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dez 9, 2011 - Contos    No Comments

Feira do Livro em Caspernoste

Feira do Livro em Caspernoste

Por Leda Saraiva Soares

Esticado, imóvel na cama. Silêncio total. Olhos fixos nas frestas da veneziana, Floriano percebe a claridade do dia a invadir o quarto. Levanta-se, pé por pé, para não acordar Alzira.  Veste-se e sai a caminhar. Não avisa ninguém. Encontra o zelador do prédio próximo ao elevador.  Bom dia, João! Tudo bem? Tudo bem, Dr. Floriano.


Caminha sem pressa em direção à praia. A rua está deserta. Chega a pensar no perigo de caminhar sozinho… Não. Quem é que vai querer assaltar um velho? Nesse dia sente-se animado.


O sol deixa a paisagem mais bela. Os pássaros fazem a festa do alvorecer. Os Mimos de Venus (hibiscos) o saúdam num festival de cores. De vez em quando um cheiro de café  passado mexe com Floriano.


Chega à praia. No calçadão não se vê uma viva alma. Nesse dia o mar está verde, translúcido. Isso é incomum. As ondas quebram delicadamente, espraiando-se com uma borda branca de espuma a beijar os pés de Floriano. A temperatura da água é a mesma da pele. Chega a ser um carinho. Floriano aspira e sente aquele ar de maresia tão puro, tão agradável. Queda-se a olhar o vai-e-vem das ondas. Sente a grandiosidade do mar.


Uma força estranha o faz flutuar. Entra em êxtase. Quando se dá conta está em outro lugar. Que estranho!… Que lugar será este? Ali não precisa caminhar, desliza. As pessoas que vê ao longe, vestem-se diferente, tudo parece luminoso, etéreo. Vê-se com uma túnica translúcida e resplendente. Uma linda moça de uma suavidade irreal o acompanha. Saem a caminhar e Floriano encanta-se com tudo o que vê. É uma cidade diferente. Não há pobreza, violência, dor, diferenças, angústia… Tudo se reveste de cores delicadas, luminosas.


Olha ao longe. Uma luz dourada quase o ofusca. Parece uma pessoa esguia, muito elegante, vestida de ouro. As pedras preciosas de suas vestes faíscam e irradiam raios como se fosse raio lazer em grandes shows. Aproxima-se mais e a reconhece. É Olívia!


-O que fazes aqui, criatura?


-Ah! Que bom,  Floriano, também vens lançar teu livro na Feira do Livro de Caspernoste. Dirigindo-se à moça que o acompanha diz: Podes deixar, Ísis. Eu acompanho Floriano até a Feira.


– Floriano, este lugar é maravilhoso. É o céu. Quem chega aqui, não quer mais ir embora. Vamos nos apressar que já estamos atrasados. Ainda bem que aqui podemos voar. Acho que o Zica, a Luna, a Daiane, o Zeca, o Pedro Paulo, a Aurora a Catarina, o Márcio e todo o pessoal já estão lá. Amanhã vais conhecer melhor esta cidade de Carpesnoste que só tem encantos e mistérios…

jun 24, 2011 - Contos    No Comments

Saindo da rotina

Saindo da rotina

Por Rosalva Rocha

Minha natureza é inquieta. Sempre tive muita dificuldade de parar, seja para um pequeno descanso, para uma conversa fiada, para um olhar descompromissado.
Sensação estranha de trabalho 24hs por dia. Produção + produção + produção.

A vida mudou, os caminhos são outros e, sem que eu me desse conta, algumas brechas foram abertas na minha vida para que eu, sem querer, começasse a contemplar e curtir o que está à minha volta. Coisas que me eram fugidias, um tanto desconhecidas e que, inacreditavelmente, sempre estiveram na minha frente.
Na semana passada, chegando ao centro de Porto Alegre, olhei no celular e percebi que havia chegado cedo demais para a Oficina Literária que estou cursando.

Fazer o quê?
Olhar vitrines? Não, tempo disperdiçado.
Tomar um café? Não, sempre tomo no café em frente ao Centro de Cultura Mario Quintana.
Ir ao Mercado Público? Não, só olharia, pois não sairia com sacola aquela hora da tarde.

Comecei então a perambular pela cidade. Foi quando, sem que eu me desse conta, me vi em frente ao Santander Cultural.
Subi as largas escadas centenárias e questionei a recepcionista se havia alguma exposição. – Sim, sempre há!
Subí ao 2º. andar e me deparei com uma exposição de desenhos que causou-me grande alegria. Um dos expositores era justamente o meu professor do Curso no Ateliê da Prefeitura de Porto Alegre.
Fiquei olhando e admirando trabalhos variados, curtindo traços, cores e texturas por um longo tempo. Enchi os meus olhos.

