Archive for the ‘Contos’ Category

Abdução

terça-feira, setembro 21st, 2010
Abdução

Por Evanise Bossle

É noite de um vinte ou vinte e um de junho qualquer. Mas já é tarde, duas horas da manhã. Eu durmo em meu quarto, quando ouço um som estranhamente azul, são harpas, violoncelos, tambores e teclados. Levanto-me com meu pijama da Hello kit branco e abro a porta da sacada do 5º andar. Dali vem o som todo azul. Dali vem uma estranha fumaça triangular e dela sai uma pequena escada toda prata. Não penso, é parte de um sonho talvez, simplesmente subo a escada e vejo-me no interior da fumaça também prata. O som harmonioso de um tom de azul turquesa é calmo, mas nitidamente mais forte ali dentro. Não há ninguém, apenas uma luz forte no centro do triângulo. Sinto um movimento semelhante ao movimento de um elevador quando sai do térreo em direção ao 18º andar, não há outro som além do azul de harpas, violoncelos, tambores e teclados.
Outro movimento suave, parece-me ainda um elevador parando. Desço do triângulo prata pela mesma escada. Agora, o que vejo é estranho, peculiar, uma porta altíssima de igreja medieval, ultrapasso-a, e mais outra, e mais outra, sucessivas portas metálicas, amarelas reluzentes. Há entre elas inúmeros raios de sol que vêm de um lugar ainda mais alto que as inúmeras portas, são raios de uma luz muito forte que fere a visão. Esses raios de luz chocam-se com o solo, que é também de um amarelo vibrante. Não consigo visualizar o interior dos portais. A luz intensa impede-me. Agora, sim, parece que ultrapasso a última abertura. Há um salão oval, também amarelo, muito amarelo. O som aqui já não é azul, é todo metal, não há mais cordas, embora também seja um metal suave. Parece-me que o que cria o som são meus próprios passos no solo. Aqui vejo pela primeira vez depois da sacada, seres, são três homens de longas batas prateadas, não possuem cabelos, mas são o que poderíamos classificar de belos homens, não magros, mas fortes. Parecem irmãos tamanha semelhança, talvez pela careca reluzente e pela bata. Estão de pés descalços, mas não visualizo todo o pé, porque a bata toca o chão. Estão sérios, mas de uma seriedade acolhedora, parecem conhecerem-me a muito, mas nunca os vi. Não há palavras. Nem eu tenho nada a perguntar, parece-me que sei a resposta, as informações apenas chegam em meu cérebro tal qual estivesse em silêncio lendo um livro.
Sei do que se trata,… Agora um deles se aproxima, toca-me os cabelos, meus longos cabelos cacheados da cor daquele solo. Seu toque é suave, sinto sono, muito sono, um sono incontrolável, sinto-me desfalecer em seus braços. Outra vez o som azul, mas agora o som está indo embora. A luz da fumaça prata vai embora. Agora permanece o sono na cama do 5º andar.
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Grupo do joelho, ou quando o SUS é melhor

terça-feira, março 16th, 2010

Grupo do joelho, ou quando o SUS é melhor

Por Artur Pereira dos Santos

Quem não conhece as dificuldades na área da saúde em nosso país? Hospitais fechados por insolvência: deles ou de seus administradores. Falta de leitos e emergências entupidas fazem o noticiário de todos os órgãos de imprensa. A culpa é sempre do SUS (Sistema Único de Saúde).

Na verdade, não há quem discorde disso: o próprio sistema, através de seus representantes, admite as dificuldades e promete resolver, embora saibamos que são apenas falácias pré-eleitorais ou para tentar justificar casos mais graves, em que a opinião pública se movimenta.

Parte da sociedade, mais abonada, apela para o plano de saúde, mesmo lamentando ter contribuído durante a vida e alimentado a vã esperança de que o final dela seria tranqüilo e quando precisasse de um médico ou uma internação hospitalar estivessem à disposição.

Geralmente pagando caro, depara-se, às vezes, com casos em que o plano de saúde se constitui em obstáculo ao atendimento imediato, podendo gerar riscos ao beneficiário.

