Browsing "Crônicas"
out 29, 2010 - Crônicas    No Comments

O descaso mora ao lado

O descaso mora ao lado

Por Rosalva Rocha
SAP, 18.10.2010

Há anos atrás, quando residia em São Paulo e trabalhava em uma empresa recém aberta, que havia sido criada para transmitir sinais via cabo para os lares paulistanos, lembro-me de que, em uma determinada etapa, certamente pela grande profusão de trabalho e novas tecnologias até então desconhecidas, a comunicação interna encontrava-se totalmente distorcida em relação aos objetivos da empresa, que tinha como produto justamente esta área. A “era do cliente” estava despontando e precisávamos nos comunicar eficazmente.

Depois de vários diagnósticos da Área de Recursos Humanos, foi sentida a necessidade de algum treinamento que levantasse o real problema de forma especialmente  lúdica.

E, em função disso, foi contratada uma Consultoria muito conceituada na época para ministrar um treinamento de um dia para a dita “camada intermediária” da Organização.

E lá fomos nós, Supervisores de toda a empresa para um local arborizado, em um dia muito ensolarado, tentando esquecer todos os problemas que haviam ficado em nossas mesas e computadores. Um cotidiano que não nos larga quando trabalhamos com grande pressão em busca de bons resultados.

Quando da chegada, recebemos um mapa, intitulado o “Mapa do Tesouro”, com instruções de que passaríamos o dia em busca do tal “Tesouro Encantado”.

Grupos foram formados e iniciamos o nosso trabalho com grande curiosidade. Não estaríamos ali para um treinamento? Mas seguimos o determinado e, a cada passo do mapa, passamos a nos abastecer de comida, bebidas e dinheiro (especificados em pequenas tarjetas).

Na busca pelo objetivo, muitas articulações, muitos cálculos, muitas paradas em pontos específicos para abastecimento, alguns retornos, algumas discussões e um ânimo forte para vencer e encontrar o famoso Tesouro, que certamente nos daria o caminho a seguir para mudarmos a nossa condução profissional e angariar mais resultados através de uma comunicação mais eficaz.

A manhã se passou e o meu grupo não chegou nem mesmo no meio do caminho.

Almoçamos um tanto angustiados, mesmo com todo o colorido que nos envolvia com aquela vestimenta.

No início da tarde retomamos o trabalho e o caminho foi seguido. A essa altura já não tínhamos mais tantas tarjetas para alimentação e muito menos dinheiro, deixando-nos um tanto desesperados.

No meio do caminho algumas situações inusitadas apareceram. De repente uma vertente, mais adiante um pequeno armazém com pouquíssima mercadoria gratuita e, por fim, um velho ancião sentado em uma pedra, totalmente maltrapilho, barba por fazer e um charuto na boca. Quieto, muito quieto, observando tudo.

Arrematamos o que conseguimos e seguimos em frente, ainda na esperança de vencer.

Sim, o objetivo era vencer os adversários, a ponto de não termos tido qualquer contato com eles todo o dia, sob pena de abrirmos qualquer truque que por nós fora articulado.

Cinco horas da tarde. Trabalho finalizado. Chegamos ao local, mas nele não encontramos o Tesouro. O desânimo tomou conta de todos os grupos. Isto ficou evidente.

Neste momento os Consultores solicitaram que sentássemos no chão para discutir o porquê que absolutamente nenhum grupo conseguiu atingir o objetivo.

E foi aí que a surpresa foi exposta e que nunca esqueci:

Nos preocupamos tanto em comer, em angariar dinheiro, em competir, que esquecemos de parar e conversar com o velho ancião. Justamente ele estava com o Mapa do Tesouro. Aquela pessoa que, na profusão de chegar ao fim, nos passou totalmente desapercebida.

Foi um experiência de somente um dia, mas que valeu prá mim um ensinamento para toda a vida: Quantas vezes, envolvidos nesse mundo louco, competitivo e, em algumas vezes um tanto patético, deixamos de pensar nas soluções simples. Sim! A competividade, a grandiosidade que a maioria dá para posição social fecha os olhos para o óbvio. Somente a experiência nos faz crescer e, para crescer, precisamos tomar consciência do que cada um tem de melhor a nos oferecer, independente da sua situação social, econômica e mesmo aparente.

Que não deixemos de enxergar e, especialmente, escutar as pessoas com  experiências muito mais vastas que as nossas.

Um grupo não é, absolutamente, uma equipe e, infelizmente, não formamos uma equipe, pois nos distanciamos dos demais grupos de uma forma muito natural, o que foi feito por eles também.

O resultado era mais do que simples: bastava parar, pensar e ouvir – algo extremamente difícil nos dias atuais. Ouvir é, sem dúvida, uma virtude.

De situações imediatistas deixamos de encontrar os Tesouros que podem estar guardados dentro de nós.