Desci a escada e, sem que eu percebesse, dobrei à direita e enveredei para o Café do local. Lá sentei, abri a Zero Hora do dia, tomei o meu “expresso” e, quando vi, já estava na hora do início da Oficina.
Corri e conseguí chegar com pouco atraso, mas com o coração cheio. Mudei a rotina, desvendei um novo caminho, saí do trivial … e tudo foi tão bom! A partir daquele dia tenho buscado sair do “lugar comum” e sorver o que existe de bom ao meu redor, a olhos vistos, sem que eu tenha, anteriormente, pensado que era possível.

maio 2, 2011 - Contos    No Comments

Dignidade na lama da sarjeta

Dignidade na lama da sarjeta

Por Leda Saraiva, 07.01.2011

O sol pouco se mostrou neste dia de verão. A tarde já estava de partida sem aquele pôr-do-sol que inunda a alma de alegria como a força que emana de uma obra de arte e que nos faz sonhar com um novo amanhecer. Nuvens cinzentas cobrem o céu, deixando transparecer alguns espaços, como retalhos coloridos de um azul acinzentado que faria de tudo para ser celeste. A cara feia do fim de tarde induz a um recolhimento extremamente silencioso, quase melancólico. Da janela da sala onde trabalho, vejo um pássaro apressado pousar no frágil galho da espirradeira que se balança com  tamanha afobação da ave. Tão logo pousa, abre as asas quase em desespero, infla o peito e com toda a força de que é capaz canta, ou melhor, grita estridentemente como a anunciar uma catástrofe sísmica. Outros pássaros se achegam disputando espaço na espirradeira que se alteia pela cerca e se debruça sobre o jardim na frente da casa. A amendoeira que há dois invernos rigorosos quase feneceu, embora tenha perdido seus principais galhos que a tornavam mais alta, recupera-se. O jambolão, na calçada, impõe-se com sua copa harmoniosamente redonda, quase alcançando a rede elétrica pública. Estas árvores, ao entardecer, são uma festa para os pássaros. São pousadas de infinitas estrelas.

É fevereiro na praia. Mês nobre de veraneio. Mas, na minha rua, não passa uma viva alma. Os cães, prenunciando alguma coisa, silenciam seus latidos e buscam algum refúgio. Nas varandas das casas a ausência de pessoas torna a rua mais triste ainda. O silêncio é tão profundo, revestido de cinza, que chega a incomodar. Sabe, quando esse tipo de situação nos inquieta e ficamos como os cães, de um lado para outro… Parece que está prestes a se desencadear algum fenômeno… E ficamos impedidos de fazer qualquer coisa, embora o que fazer não nos falte? Dou uma volta pela casa e volto novamente para escrivaninha, diante da janela. Entre a leitura de uma página e outra,  levanto os olhos para contemplar o que se passa lá fora.

Uma voz me chama:

-Senhora!  Senhora!

Levanto-me. Olho para o portão. Uma senhora, veranista.

-Pois não?

-Senhora, há um homem caído ali na sarjeta… Não estou com meu telefone. A senhora poderia chamar alguém para socorrê-lo?

-Vamos ver o que há com ele. Será que teve algum mal-estar ou…

Ela me acompanhou. Chegamos bem perto do acidentado. Bicicleta para um lado homem para outro, estatelado na sarjeta lamacenta. Quem seria?  Como seria sua família? Tinha mulher e filhos? Onde morava? Aparentava meia idade, estatura média. Era claro, talvez descendente de italiano ou alemão. Suas roupas não tinham cor ou tinham se revestido com a cor do entardecer sombrio. Via-se que era uma pessoa simples. Barba por fazer… Não se mexia. Logo pensei que estivesse morto. Por várias vezes o chamamos: “O que houve com o senhor?!” Parecia morto ou desmaiado. Depois de algum tempo em que o observávamos, abriu os olhos. Olhou-nos sem nos ver. Nada respondia. Entrei em casa, pequei o celular e do jardim  disquei para o “190”. Expliquei a situação. A resposta foi pronta: “Não temos viaturas, senhora. Estão todas nas ruas prestando atendimento aos chamados: gente esfaqueada, brigas, acidentados, afogados, agressões familiares… Drogas…”

-Então o que faço com esse homem caído na sarjeta?

-Telefone para o SAMU. Disque para o número tal.

Sem deixar de olhar para o homem, tentava ligar para o SAMU. Falava em voz alta pelo nervosismo e inquietude que a situação me causava. Enquanto estou telefonando, chegam aos meus ouvidos os gritos do homem:

-Fala!…  Fala!…  Fala!… Fala!…

“Ainda bem que não está morto”- pensei.

