Comments

Corujas buraqueiras II

Corujas buraqueiras II

 Por Artur Pereira dos Santos

As corujinhas voltaram….E eu também voltei…..
– Espera aí, tem algo errado nestes versos. Não eram as andorinhas?.
– Eram, Zóia, mas nesse caso somos nós mesmos que estamos novamente em evidência: querem construir uma estátua para nós.
– Ora, Zoio isto é coisa de alguém que não percebeu que estátuas irão chamar a atenção e restringir ainda mais nossa liberdade.
– É verdade. Que saudades do anonimato: Do tempo em que só o nosso amigo Joãozinho passava por aqui para armar o foguetório, e ainda pedia licença, lembra?
Foi-se o tempo em que nossos domínios eram respeitados naturalmente e tínhamos o privilégio de uma vez por ano assistir de camarote o espocar dos foguetes.
E nossos filhos, será que terão que limitar-se a morar em nossas tocas durante toda a vida para serem vistos pelos curiosos?
Segundo soube, querem construir a tal de estátua bem pertinho daqui, certamente para nos verem entre estas fitas demarcatórias horrorosas.
E estas placas então! Que passaram a fazer parte de nossas vidas desde aquele final de ano. Sabes o que elas querem dizer, Zóia? – Eu não sei. Parece que foi proposital a colocação delas. Imagina! Nós que somos símbolos da sabedoria, temos que suportá-las sem saber o que está escrito. Suprema humilhação!
– Você lembra, Zóia? Aquele monumento que ainda hoje está ali? Aquele sim, nossos pais nos ensinaram que nos representava com dignidade. Tinha um movimento de olhar de 360 graus, como nós, e servia para guiar quem estivesse em alto mar, mas somente em alto mar, nunca se aproximavam e nem espantavam ninguém.
Meu pai contava que diariamente um velhinho esguio, que tinha um filho deputado, subia até o topo e abanava para ele e minha mãe. Tinham um orgulho danado disso. Ele só não gostava daquele homem que, uma vez por ano, trazia um montão de papéis para queimar ao lado do monumento. Nesse dia eles ficavam virados para o mar, por causa da fumaça nos olhos. Você sabe! Olho de coruja é uma preciosidade, Acho que o homem conscientizou-se disso e parou de queimar papéis ali, acrescentava meu velho.
Soube também das desculpas para construção de outro monumento e a desativação deste: muitas luzes. Muitas luzes e quem estiver em alto mar irá se confundir, diziam. Com coisa que a altura destes monstrengos que nos sombreiam ao cair da tarde e os que estão sendo construídos ao longo de nossos domínios, não emitem luzes suficientes para causar confusão também com o outro monumento. Às vezes me dá vontade mudar de buraco e ser solidário com ele, como foram nossos pais com este aqui.
E querem reproduzir nossa imagem em outros locais sabia, Zóia?
Não, não sabia e nem acho que seja uma boa. Tu achas que eles irão nos reproduzir com a fidelidade que merecemos, inclusive com os movimentos de cabeça que só nós sabemos fazer? Sem falar na originalidade das cores de nossas penas! Irão distorcer nossa imagem, isso sim!
Esses humanos! Veja o exemplo daquela estátua na pracinha. Não aquela do centro. Aquela mais nova, que tem a estátua daquele senhor bonachão que morava perto daqui e que visitávamos com freqüência antes de virarmos “celebridades”, como dizem eles, tentando nos seduzir com palavras bonitas. Pois coitado, nem os óculos possui mais.
Zóia! às vezes fico pensando sobre esse tal de progresso. Esse, que aquele pessoal dos flashes falam enquanto nos dão um empurrãozinho para nossas moradas quando chegam muito perto e sentimos medo. Acho que ele deveria vir acompanhado de tantas outras coisas mais importantes e necessárias que uma estátua. Afinal, o que vamos fazer com ela? Concentrar nossos olhares em sua direção para contar os curiosos?
Garanto que os nossos vizinhos barulhentos, que só descobrimos seus ninhos por sabermos torcer a cabeça para todos os lados sem movimentar o corpo, também não estão de acordo.Ouço falarem entre si que não toleram a presença humana. Já viste algum deixar que um humano se aproxime dele ou de seu ninho?

jan 3, 2010 - Crônicas    No Comments

O Bug do Espelho

O Bug do Espelho

Por Leda Saraiva Soares

Meio ao profundo silêncio, um estrondo… Seria uma bomba jogada à nascente das águas lendárias da fonte localizada nas proximidades de Téspias na qual Narciso se enamorou de sua própria imagem? Seduzido por sua beleza, permaneceu ali, contemplando-a até consumir-se. Nasceram de seu corpo raízes e ele se transformou na flor conhecida pelo nome de Narciso.

Seria o “Bug” do Milênio? Sinais tão esperados em fim de século? Sinais dos tempos? Ou simplesmente, como querem alguns, apenas virada de ano? Chegada de uma nova era?

O velho espelho redondo, medindo quase um metro de diâmetro, com moldura antiga e resistente, de cor manteiga, com um tope entalhado na madeira da moldura que indicava a posição certa na parede, não quis assistir à chegada do ano 2000.

Eram 16 horas do dia 29 de dezembro do ano de mil novecentos e noventa e nove, quando desabou, ficando a parte do espelho voltada para o piso.

Quantas imagens esparramadas pelo chão entre cacos… Risos, trejeitos de adolescentes, de adultos e de crianças, congelados no tempo, desde o final da década de setenta.

Da velha fonte, jorrava, em torrente pela sala de nossa casa, muitas imagens de jovens, amigos de nossos filhos, nossos amigos que sempre nos visitavam, nós mesmos esparramados pelo chão.

O “Orango” foi o primeiro a se precipitar e, com ele vieram tantos: o “Cavalo” (Pedro), o “Felpa” (Vladimir), o “Bino” (Armindo), o “Pinico” (João), a Daniela, a Jussimeri, o “Goiaba” (Cassiano), o “Nuvem” (Alexandre), o “Anão” (José), a “Courila” (Jaqueline)….

Depois outra torrente trazia a geração mais nova: a Rafaela, a Lisiane, a Karina, a Raquel, a Denise, a Mirian…

Mais afoitos e fazendo estripulia, saíram dali a Gisele, a Vitória, o Ícaro, o Marcelo, o Pedro, a Mariana, o Mateus, a Marina…

Só a bisa (vó Mariquinha) presenciou o “Bug” do espelho.

Ao chegarmos a casa, voltávamos de Porto Alegre, deparamo-nos com a vó Mariquinha sentada em sua cadeira de balanço e, a seus pés, o velho espelho emborcado. Disse-nos que se despencou fazendo um ruído medonho. Ainda bem que não caiu por coima dela. Antes de erguê-lo, cheguei a pensar que estivesse inteiro. Na hora de desvirá-lo, deparamo-nos conosco: o Noel e eu, saindo por entre os cacos. Lá no fundo, vimos outras pessoas desconhecidas que também se refletiram naquele espelho em outros tempos.

O espelho, qual água nascente da fonte onde Narciso se enamorou de si mesmo, por muitos anos, nos fez companhia, ocupando um lugar de destaque na sala de nossa casa, ou melhor, já fazia aparte da casa quando a adquirimos.

Esse espelho era irresistível, atraindo para si todos os olhares daqueles que chegavam à sala, refletindo o Narciso que cada um traz consigo.

Aquela moldura tão antiga já se integrara ao nosso ambiente familiar e mereceu outro espelho. Hoje, moramos em Imbé e o espelho nos acompanhou.

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