Não sabemos ouvir, não sabemos compartilhar, não sabemos contemporizar, não sabemos que não vivemos sem o apoio de alguém.

O velho ancião ficou na minha memória. Foi um marco para que eu mudasse o meu modo de pensar as situações e é, por essa razão, que deixo esta experiência registrada, esperando que sirva de reflexão para os leitores.

Ah o ancião … o homem por nós transparente, mas com a solução na mão que nos levaria ao que passamos o dia inteiro procurando!

out 1, 2010 - Crônicas    No Comments

Em movimento

Em movimento

Por Rosalva Rocha, 24.9.2010

“Movimento” – uma palavra que, para mim, diz muito. Sempre que a pronuncio lembro-me de um grande amigo que, em momentos de crise, diz: “o importante é o movimento”. E realmente é!

A segunda Lei de Newton, também conhecida como Lei Fundamental da Dinâmica, enuncia que: “A resultante das forças que agem num corpo é igual a variação da quantidade de movimento em relação ao tempo”.

Movimento e tempo – uma correlação que deveria ser estudada por muitos que acabam deixando as suas vidas esvairem-se no ar com a idade, com as desilusões, com a constatação de que o mundo mudou e a de que as pessoas estão cada dia mais distantes umas das outras.

Sempre pensando nessa palavra busco seguir o meu caminho, porque:
É o movimento que me faz viver
Que me faz criar e recriar todos os dias
Que me levanta toda vez que caio
Que enche as minhas horas com trabalhos produtivos
E algumas vezes até criativos
É o movimento que me faz
Fazer várias coisas que gosto
E buscar incessantemente o propósito
De que não pararei jamais no meu posto
Com o movimento
Não lamento
Simplesmente vivo
E vou deixando minhas marcas
Sem precisar dizer que simplesmente sobrevivo
Vivo, vivo em movimento
Sem tormento
Acreditando que dentro de cada um
Ainda há muito sentimento

set 24, 2010 - Crônicas    No Comments

Do que depende a sobrevivência da leitura?

Do que depende a sobrevivência da leitura?

Por Leila Baldi

O término da 21ª Bienal do Livro de São Paulo mais uma vez colocou em evidência um espectro que ronda o mercado editorial e o universo de leitores já há alguns anos: o fantasma do livro digital. É bom lembrar, antes de mais nada, que um fantasma não é essencialmente uma entidade maléfica, assim como não o é, em essência, o livro digital, ou e-book. Mas algumas leituras muito apressadas e propagandas mais apressadas ainda têm causado reações precipitadíssimas, para o bem ou para o mal mas, sobretudo, por uma compreensão parcial de tudo o que envolve o livro digital, o próprio livro, a leitura e até mesmo a educação como ela é, pois ainda se trata da principal fonte de formação de novos leitores. Criadas como peças fundamentais na geografia urbana das cidades desde antes da idade moderna, as bibliotecas públicas encarnam desde então um espírito democrático como poucos espaços públicos têm conseguido. Seja pelo acesso franqueado, como por suas características elementares, como o empréstimo domiciliar, seria muito ingenuidade imaginar que as corporações empenhadas na criação de aparelhos leitores de livros guardem esse tipo de preocupação – ou, acaso, seria imaginável que a Amazon ou o iTunes venham a emprestar gratuitamente seus conteúdos digitais?

Muitas pessoas têm confundido o conceito de livro digital com os aparelhos leitores, ou e-readers. Ao contrário do livro convencional, vendido em exemplares únicos, o livro digital tem outra forma de distribuição: depois de adquirido, poderá ser lido nos aparelhos leitores, equipamentos portáteis capazes de reproduzir o conteúdo escrito, seja qual for o seu gênero, em telas com tecnologias diversas e alguns outros recursos como conexão remota a redes, internet, entre outros.

Portanto, o livro digital não é um livro, e sim, meramente um conjunto digital de dados decodificado e exibido em um equipamento. No plano comercial, os aparelhos leitores não estão atrelados a editoras, mas a empresas de tecnologia que podem arbitrar formatos tecnológicos específicos, e proprietários impedindo, inclusive, que um determinado conteúdo possa ser lido em qualquer outro dispositivo que não aquele através do qual foi comercializado. Diferentemente dos volumes impressos, cujo suporte é único, os livros digitais trazem à seara da informação escrita um fantasma ainda muito pouco conhecido no meio editorial, mas que tem poderes muito significativos. O fantasma atende por DRM, ou digital rights management, e já se revela, mesmo que disfarçadamente, em muitos destes equipamentos, principalmente nos mais vendidos entre eles: o Kindle, da Amazon, e o iPad, da Apple.

O futuro dos Direitos Autorias.