A recepcionista do SAMU ouviu minha história e me passou para a pessoa responsável por tal tipo de atendimento. Expliquei mais uma vez o ocorrido. A resposta foi direta:

– Não podemos fazer nada, senhora, porque não se configura um acidente. A senhora telefone para a Brigada Militar, “190”.

-Já telefonei. Não há viatura disponível. Sugeriram que ligasse para vocês. O homem está caído na rua, próximo á sarjeta. Há o perigo de ser atropelado a qualquer momento. Só depois de ser atropelado é que devo chamar o SAMU?

-Infelizmente, nada podemos fazer.

E eu? O que faço?

A senhora que me chamou para prestar socorro àquele pobre homem, permaneceu ao meu lado o tempo todo. A informação que se tem, quando nos deparamos com alguém acidentado “é não removê-lo para evitar algum agravamento da situação”. Continuamos a observá-lo de longe. Conseguira sentar-se. Só então percebemos que estava com sinais evidentes de embriaguês. Fiquei mais tranquila porque até parece que bêbados são protegidos por anjos…

Na rua, somente a senhora veranista que passava, eu, o bêbado e o silêncio triste daquele entardecer. A situação fugia de nosso controle. Um pouco afastadas, enquanto pensávamos que providências deveríamos tomar, o homem fez um grande esforço e conseguiu levantar-se. Ergueu a bicicleta. Desequilibrou-se  e caiu de cara no lodo da sarjeta com  bicicleta e tudo. Ali ficou por mais um tempo, caído, com sua dignidade enlameada na sarjeta. Fez mais uma tentativa. Levantou-se com dificuldade. Ergueu a bicicleta. Apoiado nesta, como se fosse um andador e bem devagarinho, foi andando rua a fora…

Os passarinhos calaram-se acomodados nas árvores.

Não consegui nem perguntar o nome da senhora que permaneceu comigo naquela situação. Quando me dei conta, já não estava mais ali.

E o silêncio cinzento encobriu a rua.

jan 18, 2011 - Contos    No Comments

Janaína

Janaína

Por Evanise Gonçalves Bossle

Janaína recuperou a voz, a fala, depois de um longo tempo. Sabíamos que ficaria melhor, com o tempo, o tempo cura tudo, o tempo tudo resolve. Então é uma garota novamente feliz. Feliz!… Janaína não será feliz, terá dias felizes, mas realmente feliz, é certo que Janaína não será…

Estávamos com pressa, também, a chuva piorava, precisávamos seguir viagem, tio Marcos tinha pressa e, mais do que pressa, receio de que a chuva interrompesse a nossa passagem pela ponte. Virgílio era mais otimista, otimista a ponto de querer ficar para o jantar, já estava tomando o habitual aperitivo que Seu Rafael oferecia. Por mim, tanto fazia ir ou ficar. Não sabia a gravidade da chuva, era uma criança, uma criança não, uma pré-adolescente inconsequente e, na verdade queria ficar mais, mais tempo perto dele. Mesmo calada, gostava de Augusto, de 14 anos, precisava ficar mais. Eu era muito tímida, falava pouco, quase nada, principalmente com os meninos. Janaína irritava-me, queria atenção, queria brincar com aquele ursinho e comigo. Eu, uma mocinha, eu que não podia, em hipótese alguma brincar na presença de Augusto, o jovem moreno que estava na frente da TV , na modesta sala, de duas poltronas velhas e a mesa de fórmica lascada.

Minha mãe preocupava-se… sempre se preocupava, raro era estar tranqüila, mas naquela noite, ela estava muito inquieta e já nem ouvia o que Dona Marta, mãe de Janaína e Augusto, dizia.Dona Marta tagarelava incansavelmente. Eu nem prestava atenção, ouvia simplesmente aquele som de conversa, ou melhor, de uma mulher falando sozinha, já que não era uma conversa, era um monólogo, minha mãe apenas assentia com a cabeça, pensando na chuva.

Era chegado o momento da partida. Tio Marcos, depois de rápida despedida, entrou no caminhão, apressado. Nós o seguimos mecanicamente, correndo naquela chuva medonha. Lembro que me despedi de Janaína, contrariada, de sua mãe e abanei a mão para Augusto, que nem retribuiu, fascinado pelo filme da TV, um repetitivo filme de artes marciais de nome complicado.