Assim foi o caso do paciente que possuía plano de saúde e teve negado o transporte para a capital, devido à ambulância do hospital de sua cidade somente servir a pacientes do SUS, sendo necessária a chamada de um meio de transporte próprio da mantenedora do plano, o que poderia ter causado sério prejuízo ao usuário, devido a maior demora no atendimento especializado.

Há casos também que beiram a hilaridade como o que aconteceu com outro paciente que tendo machucado o joelho, com suspeita de rompimento de menisco, dirigiu-se ao atendimento de uma emergência e teve o diagnóstico do traumatologista de que realmente poderia ter rompido, ou quase, o menisco interno do joelho esquerdo, devendo voltar dentro de um mês para novo exame, pois, após esse tempo, poderia estar se sentindo melhor, se não tivesse ocorrido o rompimento total e ele seguisse à risca as recomendações de repouso, manutenção do joelho enfaixado em determinados momentos e aplicação de gelo em outros.

Passado um mês, sentindo-se bem melhor, dirigiu-se ao mesmo local, na certeza de que receberia instruções para aguardar mais algum tempo, com o mesmo tratamento, até a total recuperação.

O médico já não era o mesmo e o paciente, apesar de ter explicado as recomendações de seu colega, precisou sujeitar-se a um novo exame, desta vez com maior esforço da parte machucada, o que lhe deixou o joelho mais dolorido. Por fim,o médico recomendou-lhe que voltasse no dia seguinte para submeter-se ao exame do “grupo do joelho”.

Desconfiado, mas acreditando que no dia seguinte seria examinado rigorosamente por mais pessoas e talvez fosse encaminhado para uma ressonância, conforme o médico deixou transparecer, com vistas a determinar se devia ou não fazer uma cirurgia, lá se apresentou, afinal, estava por conta do plano de saúde, o negócio era aproveitar para curar-se.

Espantou-se quando verificou que o propalado grupo consistia de apenas um médico diferente, que lhe examinou o joelho com mais rigor ainda, torcendo-o para todos os lados e arrancando-lhe alguns gemidos de dor.

Terminado o exame do “grupo” foi dispensado com a recomendação de que procurasse um clínico para emitir uma requisição junto à mantenedora do plano de saúde para, enfim, fazer uma ressonância.

Ainda hoje está pensando se segue a recomendação ou recomeça o tratamento, desta vez procurando alguém que atenda pelo SUS, que certamente lhe dispensará uma olhadinha básica ao joelho machucado e recomendará repouso, uso de faixa e compressas de gelo. Até estar caminhando normalmente.

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Oh Lua Cheia!

terça-feira, março 2nd, 2010

Oh Lua Cheia!

Por Rosalva Rocha – 26.2.2010

26 de fevereiro de 2010. Saio de Porto Alegre à tardinha rumo ao último final de semana de veraneio em Tramandaí, a tão conhecida “capital das praias”, a praia que me abriga desde a infância, onde eu encontro amigos pelas esquinas, caminho nas manhãs pelo calçadão sentindo a brisa do mar e me delicio com momentos muito propícios para divagar e escrever à noite.

A auto-estrada está como eu gosto, com trânsito intenso, mas sem engarrafamentos. Os inúmeros carros cruzam as pistas pelo caminho e acabam me proporcionando uma deliciosa sensação de companhia. Não estou sozinha! Começo a pensar: “O que será que essas pessoas dentro de seus carros, uns luxuosos, outros muito simples, ouvem nos seus rádios/CDs? Sobre o que elas conversam?” Algumas, no momento de alguma ultrapassagem, olham pra mim e esboçam um leve sorriso. Cumplicidade?

Certa melancolia paira no ar. Afinal, os finais de semana deste verão foram bons, cheios de sol e boas energias, muito chimarrão e a companhia de amigos e vizinhos com espíritos dóceis e sempre com dicas úteis para a minha vida. Um verão onde a cumplicidade e empatia dessas pessoas me fizeram muito bem. Eu estava realmente precisando delas neste veraneio, totalmente diferente dos outros, e com elas aprendi coisas simples que já deveria ter aprendido há muito tempo, a exemplo de aprender a rezar um terço da forma correta, de transformar uma simples canga em vários modelos diferentes, de pintar alguns móveis antigos com criatividade e alegria, de fazer um drink muito simples e gostoso, ornamentado com hortelã e, especialmente, de gostar mais e mais de mim e tomar conhecimento de que, apesar dos meus inúmeros defeitos, sou “dona do meu nariz” e ponto final!