De acordo com a Free Software Foundation, o DRM seria mais apropriadamente denominado por digital restrictions management, uma vez que sua funcionalidade está muito mais para a gestão das restrições de uso do conteúdo digital do lado do usuário que do fabricante. Tratam-se de parâmetros inseridos nos conteúdos digitais com capacidade para coletar dados do uso, bem como determinar padrões de durabilidade, acesso a cópias e intercâmbio de formatos. Desenvolvido inicialmente por demanda dos fabricantes e distribuidores de música, é um tipo de tecnologia utilizada na transferência de vários tipos de conteúdo digital, inclusive na transmissão televisiva em formato digital. Ao passo em que muitos avanços e iniciativas têm ocorrido em função de ampliar e não restringir os direitos do lado dos consumidores e da sociedade, procurando garantir o acesso universal à informação principalmente em ambientes educacionais, o mercado editorial tem se movido fundamentalmente em torno das iniciativas que lhe podem garantir a sobrevivência e sustentabilidade. A discussão recente em torno da reforma da Lei de DIREITOS AUTORAIS e os interesses que aí se têm debatido comprovam que muitos rounds serão travados no sentido de deitar à lona as possibilidades concretas de um avanço num curto espaço de tempo. Como o movimento de livre distribuição e licenciamento não deixa de crescer, é de esperar que o mercado venha obrigatoriamente a reconfigurar-se em função do novo habitus de acesso à informação, e não vice-versa. A novíssima sociedade da informação, que se acostumou a ver na informação e em sua circulação um mercado a ser explorado, tem necessitado redimensionar-se constantemente, sob pena de inadequar-se aos novos meios de troca e acesso que são criados de forma incessante. Por isso, a grande diferença entre os serviços de bibliotecas públicas e o negócio dos conteúdos digitais está em que a perspectiva lucrativa aqui se instala em definitivo entre editores e leitores. Mesmo as iniciativas de implantação de grandes bibliotecas digitais, patrocinadas muitas vezes por gigantes tecnológicos, como HP ou a Google, não visam a alterar em praticamente nada as relações de acesso ao conteúdo da informação. Sua revolução está nos meios e na sempre presente perspectiva de oferta de serviços comerciais agregados.

Assim, tais iniciativas assentam-se sobre obras em domínio público ou criadas já dentro do espírito de livre reprodução, como as obras licenciadas através da Creative Commons. Para novas edições e conteúdos presentes e futuros, não há um projeto descrito ou tão benevolente a ponto de se imaginar que a intenção edificante destas corporações visa exclusivamente à universalização do acesso à informação. Iniciativa pioneira e que se mantem há 40 anos de forma voluntária, o projeto Gutenberg é o exemplo vivo de que iniciativas não comerciais emperram em limites de expansão por falta de investimento. Contando com donativos e sem o apoio de grandes bibliotecas ou de seus consórcios, mesmo assim guarda a semente de um plano ousado: reinventar em formatos não-proprietários o sonho de uma fonte livre de consulta e leitura. Mesmo iniciativas que contam com o apoio do governo, no caso brasileiro, e destinadas à pesquisa de ponta, como a produção científica da pós-graduação, patinam ainda em dificuldades técnicas para levar a ideia de uma Biblioteca Digital de Teses a ser popularizada entre instituições menores, como faculdades do interior do Brasil. Em 2003, o jornalista Elio Gaspari já advertia ironicamente que o único banco que não dá certo no Brasil é o banco de teses. Passados sete anos, nem o MEC nem a Capes forneceram sequer uma explicação remota acerca das razões pelas quais o projeto se mantém sem acesso a conteúdo integral e é realizado em separado a outras iniciativas particulares de divulgação científica. Talvez sejam razões semelhantes as que levam o Google a manter indefinidamente em versão beta seu projeto Scholar. O que pode estar custando a ser percebido é a necessidade de democratizar as fontes antes de se fomentar o acesso, de o meio acadêmico se comprometer a dar o exemplo, abrindo mão de direitos comerciais e da sociedade, por sua vez, desconsiderar propostas que visam ao monopólio ou uso terciário da informação, oferecida como subproduto de iniciativas essencialmente comerciais.

As palavras em registro digital

Reclamado principalmente pelas pessoas com deficiência visual, que veem os livros em braille sendo progressivamente relegados a edições especiais e à perspectiva de que novos recursos tecnológicos venham a possibilitar seu acesso a conteúdos de outra maneira indisponíveis, os recursos de acessibilidade dos e-readers são duramente criticados por esta parcela da população.