Depois de uma hora de viagem, tivemos que parar num posto de gasolina devido à força da chuva; as ruas inundavam rapidamente, os buracos de escoamento não davam conta de tanta água. Ficamos no posto por aproximadamente meia hora e iniciamos a jornada. Depois não lembro de quase nada, pois dormi encostada em minha mãe, de mau jeito na pequena boléia. Em meio ao sono, tive sonhos confusos, ouvi muito a voz do tio Marcos, parecia apavorado, eu não sabia o que ele dizia, mas era sobre a chuva, por certo.

Quando acordei, já havíamos chegado. Minha mãe me acordou. Ela estava terrivelmente transtornada, quase chorava, disse-me que era devido às condições da estrada e agradecia a Deus por estarmos todos salvos. Ouvi, depois uma conversa confusa entre os adultos, Virgílio dizia nunca ter visto tamanha desgraça: objetos levados com a correnteza, casas despencando nas encostas dos morros, pessoas correndo de um lado para o outro. E era apenas o começo…

Janaína está bem, come com vontade, já brinca normalmente, e o melhor de tudo, voltou a falar. Quando chegara lá em casa, quatro dias depois de eu tê-la visto em sua casa, agora inexistente, estava irreconhecível, pálida, magra, doente, muda. Eu não falei com ela naquela tarde, fui para casa da tia Sônia, sabia que se ficasse ali, perto dela, lembraria de Augusto e choraria muito, afinal, era inacreditável, tamanha tragédia. Janaína ficara só, sem os pais e sem o belo irmão. Janaína, aquela menininha de cinco anos ficara sem casa, sem nada, e era tão pequena para entender, tão criança para saber realmente o que havia acontecido, mas ela sabia. Era um milagre, diziam, a menina estar salva, as coisas foram levadas com a correnteza. O morro trouxera as casas consigo, todas sobre a de Janaína. Não tiveram tempo nem para entender o que estava acontecendo. Não sei se Augusto viu o final do filme, se pensou em alguma coisa, se sofreu. Também não sei como Janaína se salvou. Falaram pouco sobre isso na casa de tia Sônia, quase nada, sempre quando falavam e eu chegava perto, calavam. Não entendi muito bem. Tudo para mim parecia tão estranho, irreal. Parecia que ao dormir no caminhão eu me negava o direito de acordar daquele pesadelo. Era como se ainda estivesse dormindo, tudo era tão opaco, sem cor, misturado. Acho que o que fez Janaína emudecer, também fez com que me tornasse incapaz de compreender, embora soubesse, não queria saber, embora chorasse, eu não queria sofrer, embora eu acreditasse, não queria acreditar naquela tragédia…

Janaína está bem… Crescemos, mas algo falta em nós. Nunca falamos sobre isso, mas sabemos que perdemos pessoas que realmente amávamos.

set 21, 2010 - Contos    No Comments

Abdução

Abdução

Por Evanise Bossle

É noite de um vinte ou vinte e um de junho qualquer. Mas já é tarde, duas horas da manhã. Eu durmo em meu quarto, quando ouço um som estranhamente azul, são harpas, violoncelos, tambores e teclados. Levanto-me com meu pijama da Hello kit branco e abro a porta da sacada do 5º andar. Dali vem o som todo azul. Dali vem uma estranha fumaça triangular e dela sai uma pequena escada toda prata. Não penso, é parte de um sonho talvez, simplesmente subo a escada e vejo-me no interior da fumaça também prata. O som harmonioso de um tom de azul turquesa é calmo, mas nitidamente mais forte ali dentro. Não há ninguém, apenas uma luz forte no centro do triângulo. Sinto um movimento semelhante ao movimento de um elevador quando sai do térreo em direção ao 18º andar, não há outro som além do azul de harpas, violoncelos, tambores e teclados.
Outro movimento suave, parece-me ainda um elevador parando. Desço do triângulo prata pela mesma escada. Agora, o que vejo é estranho, peculiar, uma porta altíssima de igreja medieval, ultrapasso-a, e mais outra, e mais outra, sucessivas portas metálicas, amarelas reluzentes. Há entre elas inúmeros raios de sol que vêm de um lugar ainda mais alto que as inúmeras portas, são raios de uma luz muito forte que fere a visão. Esses raios de luz chocam-se com o solo, que é também de um amarelo vibrante. Não consigo visualizar o interior dos portais. A luz intensa impede-me. Agora, sim, parece que ultrapasso a última abertura. Há um salão oval, também amarelo, muito amarelo. O som aqui já não é azul, é todo metal, não há mais cordas, embora também seja um metal suave. Parece-me que o que cria o som são meus próprios passos no solo. Aqui vejo pela primeira vez depois da sacada, seres, são três homens de longas batas prateadas, não possuem cabelos, mas são o que poderíamos classificar de belos homens, não magros, mas fortes. Parecem irmãos tamanha semelhança, talvez pela careca reluzente e pela bata. Estão de pés descalços, mas não visualizo todo o pé, porque a bata toca o chão. Estão sérios, mas de uma seriedade acolhedora, parecem conhecerem-me a muito, mas nunca os vi. Não há palavras. Nem eu tenho nada a perguntar, parece-me que sei a resposta, as informações apenas chegam em meu cérebro tal qual estivesse em silêncio lendo um livro.
Sei do que se trata,… Agora um deles se aproxima, toca-me os cabelos, meus longos cabelos cacheados da cor daquele solo. Seu toque é suave, sinto sono, muito sono, um sono incontrolável, sinto-me desfalecer em seus braços. Outra vez o som azul, mas agora o som está indo embora. A luz da fumaça prata vai embora. Agora permanece o sono na cama do 5º andar.
mar 16, 2010 - Contos    No Comments