Aliado a esses fatos, outros também precisam ser registrados: alguns encontros casuais com pessoas queridas que eu não via há muitos anos, açaí na tigela no Glut´s, um crepe de chocolate de vez em quando, algumas refeições carinhosamente preparadas como surpresa para aguçar ainda mais o meu paladar após a chegada da praia, muita leitura e por aí afora. Eis que de repente a sombra de uma lua cheia surge à minha frente na imensidão do céu! Uma cena maravilhosa! Adoro a lua quando está cheia – ela sempre me proporciona coisas boas. Mesmo consciente da atenção necessária ao volante, começo a fitá-la seguidamente. E ela passa a ser minha cúmplice. Em pensamento, começo a conversar com ela, a contar os meus enganos, os desenganos, os planos e a certeza que tenho de que muitas coisas boas acontecerão neste ano. Bons presságios, sim! Muito bons presságios! Mais alguns minutos e, do lado esquerdo enxergo, ao longe, a minha cidade natal – Santo Antônio da Patrulha – a responsável em alguns aspectos pelo que sou hoje. Lá sempre fui muito feliz junto à minha família até os 18 anos e granjeei amigos que me acompanham até hoje e para lá retorno sempre que possível. Vontade de entrar no entroncamento … Mas o atraso já está evidente e preciso seguir. Um bip-bip-bip soa do meu celular. Apanho-o e leio a mensagem que provém da minha irmã mais velha: “Já estou quase saindo. Estou felizzzzz”. Aquele “felizzzz” me deixou mais feliz ainda. Nada como sentir que alguém que a gente ama está bem. Passo o primeiro pedágio e esqueço do dinheiro, tamanho o envolvimento com a mensagem e a minha lua companheira. A cobradora, com olhar simpático, me fita com um ar de questionamento e eu, finalmente, acabo entendendo que preciso pegar a bolsa. Pedágio pago! Cupom na mão! Arranco o carro e retorno a olhar a lua. Neste momento já não tenho mais qualquer dúvida: ela é minha cúmplice por inteiro. Certo excitamento começa a me contagiar e acabo apertando o acelerador do carro com mais força. 125Km/h. Ôpa! Calma! Não posso deixar que o encanto desses momentos me contagie a ponto de correr um perigo desnecessário. Segundo pedágio! Com o “fora” no primeiro, os R$ 7,00 reais já estão nas mãos. Sigo o caminho.

Começo a avistar a Lagoa dos Barros à direita, que sempre me encanta com a sua beleza e as suas lendas contadas por meus pais na minha infância. Em seguida avisto o parque eólico, também maravilhoso e, de repente, a noite começa a surgir e a minha companheira já está muito mais clara e brilhante. O contraste com o escuro do céu é encantador. Recomeço o diálogo com mais energia e peço a ela, em voz alta, equilíbrio suficiente para seguir a minha vida com dignidade e que os recomeços neste ano sejam gratificantes, com boas doses de sabedoria. Subitamente enxergo dentro dela “um homem plantando um pé de alface”, fato que me foi induzido por minha avó paterna quando eu era criança (acreditem: sempre que vejo uma lua cheia continuo enxergando dentro ela um homem plantando um pé de alface). Eu sei que são as suas nuances, mas o homem está lá trabalhando.