No Brasil, iniciativas como o MOLLA – Movimento pelo Livro e Leitura Acessíveis no Brasil, são pertinazes na denúncia de práticas editoriais discriminatórias e realizam um trabalho que procura garantir que o acesso à informação, como um direito universal, seja efetivado através de compromissos sociais que atendam às especificidades humanas como um todo, como recomenda o conceito de desenho universal. Nessa perspectiva, têm chamado atenção algumas dificuldades de uso dos e-readers, como a inacessibilidade das telas de toque (touchscreen) e incapacidade de conversão texto-áudio, fatores limitantes do acesso por pessoas com deficiência visual ou mobilidade reduzida. O semiólogo e escritor italiano Umberto Eco lançou no começo deste ano o Livro-entrevista Não contem com o fim do Livro, no qual discute algumas questões como a segurança de dados dos conteúdos digitais, a fidedignidade e a história da humanidade e seus registros. Em dado momento da entrevista, Eco comenta que não entende as razões pelas quais se iniciou o que ele chamou de “obsessão” pelo fim do livro. Para ele, os livros continuarão a existir porque não se trata de uma experiência, mas de um produto com uma credibilidade de 500 anos, ao passo que os recursos tecnológicos têm sido substituídos pelo menos a cada cinco anos. No seu caso, diz que não trocaria sua biblioteca por outra digital pela simples razão de que nada o asseguraria de que as informações estivessem disponíveis a qualquer momento e a salvo de bugs. Uma leitura sem risco de bugs ou perdas maiores, para Eco, continua a ser um privilégio exclusivo dos impressos. É possível que estas palavras, cada uma delas, jamais sejam gravadas na celulose do papel, matéria-prima dos impressos de um modo geral, sejam livros, revistas ou jornais. A bem da verdade, nem uma prova em rascunho para revisão será impressa numa simples impressora doméstica. Seu único registro estará no meio digital, no código binário e na memória de quem, ao lê-las, decida por utilizá-las em algum tipo de raciocínio que possa somar ou contestar alguma informação previamente assimilada. O registro da informação é uma necessidade que a capacidade de atenção e memória humana exigem. À medida em que evoluiu, a humanidade foi criando mecanismos acessórios para estes fins. Dicionários, enciclopédias e outras formas sistematizadas de informação que hoje convergem, aparentemente de forma inexorável, para os recursos digitais.

Como garantir o acesso à leitura?

A internet é formada essencialmente por recursos digitais interconectados e multiplicados em uma desrazão. Muitas das pessoas que afirmam tratar-se de bilhões de páginas não erram, mas não acertam jamais em saber o quanto de informação repetida ou informação incompleta é armazenada e acessada permanentemente. Por muito tempo, soube-se que a Bíblia e o Manifesto Comunista foram os livros mais impressos do mundo. Hoje, sabe-se que muitas páginas da internet superam este número n vezes. Por muito tempo, soube-se que quem lia o Novo Testamento ou o Manifesto Comunista teria conhecido a vida de Cristo ou as ideias centrais do comunismo. Hoje é impossível saber o que todas as pessoas que acessaram determinada página da internet, como por exemplo a página de PESQUISA do Google, foram até lá buscando, o que leram e o que conheceram efetivamente a partir daí. A distinção fundamental entre os exemplos supracitados é o suporte de inscrição. No primeiro, o texto e a estrutura convencional, circunscrita. No outro, o hipertexto e a estrutura aberta, diametral. Seria um tipo de limite absurdo imaginar um novo recurso tecnológico capaz de fazer o processamento e exibição de um texto e ao mesmo tempo compartilhar uma conexão com a internet que não contasse com esse tipo de recurso e que não tivesse por base alguma forma derivada de hipertexto. Quando se pensa em dispositivos capazes de ler o livro digital, somente um purismo radical pensaria num dispositivo que imitasse o livro em papel. Já houve quem sugerisse que os e-readers devessem, inclusive, emitir o odor produzido pelos ácaros, para se preservar a leitura como se tratassem de brochuras antigas. São devaneios curiosos mas que não interessam ao principal, que é sobrevivência da leitura, apesar das tecnologias. Antes que o livro mudasse, a própria leitura mudou.


Em uma época marcada pelo exagero do uso da imagem, a palavra está em decadência e o discurso, fragmentado e cada vez mais dissociativo. Mesmo assim, o desafio da leitura continua a ser como uma busca por consistência no acesso aos bens culturais. Maiores ainda são as dificuldades de concretizar uma leitura online porque há sempre uma forma de que anúncios publicitários resolvam sacudir as telas de leitura e inúmeras portas de saída convocando a atenção do incauto leitor. As pessoas que estão atualmente preocupadas em saber qual tecnologia se vai consolidar em lugar do livro nos próximos cinco anos poderiam parar de pensar um pouco em aparelhos e pensar mais em como a leitura e seu acesso poderão ser garantidos e ampliados a todas as pessoas porque, do contrário, não haverá evolução a encontrar neste processo, mas uma ainda maior elitização do que a já existente. Consumidores no lugar de leitores.