Grupo do joelho, ou quando o SUS é melhor

Grupo do joelho, ou quando o SUS é melhor

Por Artur Pereira dos Santos

Quem não conhece as dificuldades na área da saúde em nosso país? Hospitais fechados por insolvência: deles ou de seus administradores. Falta de leitos e emergências entupidas fazem o noticiário de todos os órgãos de imprensa. A culpa é sempre do SUS (Sistema Único de Saúde).

Na verdade, não há quem discorde disso: o próprio sistema, através de seus representantes, admite as dificuldades e promete resolver, embora saibamos que são apenas falácias pré-eleitorais ou para tentar justificar casos mais graves, em que a opinião pública se movimenta.

Parte da sociedade, mais abonada, apela para o plano de saúde, mesmo lamentando ter contribuído durante a vida e alimentado a vã esperança de que o final dela seria tranqüilo e quando precisasse de um médico ou uma internação hospitalar estivessem à disposição.

Geralmente pagando caro, depara-se, às vezes, com casos em que o plano de saúde se constitui em obstáculo ao atendimento imediato, podendo gerar riscos ao beneficiário.

Assim foi o caso do paciente que possuía plano de saúde e teve negado o transporte para a capital, devido à ambulância do hospital de sua cidade somente servir a pacientes do SUS, sendo necessária a chamada de um meio de transporte próprio da mantenedora do plano, o que poderia ter causado sério prejuízo ao usuário, devido a maior demora no atendimento especializado.

Há casos também que beiram a hilaridade como o que aconteceu com outro paciente que tendo machucado o joelho, com suspeita de rompimento de menisco, dirigiu-se ao atendimento de uma emergência e teve o diagnóstico do traumatologista de que realmente poderia ter rompido, ou quase, o menisco interno do joelho esquerdo, devendo voltar dentro de um mês para novo exame, pois, após esse tempo, poderia estar se sentindo melhor, se não tivesse ocorrido o rompimento total e ele seguisse à risca as recomendações de repouso, manutenção do joelho enfaixado em determinados momentos e aplicação de gelo em outros.

Passado um mês, sentindo-se bem melhor, dirigiu-se ao mesmo local, na certeza de que receberia instruções para aguardar mais algum tempo, com o mesmo tratamento, até a total recuperação.

O médico já não era o mesmo e o paciente, apesar de ter explicado as recomendações de seu colega, precisou sujeitar-se a um novo exame, desta vez com maior esforço da parte machucada, o que lhe deixou o joelho mais dolorido. Por fim,o médico recomendou-lhe que voltasse no dia seguinte para submeter-se ao exame do “grupo do joelho”.

Desconfiado, mas acreditando que no dia seguinte seria examinado rigorosamente por mais pessoas e talvez fosse encaminhado para uma ressonância, conforme o médico deixou transparecer, com vistas a determinar se devia ou não fazer uma cirurgia, lá se apresentou, afinal, estava por conta do plano de saúde, o negócio era aproveitar para curar-se.

Espantou-se quando verificou que o propalado grupo consistia de apenas um médico diferente, que lhe examinou o joelho com mais rigor ainda, torcendo-o para todos os lados e arrancando-lhe alguns gemidos de dor.

Terminado o exame do “grupo” foi dispensado com a recomendação de que procurasse um clínico para emitir uma requisição junto à mantenedora do plano de saúde para, enfim, fazer uma ressonância.

Ainda hoje está pensando se segue a recomendação ou recomeça o tratamento, desta vez procurando alguém que atenda pelo SUS, que certamente lhe dispensará uma olhadinha básica ao joelho machucado e recomendará repouso, uso de faixa e compressas de gelo. Até estar caminhando normalmente.

mar 2, 2010 - Contos    2 Comments

Oh Lua Cheia!

Oh Lua Cheia!

