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dez 18, 2009 - Contos    No Comments

Natal

 Natal

Por Leda Saraiva Soares

   É Natal mais uma vez!…
   Noite Feliz!… Noite Feliz!
   Bate o sino pequenino, sino de Belém!…
   Nasceu Jesus!… Nasceu Jesus!…

   Aquele era o recanto escolhido para colocar o pinheirinho: hall do sobrado. Para quem subisse as escadas, via a árvore de Natal, logo ao canto esquerdo.
   Na década de quarenta, na semana que antecedia o dia de Natal, um caminhão carregado de pinheiros de todos os tamanhos, procedente da Borússia, Osório, circulava pelas ruas de Tramandaí. O nosso pinheiro sempre foi dos grandes, alcançava o teto. Uma lata de querosene com algumas pedras e areia fixavam a árvore de Natal. Um papel crepom verde escondia a lata. Quando nossas tias buscavam, entre os guardados, as várias caixas empoeiradas, contendo todos os enfeites da árvore de Natal, nossos olhos cintilavam de expectativa.
   O bulício das crianças era incrível. Remexiam nas caixas, apesar da advertência dos adultos. De repente, uma bolinha escapava de nossas mãos inquietas e se espatifava em mil cacos brilhantes que se esparramavam pelo chão. E lá vinha um xingão: “Eu não disse que não era para mexer?”…

   Todo ano era preciso buscar mais enfeites na loja porque se quebravam alguns ao montar e ao desmontar a árvore. Diga-se que todos esses enfeites eram de vidro, de uma espessura delicadíssima…
As bolas prateadas, muito grandes, dependuradas nos ramos, refletiam nossos rostos de maneira deformada. Isso nos divertia muito.
   Havia uns enfeites em forma de bola com uma reentrância profunda. Era como se houvesse um cone colorido embutido na bola. Gostávamos de olhar esse enfeite… Os sininhos, tão harmoniosos, davam um toque especial á árvore. A ponteira era cuidadosamente colocada na haste mais alta, quase tocando o teto. Todo pinheiro que se prezasse haveria de ter uma ponteira em sua guia.
Todos os enfeites eram cuidadosamente colocados na árvore. Para apresentarem maior mobilidade, faziam-se alças de linha para dependurá-los.

   Os tradicionais castiçais de metal, com velas torneadas e coloridas, não poderiam faltar. Esses castiçais apresentavam um sistema de grampo, como um clipe para o cabelo que possibilitava a sua fixação nos ramos do pinheiro.
   Era a vez dos cordões prateados que interligavam os ramos, caindo graciosamente nos intervalos destes. Por último colocavam-se flocos de algodão para imitar a neve do Natal europeu. Enfeitada a árvore de Natal, adultos e crianças ficavam por alguns momentos admirando a obra, para ver se tudo estava bem feito e bonito.
   A segunda operação era a montagem do presépio ao pé do pinheirinho. Nas mãos de alguma criança sempre havia uma ovelhinha. E o lago? Cadê o espelho? E as gramas? E a estradinha de areia? A gruta. como vamos fazê-la?

   Nossa Senhora, São José e o Menino Jesus eram colocados com todo o respeito e devoção na gruta. Os Reis Magos para nossos ouvidos de crianças eram “reis magros”, com os presentes, vinham chegando. O anjo pairava sobre a gruta, glorificando o nascimento do Menino-Deus.
Nossa família era muito grande. Todo Natal transformava-se em uma grande festa, apesar de ser o dia de maior movimento no armazém e na loja

   No Natal em nossa casa comercial vendia-se de tudo: cortes de tecidos para confecção de roupas e toda sorte de presentes. Não poderiam faltar as tradicionais guloseimas: Papai Noel de cuca de mel, Papai Noel de chocolate confeitado com açúcar e uma infinidade de docinhos miúdos açucarados. Havia, ainda, doces de marzipã, apreciados pelas pessoas de origem alemã, feitos de uma massa de amêndoas com açúcar. Certa vez, quando criança provei um e não apreciei. Tinha um gosto que não agradava ao nosso paladar acostumado com o sabor de chocolate.

   Quando eu era bem criança, aqui em Tramandaí, não havia o costume do Papai Noel visitar as casas. Nós fazíamos ninhos como se costuma fazer na Páscoa e o Papai Noel, na calada da noite, deixava os presentes ao pé de nossas camas, em nossas caixas de sapatos decoradas por nós.Só por volta der 1945 é que conheci “Papai Noel de verdade”, ao vivo e a cores.

Texto do livro: SOARES, Leda Saraiva.Tramandaí / Lembranças a Granel. Edição da autora: Porto Alegre, 2004, pp.68,69.

 

dez 16, 2009 - Contos    No Comments

Área azul

Área azul

Por Artur Pereira dos Santos
Capão da Canoa, dezembro 2009

Zé conseguiu passagem promocional para viajar de avião com a esposa. A compra pela internet exigiu apenas que tivesse cartão de crédito, cujo vencimento não ultrapassasse a quantidade de parcelas com valores que cabiam em seu orçamento mensal.