Fonte: MinC – Ministério da Cltura

set 16, 2010 - Crônicas    4 Comments

O segredo é deixar que a energia flua de todos

O segredo é deixar que a energia flua de todos

Profª Mariza Simon dos Santos

Na reunião da Academia(AELN) no sábado,11,  recebi de minha colega acadêmica Sandra Veroneze um instigante cartão com o título: BOM HUMOR – Você já exercitou o seu hoje?
Este tema tão apelativo levou-me a   refletir   acerca dos diversos  signicados das relações humanas, que se traduziam, segundo a mensagem, em Ecologia Humana. Tudo significa estar aberto  às emoções que nos inspiram o dia a dia.A inovação  se dá na medida em que busquemos criar  ou recriar as  boas emoções,  muitas vezes perdidas ou esquecidas.
Líderes são pessoas especiais, criativas e visionárias (cada vez mais raras)  que despertem os bons sentimentos para que aflorem no consciente, deixando que sua energia  flua e inspire aos  que  com eles convivem.

Nessa reunião tivemos a presença de um convidado muito especial, o professor Benito Isolan, que será o patrono da Feira do Livro de Osório. Com uma  fala  simples e despretenciosa conversou com os demais acadêmicos, narrando  e abordando diferentes aspectos de sua vida profissional .Tenho certeza que  seus conceitos  e experiências deixaram uma imensa  satisfação e servirão de motivação para o trabalho em conjunto dos escritores ali presentes. Portanto, a associação que faço entre o tão inspirador e criativo apelo emocional (no cartão) e a  breve convivência    com o professor Benito, inspirou-me a destacar o significado da boa amizade, do trabalho coletivo e dos objetivos comuns que se  encontram na Academia dos Escritores do Litoral Norte.

ago 6, 2010 - Crônicas    No Comments

Conversa no telefone

 Conversa no telefone

Por Suely Braga

O telefone tocou no escritório. A jovem secretária, elegante, no seu bleiser rosado e minissaia, deixando à mostra um par de belas pernas, atendeu.

-É para você Dona Marisa.

-Quem é Márcia?

-É aquela sua amiga, Dona Marlene.

Marisa afasta os papéis que tem à frente e pega o fone.

-Alô! Marlene?

Do outro lado da linha, a voz melosa de Marlene:

-Marisa, querida! Queres ir ao shopping comigo hoje à tarde?

-Marlene, tenho muito trabalho. Preciso despachar uns processos urgentes.

-Ah! Amiga! No fim do expediente. Necessito fazer umas compras. Gostaria de tua companhia-Marlene fala insistente.

-Vais fazer compras? Gastar? Olha a queda das Bolsas.

-Ah! Bem lembrado. Vou mesmo comprar uma bolsa. Preciso de uma bolsa social bem bonita.

-Não, menina. Estou falando das Bolsas de Valores. Por acaso não lês jornais  ? Não acompanhas as notícias?

Marlene com voz incrédula:

-Não tenho lido jornais. Só publicam tragédias. Fico nervosa. Na televisão só vejo as novelas.

Marisa já começando a se irritar.

-É, mas devemos nos informar saber tudo o que afeta nossa vida.

-Nossa vida diária, Marisa? Como? Não estou entendendo nada.

Marisa afastando um pouco o fone resmunga: analfabeta.

-O Beto?  O que tem ele? O Beto está bem.

 

-Não, Marlene deixa pra lá.

-O que tem a ver a queda das Bolsas com as minhas compras?

Era demais.

-Marlene presta atenção! Os juros subiram. Os juros dos cheques especiais, dos cartões de créditos das prestações. Isto tem muito a ver com tuas compras. Sim

-Não tem importância. Vou Fazer minhas compras hoje. Que tal no fim da tarde?

Preciso que me acompanhes, falou Marlene com voz suplicante.

-Combinado No fim da tarde, lá pelas dezoito horas te encontro no Praia de Belas.

 -No Praia de Belas não. No Iguatemi. Dizem que está maravilhoso depois da reforma.

 -Iguatemi!? Certo. Agora vou desligar. Meu trabalho me espera.

– Trabalhar… trabalhar…. trabalho demais faz mal. Precisas te divertir.

– Até logo, Marlene. Um abraço.

Marisa largou o fone com força vermelha de raiva.

-Ignorância tem limite – exclamou fora de si.

ago 6, 2010 - Crônicas    1 Comment

O tempo e o vento

O tempo e o vento

Por Artur Pereira dos Santos

           

            A brilhantina  e outros fixadores de cabelo se notabilizaram rapidamente entre os jovens da época..

            A mulher do gerente de uma grande empresa, recentemente transferido para o litoral reclamava do endurecimento dos cabelos devido ao nordestão misturado com maresia, que soprava inclemente no litoral, principalmente no inverno.