Por Rosalva Rocha – 26.2.2010

26 de fevereiro de 2010. Saio de Porto Alegre à tardinha rumo ao último final de semana de veraneio em Tramandaí, a tão conhecida “capital das praias”, a praia que me abriga desde a infância, onde eu encontro amigos pelas esquinas, caminho nas manhãs pelo calçadão sentindo a brisa do mar e me delicio com momentos muito propícios para divagar e escrever à noite.

A auto-estrada está como eu gosto, com trânsito intenso, mas sem engarrafamentos. Os inúmeros carros cruzam as pistas pelo caminho e acabam me proporcionando uma deliciosa sensação de companhia. Não estou sozinha! Começo a pensar: “O que será que essas pessoas dentro de seus carros, uns luxuosos, outros muito simples, ouvem nos seus rádios/CDs? Sobre o que elas conversam?” Algumas, no momento de alguma ultrapassagem, olham pra mim e esboçam um leve sorriso. Cumplicidade?

Certa melancolia paira no ar. Afinal, os finais de semana deste verão foram bons, cheios de sol e boas energias, muito chimarrão e a companhia de amigos e vizinhos com espíritos dóceis e sempre com dicas úteis para a minha vida. Um verão onde a cumplicidade e empatia dessas pessoas me fizeram muito bem. Eu estava realmente precisando delas neste veraneio, totalmente diferente dos outros, e com elas aprendi coisas simples que já deveria ter aprendido há muito tempo, a exemplo de aprender a rezar um terço da forma correta, de transformar uma simples canga em vários modelos diferentes, de pintar alguns móveis antigos com criatividade e alegria, de fazer um drink muito simples e gostoso, ornamentado com hortelã e, especialmente, de gostar mais e mais de mim e tomar conhecimento de que, apesar dos meus inúmeros defeitos, sou “dona do meu nariz” e ponto final!

Aliado a esses fatos, outros também precisam ser registrados: alguns encontros casuais com pessoas queridas que eu não via há muitos anos, açaí na tigela no Glut´s, um crepe de chocolate de vez em quando, algumas refeições carinhosamente preparadas como surpresa para aguçar ainda mais o meu paladar após a chegada da praia, muita leitura e por aí afora. Eis que de repente a sombra de uma lua cheia surge à minha frente na imensidão do céu! Uma cena maravilhosa! Adoro a lua quando está cheia – ela sempre me proporciona coisas boas. Mesmo consciente da atenção necessária ao volante, começo a fitá-la seguidamente. E ela passa a ser minha cúmplice. Em pensamento, começo a conversar com ela, a contar os meus enganos, os desenganos, os planos e a certeza que tenho de que muitas coisas boas acontecerão neste ano. Bons presságios, sim! Muito bons presságios! Mais alguns minutos e, do lado esquerdo enxergo, ao longe, a minha cidade natal – Santo Antônio da Patrulha – a responsável em alguns aspectos pelo que sou hoje. Lá sempre fui muito feliz junto à minha família até os 18 anos e granjeei amigos que me acompanham até hoje e para lá retorno sempre que possível. Vontade de entrar no entroncamento … Mas o atraso já está evidente e preciso seguir. Um bip-bip-bip soa do meu celular. Apanho-o e leio a mensagem que provém da minha irmã mais velha: “Já estou quase saindo. Estou felizzzzz”. Aquele “felizzzz” me deixou mais feliz ainda. Nada como sentir que alguém que a gente ama está bem. Passo o primeiro pedágio e esqueço do dinheiro, tamanho o envolvimento com a mensagem e a minha lua companheira. A cobradora, com olhar simpático, me fita com um ar de questionamento e eu, finalmente, acabo entendendo que preciso pegar a bolsa. Pedágio pago! Cupom na mão! Arranco o carro e retorno a olhar a lua. Neste momento já não tenho mais qualquer dúvida: ela é minha cúmplice por inteiro. Certo excitamento começa a me contagiar e acabo apertando o acelerador do carro com mais força. 125Km/h. Ôpa! Calma! Não posso deixar que o encanto desses momentos me contagie a ponto de correr um perigo desnecessário. Segundo pedágio! Com o “fora” no primeiro, os R$ 7,00 reais já estão nas mãos. Sigo o caminho.