Estranho que a noite se prenuncia … Esqueço que o horário de verão findou na semana passada. O horário está certo. 18h30min. Tempo suficiente para chegar em casa, conversar um pouco com minha mãe e descansar. E a minha cúmplice continua a me acompanhar. Ela está “totalmente cheia”, do jeito que gosto. Apareceu para brindar o meu final de veraneio e, para não perder o costume, mais um pedido faço a ela, exatamente na passagem pela entrada da estrada do mar – neste momento quase não consigo mais enxergá-la: “que ela me ilumine e me proteja sempre e que eu não esmoreça em quaisquer situações negativas e, especialmente, não permita jamais que eu deixe de amá-la”. O trajeto foi maravilhoso, brindado, tranqüilo, seguro e “acompanhado” – tudo o que eu precisava neste dia. As surpresas desagradáveis deste veraneio simplesmente “viraram pó” – sabe-se lá se aconteceram …

Já estou em casa. E felizzzz!

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A estrada

quarta-feira, fevereiro 3rd, 2010

A ESTRADA

Por Artur Pereira dos Santos

O reflexo do sol nos olhos interrompeu o mais longo pensamentos que teve nos últimos anos.
Baixou o pára-sol do carona até uma posição em que apenas os raios que tingiam de vermelho as nuvens mais baixas eram vistos e tentou retomar a concentração.
Maldito Sol, pensou. – Onde estava mesmo? Igualdade? Liberdade?. Lembrou, era esta a palavra que gravara por último na memória. Era de liberdade o último pensamento interrompido.
Para ele esta palavra sempre tivera um significado expressivo. Era a que mais marcava sua memória nos principais momentos.
Mas havia mais coisa naquilo que conseguira juntar enquanto seus olhos se fixavam, ora no asfalto esburacado, ora nas margens desiguais da estrada, nunca coincidentes com a paisagem que conhecia
Pensou que talvez tivesse sonhado. Mas não, as lembranças eram reais demais Nos sonhos são desbotadas.
Num gesto automático, acariciou a barba por fazer, como se quisesse amenizar o princípio de irritação que começava a sentir. Acalma-te hombre, pensou consigo mesmo. Nem tudo está perdido.
Afinal, uma nova vida irá começar em teu novo destino.

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Noites natalinas

terça-feira, dezembro 22nd, 2009

Noites natalinas

Por Mariza Simon dos Santos

Quero escrever sobre o cotidiano natalino que a a cada ano se repetiu com o mesmo ritual: o pinheiro araucária trazido do mato, enfeitado com algodão e bolas coloridas, o rústico presépio, Papai Noel, uma figura mágica , as velas acesas para esperá-lo e os cantos natalinos entoados ao som do piano e do acordeão. Ah! Se me lembro daqueles natais!

Uma ceia farta na grande mesa centralizada com o conhecido peru, abatido na véspera, bolachas , nozes , não faltando outros saborosos complementos. E os doces? Como faltariam os doces numa mesa alemã? Torta, pudins, caramelados e a tão apreciada “torta de sorvete”, feita a muitas mãos.

Toda a família em frente ao pinheiro, tios,tias,primos e primas, toda a parentela, amigos, convidados, em torno da cadeira de balanço onde reinava a figura central de minha avó paterna.

A cerimônia natalina começava, alvoroço na sala apertada. O som de um sino abafado anunciava a chegada do tão esperado Papai Noel. Emoção: olhos arregalados e corações batendo e ele chegava com seu HO! HO! carregando um grande saco de estopa às costas, auxiliado pelos tios que tb. carregavam sacolas cheias de presentes.,

As crianças iam cumprimentá-lo , estendendo a mãozinha e estalando um tímido beijo em sua face fria. Ele perguntava sobre a escola e o comportamento, dando conselhos. Aos mais levados, mediante a intervenção de um dos pais presentes, levantava a mão mostrando uma vara fina do marmeleiro que havia no pátio da casa.

Depois das saudações vinha a hora de arte. As crianças recitavam versinhos, outras entoavam cantos natalinos e ensaiavam passos de dança, encorajadas pela entusiasmada parentela, acrescida dos orgulhosos pais.

Vovó, orgulhosa, balançava a cabeça sorrindo ,sentada na sua inseparável cadeira-de-balanço.

Ah! Como eram bons meus tempos de infância ! Como eram bons os meus Natais! Ainda existem na minha memória ! Da mesma forma, mantenho o mesmo tradicional ritual para que meus netos guardem nos seus corações a lembrança destes momentos mágicos em suas vidas!

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