            Reclamava com freqüência da dificuldade de pentear as longas madeixas de cabelos castanhos acostumados ao clima da Capital. Somente os nativos suportavam o desgrenhar de cada mecha cultivada com a dificuldade das mulheres dos trabalhadores da construção civil, cumulativamente ao trabalho da casa, onde, não raro, a própria gordura das mãos ajudavam a assentá-los sobre a cabeça

            Raras mulheres tinham afazeres diferenciados dos que se constituíam, do amanhecer ao anoitecer, os cuidados com a própria casa. Estas, ou não reclamavam por falta de tempo ou por solidariedade às conterrâneas.

            Ninguém encarava com boa vontade, entretanto, qualquer necessidade de dirigir-se à cidade vizinha, onde o vento, de qualquer quadrante que soprasse, era tido como insuportável,

            Chapéu na cabeça, preferencialmente apertado e com barbicacho, era a primeira recomendação para quem precisasse fazer alguma coisa na cidade que detinha praticamente todos os serviços públicos.

             No inverno ninguém ousava dirigir-se para lá sem um bom sobretudo, para resistir ao frio e ao vento encanado nas ruas de traçados retos, como convinha a uma cidade com razoável planejamento.

            Talvez pela inveja da população das demais ou com justificada razão era denominada, pejorativamente, a cidade do vento. Era alvo, inclusive, de frases ou versos que a denegriam.

            Ressalta-se que seus próprios moradores davam razão a essas atitudes. Eles também encontravam lá suas dificuldades para suportar o excesso de vento gerado pela conformação dos morros que constituem a serra do mar e as lagoas que a cercam.

            A mulher do gerente não suportou o nordestão e fez com que o esposo solicitasse transferência novamente para a capital, fazendo-o, talvez, perder uma boa promoção dentro da carreira que seguia.

            A cidade cresceu e o vento já não parece tão forte, talvez pelas edificações cada vez mais altas e compactadas na beira do mar.

            A cidade vizinha, Bem, essa foi bafejada pelos ventos do progresso e canalizou-os para quase uma centena de geradores de energia, que dão ao município uma invejável quantia em pagamento do uso de seus domínios.

            Seus moradores já não reclamam de qualquer aragem mais forte e o poder público, inteligentemente, adotou o slogan de a Cidade dos Bons Ventos.

            Hoje, os municípios vizinhos fazem verdadeiras filas nos portões dos órgãos governamentais, quase implorando o olhar de alguém com poderes para destinar-lhes um pouquinho de sorte, metade chegaria, para fazer a felicidade dos governantes e da população. Certamente seriam criados outros slogans e, em nome do progresso, os ventos mais fortes seriam ignorados e a inveja sepultada.

            Nunca o tempo e o vento andaram tão juntos na geração do progresso.

           

ago 2, 2010 - Crônicas    2 Comments

Carta a meu velho pai

Carta a meu velho pai

Pai,

Apesar de já tomar consciência de que nada é eterno e entender perfeitamente a tua ausência tão precoce na minha vida, hoje resolvi lhe escrever (não “ti”, porque sempre lhe chamei de “senhor”).

Quero colocá-lo a par do que anda acontecendo por aquí, muito embora sinta o seu acompanhamento em todos os meus momentos. Mas é que, mesmo depois de 30 anos, ainda sinto muito a sua falta. Uma falta que as vezes dói; outras alegra e por aí vai.

Nesse tempo tive a felicidade de ver retratadas tantas “profecias” que me foram proclamadas pelo senhor. Sim! Chamo-as de profecias porque muitas aconteceram.

Sinto um orgulho imenso quando sou encontrada por alguém que não lembra do meu nome e diz: “a filha do João Rocha”. Fico de coração cheio!

Continuo com os seus traços e com muitas das suas manias.

O mundo mudou muito nesses anos Pai! Tanto, a ponto de muitas vezes eu não entender nada, mesmo tendo a consciência de que tive que amadurecer mais cedo ante a tua ausência, sob pena de não conseguir sobreviver de tanta tristeza. Mas a força da mãe fez com que a família não se desestabilizasse e tocasse o barco da melhor forma possível. Hoje ela é uma colcha de retalhos que busco entender a cada dia.

Suas coisas não estão mais na nossa casa desde a sua partida, mas ainda conservo  a sua máquina de escrever, o seu cuco, o seu jogo de dados e alguns papéis escritos pelo senhor com aquele letra digna de um “calígrafo”.

Sabe? Por muitos e muitos anos a minha letra era bem parecida … Mas atualmente, com o advento do computador, ela se tornou menos firme e não tão desenhada. Provavelmente hoje, em um teste grafológico, eu não me sairia tão bem quanto antes.

A sua herança foi tão grande que até hoje “encho o peito” quando comento as suas anedotas e todas as famosas histórias das quais o senhor foi o protagonista. E sou mais ou menos assim. Também amo gente e para essa gente sempre me disponho de coração aberto.