Começo a avistar a Lagoa dos Barros à direita, que sempre me encanta com a sua beleza e as suas lendas contadas por meus pais na minha infância. Em seguida avisto o parque eólico, também maravilhoso e, de repente, a noite começa a surgir e a minha companheira já está muito mais clara e brilhante. O contraste com o escuro do céu é encantador. Recomeço o diálogo com mais energia e peço a ela, em voz alta, equilíbrio suficiente para seguir a minha vida com dignidade e que os recomeços neste ano sejam gratificantes, com boas doses de sabedoria. Subitamente enxergo dentro dela “um homem plantando um pé de alface”, fato que me foi induzido por minha avó paterna quando eu era criança (acreditem: sempre que vejo uma lua cheia continuo enxergando dentro ela um homem plantando um pé de alface). Eu sei que são as suas nuances, mas o homem está lá trabalhando.

Estranho que a noite se prenuncia … Esqueço que o horário de verão findou na semana passada. O horário está certo. 18h30min. Tempo suficiente para chegar em casa, conversar um pouco com minha mãe e descansar. E a minha cúmplice continua a me acompanhar. Ela está “totalmente cheia”, do jeito que gosto. Apareceu para brindar o meu final de veraneio e, para não perder o costume, mais um pedido faço a ela, exatamente na passagem pela entrada da estrada do mar – neste momento quase não consigo mais enxergá-la: “que ela me ilumine e me proteja sempre e que eu não esmoreça em quaisquer situações negativas e, especialmente, não permita jamais que eu deixe de amá-la”. O trajeto foi maravilhoso, brindado, tranqüilo, seguro e “acompanhado” – tudo o que eu precisava neste dia. As surpresas desagradáveis deste veraneio simplesmente “viraram pó” – sabe-se lá se aconteceram …

Já estou em casa. E felizzzz!

fev 3, 2010 - Contos    1 Comment

A estrada

A ESTRADA

Por Artur Pereira dos Santos

O reflexo do sol nos olhos interrompeu o mais longo pensamentos que teve nos últimos anos.
Baixou o pára-sol do carona até uma posição em que apenas os raios que tingiam de vermelho as nuvens mais baixas eram vistos e tentou retomar a concentração.
Maldito Sol, pensou. – Onde estava mesmo? Igualdade? Liberdade?. Lembrou, era esta a palavra que gravara por último na memória. Era de liberdade o último pensamento interrompido.
Para ele esta palavra sempre tivera um significado expressivo. Era a que mais marcava sua memória nos principais momentos.
Mas havia mais coisa naquilo que conseguira juntar enquanto seus olhos se fixavam, ora no asfalto esburacado, ora nas margens desiguais da estrada, nunca coincidentes com a paisagem que conhecia
Pensou que talvez tivesse sonhado. Mas não, as lembranças eram reais demais Nos sonhos são desbotadas.
Num gesto automático, acariciou a barba por fazer, como se quisesse amenizar o princípio de irritação que começava a sentir. Acalma-te hombre, pensou consigo mesmo. Nem tudo está perdido.
Afinal, uma nova vida irá começar em teu novo destino.

dez 22, 2009 - Contos    No Comments

Noites natalinas

Noites natalinas

Por Mariza Simon dos Santos

Quero escrever sobre o cotidiano natalino que a a cada ano se repetiu com o mesmo ritual: o pinheiro araucária trazido do mato, enfeitado com algodão e bolas coloridas, o rústico presépio, Papai Noel, uma figura mágica , as velas acesas para esperá-lo e os cantos natalinos entoados ao som do piano e do acordeão. Ah! Se me lembro daqueles natais!

Uma ceia farta na grande mesa centralizada com o conhecido peru, abatido na véspera, bolachas , nozes , não faltando outros saborosos complementos. E os doces? Como faltariam os doces numa mesa alemã? Torta, pudins, caramelados e a tão apreciada “torta de sorvete”, feita a muitas mãos.

Toda a família em frente ao pinheiro, tios,tias,primos e primas, toda a parentela, amigos, convidados, em torno da cadeira de balanço onde reinava a figura central de minha avó paterna.

A cerimônia natalina começava, alvoroço na sala apertada. O som de um sino abafado anunciava a chegada do tão esperado Papai Noel. Emoção: olhos arregalados e corações batendo e ele chegava com seu HO! HO! carregando um grande saco de estopa às costas, auxiliado pelos tios que tb. carregavam sacolas cheias de presentes.,

As crianças iam cumprimentá-lo , estendendo a mãozinha e estalando um tímido beijo em sua face fria. Ele perguntava sobre a escola e o comportamento, dando conselhos. Aos mais levados, mediante a intervenção de um dos pais presentes, levantava a mão mostrando uma vara fina do marmeleiro que havia no pátio da casa.

Depois das saudações vinha a hora de arte. As crianças recitavam versinhos, outras entoavam cantos natalinos e ensaiavam passos de dança, encorajadas pela entusiasmada parentela, acrescida dos orgulhosos pais.