Começou a perceber as diferenças dos tempos em que viajava por conta da empresa em que trabalhava quando, ao apresentar-se para despachar a bagagem, lhe entregaram uma fita já contendo os números dos assentos que deveriam ocupar, Sem que alguém perguntasse quais os que queriam dentre os disponíveis. Sequer lhe perguntaram se era fumante, como era feito em outros tempos.

Conhecedor da capacidade média de passageiros das aeronaves, não foi difícil chegar à conclusão de que viajariam na cozinha. Mas, afinal, a passagem era promocional, metade do preço, ainda a prazo, conformou-se. O atraso de meia hora na partida também fazia parte do contexto.

Na hora de entrar para a sala de espera, bagagem de mão e bolsa da esposa na esteira e a tradicional bandeja, onde deveriam depositar chaves, telefone celular e outros objetos metálicos, que foram prontamente entregues.

Espantou-se quando foi cercado por dois vigilantes, um já portando uma enorme vara de cerca de dois metros com um equipamento na ponta.

Não soube se era o adiantado da hora e o conseqüente sono que se avizinhava que lhe fez lembrar, como em um sonho, de um antigo patrão que lhe convidara para visitar as cercanias de algumas dunas próximas ao mar, a procura de tesouros enterrados por jesuítas, ou índios, nem lembrava mais. Só lembrava que ele portava um aparelho que detectava metais.

Ao cair em si, ouviu a voz do outro vigilante ordenando-lhe que desse mais alguns passos e ficasse sobre um tapete quadrado, ou retangular, naquela hora não importava o formato, onde o que estava com o equipamento passou a massagear-lhe, ordenando, inclusive, que levantasse os braços para melhor examinar, quem sabe, a procura de algum piercing nas axilas, lembrou ainda bem humorado.

Quando mandaram que virasse de costas, pensou primeiro em baixar a cabeça e fechar os olhos para que todo aquele pessoal que estava ali esperando para entrar não visse a vergonha estampada em seu rosto, Tinha plena consciência do mico que estava pagando.

Contudo, a certeza de estar sendo alvo de algum engano, lhe dava alento. Eles irão pedir desculpas e tudo ficará bem.

Mas, não foi assim. o bendito aparelhinho que lhe percorria o corpo, detectou a minúscula bolsa de moedas que utilizava para o troco diário da padaria, da fruteira e do açougue, além daquelas indispensáveis ao estacionamento na área azul da cidade.

Sacou-a lentamente do bolso, conforme orientação recebida. O que lhe fez lembrar dos filmes de mocinho, de seu passado distante, quando heróis ou bandidos eram obrigados a entregar suas armas pegando-as com as pontas dos dedos. Por fim, maldisse a traição da memória e seguiu viagem. Agradecendo estar sentado em um dos últimos bancos. Ninguém olharia para trás para apontar quem havia pagado aquele mico.

Durante a viagem foi pensando porque, apesar da evolução tecnológica, ainda não haviam inventado um aparelho que detectasse não apenas moedas no bolso dos passageiros, mas cédulas nas cuecas de tanta gente que anda por aí recebendo propina ou fazendo caixa dois para campanha política. Certamente mais Zés poderiam viajar de avião.

nov 15, 2009 - Contos    1 Comment

Meu pé de goiaba branca

Por Evanise G. Bossle
Tramandaí

Hoje fui regar as violetas e pela janela vi a minha goiabeira. É março , os frutos estão ainda verdes, pequenos, ingênuos e tristes. Daqui a algumas semanas, estarão tão maduros e cairão e serão comida para os pássaros. Lembro que meu pai vinha aqui em casa me visitar e apanhava as goiabas com uma vara, enchia sacolas do mercado Nacional com muitas goiabas e distribuía pela vizinhança. Eu gosto de goiaba, mas como duas ou três e só.

Ah, minha goiabeira triste… meu pai não regressará, está morando no céu com Jesus. E agora olho os frutos verdes ainda e remeto-me aquele tempo feliz que não voltará, somente em minhas lembranças, que são ainda muito nítidas. Sinto o cheiro da goiaba madura, mas elas ainda estão verdes, ouço a risada alegre dos dias em que ele esteve aqui.É uma lembrança boa, mas não consigo lembrar, sem que as lágrimas rolem livres e reguem as violetas da janela.

No verão passado, quando meu luto era ainda recente, minha vizinha disse que as goiabas que caiam para o lado de lá do muro entre as casas, eram colhidas por ela. Até me presenteou com uma geléia de goiaba. Naqueles dias, houve um vento forte, muitas goiabas caíram. Eu as colhi e dei uma sacola cheia delas para minha vizinha fazer mais geléia.

Mas hoje o dia ficou triste, e nesse mês de março, quem colherá as goiabas para distribuí-las aos vizinhos? Meu pai já não está aqui? E quem vai fazer geléia? Minha vizinha foi também há alguns dias atrás, morar no céu com Jesus. O céu hoje é mais feliz , por lá deve ressoar uma risada alegre do meu pai e também deve ter geléia para o café da manhã dos anjos.

E nós aqui na terra, minha goiabeira e eu, continuamos vivendo e esse ano teremos mais goiabas maduras, para a diversão dos passarinhos,esparramadas pelo chão.

 

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