Sempre procurei seguir os meus sonhos e as minhas conquistas sempre foram curtidas como se o senhor estivesse presente mas, por outro lado, também caí alguns tombos, e neles o senhor também estava para me apoiar, especialmente nos piores momentos de decisão. Mas sempre decidi! Nunca deixei para trás uma decisão que deveria ser tomada. Assim como o senhor, acredito somente nos justos, nos bons, nos que não mentem, nos que não ludibriam. E por aí vou tocando a minha vida com a consciência limpa e, as vezes, com uma certa loucura para balançar o desencanto que vez ou outra apareçe. Mas lhe garanto: os desencantos tem vindo em menor número que os encantos. Fique muito tranqüilo nesse aspecto. Procuro dar luz ao que não tem vida e já aprendi que a felicidade é encontrada nas pequenas coisas, nos pequenos feitos, nos carinhos especiais e que não têm preço.

Casei-descasei! Casei-descasei novamente! Não tive filhos e não tenho gatos … Tenho a mim, a minha família, amigos verdadeiros e um mundão pela frente aguardando tudo o que ainda quero realizar.

Sou forte e fraca ao mesmo tempo, mas tento ser coerente sempre, assim como o senhor foi por toda a sua vida. Valorizo como ninguém os que me querem bem e deleto (o senhor não deve conhecer esta palavra, certo?), todos os que não me fazem bem. Em algumas situações me vejo um tanto sensitiva.

Sabe pai? A grande maioria dos filhos dos seus grandes amigos são meus grandes amigos, e não raras vezes nos pegamos rindo das “alegorias” que vocês faziam com a vida. E que alegorias! Todas com muita criatividade e inteligência.

O Baar Central ainda existe, mas nele se alojam outras gerações mas, para lhe ser franca, penso que exatamente com os mesmos objetivos da sua época.

Os carros estão diferentes. Não mais é possível identificar a chegada de alguém pelo barulho do motor, coisa que era normal na sua época da Fargo e da DKV.

Pai, as pessoas não escrevem mais cartas! Dá para imaginar que coisa triste! Atualmente na caixinha do Correio a gente encontra somente propagandas e contas. A alegria de pegar o envelope, virá-lo para ver o remetente passou. Uma pena.

A mesa Pai, a nossa mesa nunca mais foi a mesma, com o senhor sentado na cabeceira fazendo com que a gente comesse tudo o que estava servido, sem reclamar. Hoje, as crianças tem como principal palavra o “quero” e, em grande parte, manipulam os pais de tal forma que eles nem percebem.

O respeito também não é para muitos. A consideração? Ufa! Tem gente que nem sabe o que é isto.

Da sua máquina de escrever alemã manual, passei para por uma FACIT 8000, depois para uma OLIVETTI e agora ando com um notebook debaixo do braço me logando onde quiser. Tem graça? Não sei, o que sei é que não tem outro jeito. O mundo está informatizado e não dá para cair fora. Por outro lado, há pessoas que vivem dentro de um computador e nele fazem coisas incríveis … ficam até mesmo doentes.

O futebol Pai. Eu não posso deixar de lhe falar no futebol, um esporte que o senhor curtia tanto. Hoje, na sua grande maioria, os bons saem das vilas, mas as vilas não saem deles, porque não há qualquer tratamento psicológico para fazer o cara passar de uma situação de miséria para outra, onde o salário é maior do que o de qualquer trabalhador bem sucedido que tenha passado a vida batalhando. E o país literalmente pára para ver tudo isto. O seu tempo de pagar um cachorro-quente para que o jogador tivesse o seu lanche digno, sem salário, já passou.

A mídia está cada vez mais tendenciosa e os programas realmente construtivos captando cada vez menos adeptos.

Ah! As Seleções ainda existem Pai, mas muito pouco lidas e pior: com um marketing de relacionamento que deixa qualquer ser estressado, perdendo a vontade de assiná-la, o que certamente não acontecia no seu tempo.

Mas, graças à Deus,  ainda há poesia! E é nela que muitos se acolhem para entenderem essa vida louca. É nela que temos visto a mansidão do céu e entendido que tudo, apesar dos avanços rápidos em todas as áreas, vale a pena!