Vovó, orgulhosa, balançava a cabeça sorrindo ,sentada na sua inseparável cadeira-de-balanço.

Ah! Como eram bons meus tempos de infância ! Como eram bons os meus Natais! Ainda existem na minha memória ! Da mesma forma, mantenho o mesmo tradicional ritual para que meus netos guardem nos seus corações a lembrança destes momentos mágicos em suas vidas!

dez 18, 2009 - Contos    No Comments

O dia de Natal

O dia de Natal

Por Leda Saraiva Soares

   Era uma expectativa muito grande até o dia 24, véspera do dia de Natal, data em que o Papai Noel chegaria com os seus presentes tão esperados.

   As pessoas, em sua maioria, deixam para fazer suas compras de Natal na última hora. O mesmo acontecia em  Tramandaí. Era um dia de movimento fantástico. A loja e armazém de meus pais ficavam apinhados de gente, todos querendo ser atendidos ao mesmo tempo. Parecia até o movimento da “Bolsa de Valores”, claro que  em menor escala…. O balcão da loja, sem exagero, ficava literalmente tomado por tecidos, uns sobre os outros porque não dava tempo de recolocá-los no lugar. Ninguém achava mais a tesoura para cortar tecidos… nem o metro… era o caos! Quando o movimento se acalmava, corria-se a pôr tudo em ordem para que possibilitasse dar continuidade ao atendimento. Todos ficavam exaustos. Mas a festa de Natal ainda estava para acontecer.

   Dez horas da noite… essa era a hora em que a família conseguia se reunir. As crianças desde cedo, estavam arrumadas, numa excitação grande, questionando sobre o Papai Noel: Existe? Não existe?

   O pinheirinho todo enfeitado era uma grande  atração. O presépio era um encanto! O tio Pedro liderava o ensaio das músicas que deveríamos cantar para o Papai Noel:  “Já faz tempo que eu pedi, mas o meu Papai Noel não vem…”(…) A bênção, Papai Noel, eu quero um presente seu, aquele que lhe pedi, você ainda não me deu…”(…) O canto nos acalmava e os adultos ganhavam tempo.  Cada criança tinha que fazer alguma coisa para o papai Noel: cantar, dizer um verso, dançar, rezar…

   À medida que as horas iam passando, sempre chegava mais uma pessoa atrasada. Alguém anunciava que o Papai Noel já estava a caminho. Era a hora de acender as  velinhas da árvore. Uma de nossas tias, tia Rola, tia Ioia ou tia Julieta, com um fósforo, acendia cada velinha do pinheiro. As luzes se apagavam. era um momento mágico!. Só o pinheirinho ficava iluminado. Nessa época, não havia, ainda, essas luzes “pisca-pisca” tão usadas atualmente. Entoávamos a música “Noite Feliz”. O coro de vozes  ia se intensificando e o cântico “Noite Feliz” era entoado por todos com grande emoção. Naquele momento, a lembrança de pessoas queridas que partiram desta vida, doía em saudade no peito de alguém. As lágrimas eram inevitáveis. A luz das velinhas realçava os enfeites da árvore que brilhavam intensamente, refletindo-se nos olhos dos presentes. Era um momento de saudade que se misturava à alegria daqueles rostinhos felizes e ingênuos das crianças.

   Finalmente, ouvia-se um bater forte da bengala do Papai Noel na madeira da escada do sobrado que conduzia ao hall. As crianças ficavam nervosas, alvoroçadas. Algumas começavam a chorar com medo do   Papai Noel. As maiores, com a presença do velhinho, aquietavam-se.

   A festa começava. As crianças faziam suas apresentações. Um adulto auxiliava o Papai Noel lendo os nomes escritos nos papéis dos presentes.O Papai Noel ia chamando, cada um por seu nome: Renato!, Marco Antônio! Glaci! Lizette! Leda! Gilberto! Beti, Clovis(…) Depois começava a chamar os adultos: Vovô Fernando! Vovó Bernardina! Mariquinha! Palmarito! Pedro! Rola! Aristides! Julieta! Ioia! E tantos outros nomes de pessoas que trabalhavam em nossa casa, tanto no balcão como nos afazeres domésticos: Santa! Elvira! Sem falar dos amigos que sempre estavam presentes em nossos Natais: Sedinha!Ah! essa não poderia faltar. Já fazia parte de nossa família, era a nossa amiga inseparável, sem a qual os brinquedos perdiam a graça.

   Papai Noel, depois de chamar por tantos nomes, despedia-se para voltar no ano seguinte.

Texto do livro: SOARES, Leda Saraiva.Tramandaí / Lembranças a Granel.Edição da autora,Porto Alegre, 2004, pp.70,71.

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