Beijos com saudades,

Rosalva

01/08/10

jun 21, 2010 - Crônicas    1 Comment

E lá se foi Saramago…

 E lá se foi Saramago…

Por Rosalva Rocha, 21.06.2010

E com ele muitas palavras, muitas verdades, muitas formas distintas de ver a vida com uma visão fantástica e reflexiva.
Simples.
Palavras que diziam verdades muitas vezes dolorosas, mas impossíveis de não serem analisadas.
Como expoente da literatura do século XX, deixou-nos um legado inesgotável, fazendo-me lembrar de algumas de suas palavras:
“generosa e inesgotável, a imaginação é o único preenchimento das lacunas de ocasiões perdidas que marcam o longo percurso da humanidade”.
Saramago e a sua imaginação … tão fértil e, apesar de imaginação, tão providente em todos os momentos que em o li, especialmente quando defendia que um escritor deve ter posicionamento perante a vida e a sociedade.
Fez-se sutil e até mesmo disfarçado, tamanha a sua genialidade, falando de mudanças, desigualdades, injustiças e a opressão entre homens e mulheres.
Estranho … parece que escrevia pra mim.
Sabia denunciar de forma sutil as barbáries da vida política e social, mergulhando profundamente na condição humana e na história do mundo.
Sob a minha humilde ótica, simplesmente explodiu com “O Ensaio Sobre A Cegueira”, demonstrando as perversidades que ocorrem entre os homens e que aviltam a razão humana, deixando registrado:
“Escrevi ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA para recordar a quem o leria que usamos perversamente a razão quando humilhamos a vida, que a dignididade do ser humano é insultada todos os dias pelos poderosos de nosso mundo, que a mentira universal ocupa o lugar das verdades plurais, que o homem deixou de respeitar-se a si mesmo quando perdeu o respeito a seu semelhante.”
Algo mais genial?
Finalizando, compactuo com o escrito de um querido amigo, encontrado por acaso em uma comunidade muito conhecida – André Pereira – “Não há palavras. Saramago levou-as todas”.

 

jun 14, 2010 - Crônicas    No Comments

Seminário de Capacitação da LIC

Seminário de Capacitação da Lei de Incentivo à Cultura – LIC

O Secretário de Estado da Cultura, Cézar Prestes, convida para o Seminário de Capacitação da Lei de Incentivo à Cultura – LIC a realizar-se na Câmara de Vereadores de Imbé em parceria com a Prefeitura Municipal de Imbé.

Temas: Sistema LIC, Apresentação de Projetos, Oficina de Formatação, Captação de Recurosos e Prestação de Contas.

Data: 23/06/2010 (quarta-feira).

Hora: das 8h30min às 16h.

Local: Câmara de Vereadores de Imbé, Rua Sapiranga, 411, Centro, Imbé.

Inscrições: As solicitações para inscrição devem ser encaminhadas para o e-mail lic@cultura.rs.gov.br e devem conter nome completo, município e instituição. Aguarde confirmação da inscrição por e-mail. O ingresso é a doação de um livro.

 

 

maio 14, 2010 - Crônicas    1 Comment

O Esquilador

O Esquilador

Por Artur P. dos Santos

“As tesouras cortam em um só compasso
enrijecendo o braço do esquilador”.

Também roubaste galinhas? Era a pergunta comum quando alguém aparecia de cabeça raspada na pequena cidade, onde todos conheciam todos. Tudo por conta de alguns rapazes que tentaram surrupiar algumas penosas para festejar o aniversário de um deles e foram pegos em flagrante e levados até a autoridade policial,

O delegado da época sabia que não era caso extremo. Aquilo não passava de arroubo de jovens e determinou que todos tivessem a cabeça raspada, como punição..

Enquanto isso o cabelo do rapazote continuava espetado. Sentia vontade de raspá-lo, quem sabe ao crescer viesse diferente. Talvez com a possibilidade de armação daquele topete que tanto admirava nos mocinhos dos filmes que assistia aos domingos no único cinema da cidade. Faltava-lhe, entretanto, coragem para enfrentar a gozação dos amigos.

À medida que o tempo passava, seu cabelo tomou outra forma, dificultando-lhe a manutenção sobre a cabeça quando o nordeste soprava mais forte. Depois veio a necessidade de reparti-los para fechar a clareira que se acentuava no ponto mais alto de sua mediana estatura.

Os anos passaram, A cidade cresceu. Seus habitantes eram outros. Talvez ninguém mais lembrasse do episódio das galinhas e ele voltou a pensar em raspar a cabeça. Já não sentia constrangimento e aprendera a assimilar todas as observações feitas sobre o avançado espaço sem cabelos no mesmo lugar que antes tentava esconder.

Sentou-se na cadeira do salão de costume e foi apresentado ao responsável pelo corte daquele dia. Era véspera de natal e estava disposto a raspar a cabeça antes de passar alguns dias no litoral.

Não era o mesmo profissional que conhecia. Era novo no estabelecimento e ele tratou de questioná-lo sobre a habilidade que possuía.

À medida que ia sendo informado do currículo, foi criando coragem para pedir que passasse a máquina número três, Avaliaria e, se gostasse, passaria para a de número dois. Afinal, foi informado de que o homem tinha trinta e quatro anos de idade, dez como profissional no corte de cabelos, trabalhando em um salão com seu pai, com quem aprendera tudo.. E mais, dos dezenove aos vinte e quatro havia trabalhado na tosquia de ovelhas na fronteira gaúcha. Podia confiar.

Páginas:«12345678»