Archive for the ‘Contos’ Category

Conversando com uma velha senhora

segunda-feira, janeiro 2nd, 2012

Conversando com uma velha senhora

Por Mário Feijó, 02/01/2011

Ontem à noite esteve em meu quarto uma velha senhora. Cabelos grisalhos que usava em forma de coque, presos a um camafeu. Usava uma blusa acinzentada, saia longa listrada de preto, mas com fundo também cinza. Por cima de tudo tinha um avental alvíssimo com rendas bordadas contornando-o.

Era uma simpatia aquela criatura que em momento algum pareceu-me ser uma desconhecida. Era intima até. Sabia da minha vida. Era carinhosa comigo, e parecia estar aqui com algum objetivo específico. E era tão real, como é real este momento. Não sei se me disse seu nome, mas entendi ser “The Mor”, o que hoje me faz um pouco mais sentido se ao juntar as palavras ao contrário chego ao nome Morthe.

Pobre senhora. Em momento algum me deixou assustado, nem agora que eu sei o seu objetivo. Não era sua intenção, certamente fazer-me algum mal, só estar comigo, ou acompanhar-me a algum lugar específico. Sei que a pobrezinha se foi sem ter cumprido sua missão. Quem sabe havia algum “vivente” ou algum “morrente” que lhe inspirou maior atenção. Certamente minhas conversas andam meio chatinhas no momento…

Quem sabe qualquer dia ela volte com novos assuntos e eu tenha algo mais interessante pra contar…

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Feira do Livro em Caspernoste

sexta-feira, dezembro 9th, 2011

Feira do Livro em Caspernoste

Por Leda Saraiva Soares

Esticado, imóvel na cama. Silêncio total. Olhos fixos nas frestas da veneziana, Floriano percebe a claridade do dia a invadir o quarto. Levanta-se, pé por pé, para não acordar Alzira.  Veste-se e sai a caminhar. Não avisa ninguém. Encontra o zelador do prédio próximo ao elevador.  Bom dia, João! Tudo bem? Tudo bem, Dr. Floriano.


Caminha sem pressa em direção à praia. A rua está deserta. Chega a pensar no perigo de caminhar sozinho… Não. Quem é que vai querer assaltar um velho? Nesse dia sente-se animado.


O sol deixa a paisagem mais bela. Os pássaros fazem a festa do alvorecer. Os Mimos de Venus (hibiscos) o saúdam num festival de cores. De vez em quando um cheiro de café  passado mexe com Floriano.


Chega à praia. No calçadão não se vê uma viva alma. Nesse dia o mar está verde, translúcido. Isso é incomum. As ondas quebram delicadamente, espraiando-se com uma borda branca de espuma a beijar os pés de Floriano. A temperatura da água é a mesma da pele. Chega a ser um carinho. Floriano aspira e sente aquele ar de maresia tão puro, tão agradável. Queda-se a olhar o vai-e-vem das ondas. Sente a grandiosidade do mar.


Uma força estranha o faz flutuar. Entra em êxtase. Quando se dá conta está em outro lugar. Que estranho!… Que lugar será este? Ali não precisa caminhar, desliza. As pessoas que vê ao longe, vestem-se diferente, tudo parece luminoso, etéreo. Vê-se com uma túnica translúcida e resplendente. Uma linda moça de uma suavidade irreal o acompanha. Saem a caminhar e Floriano encanta-se com tudo o que vê. É uma cidade diferente. Não há pobreza, violência, dor, diferenças, angústia… Tudo se reveste de cores delicadas, luminosas.


Olha ao longe. Uma luz dourada quase o ofusca. Parece uma pessoa esguia, muito elegante, vestida de ouro. As pedras preciosas de suas vestes faíscam e irradiam raios como se fosse raio lazer em grandes shows. Aproxima-se mais e a reconhece. É Olívia!


-O que fazes aqui, criatura?


-Ah! Que bom,  Floriano, também vens lançar teu livro na Feira do Livro de Caspernoste. Dirigindo-se à moça que o acompanha diz: Podes deixar, Ísis. Eu acompanho Floriano até a Feira.


- Floriano, este lugar é maravilhoso. É o céu. Quem chega aqui, não quer mais ir embora. Vamos nos apressar que já estamos atrasados. Ainda bem que aqui podemos voar. Acho que o Zica, a Luna, a Daiane, o Zeca, o Pedro Paulo, a Aurora a Catarina, o Márcio e todo o pessoal já estão lá. Amanhã vais conhecer melhor esta cidade de Carpesnoste que só tem encantos e mistérios…

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Saindo da rotina

sexta-feira, junho 24th, 2011

Saindo da rotina

Por Rosalva Rocha

Minha natureza é inquieta. Sempre tive muita dificuldade de parar, seja para um pequeno descanso, para uma conversa fiada, para um olhar descompromissado.
Sensação estranha de trabalho 24hs por dia. Produção + produção + produção.

A vida mudou, os caminhos são outros e, sem que eu me desse conta, algumas brechas foram abertas na minha vida para que eu, sem querer, começasse a contemplar e curtir o que está à minha volta. Coisas que me eram fugidias, um tanto desconhecidas e que, inacreditavelmente, sempre estiveram na minha frente.
Na semana passada, chegando ao centro de Porto Alegre, olhei no celular e percebi que havia chegado cedo demais para a Oficina Literária que estou cursando.

Fazer o quê?
Olhar vitrines? Não, tempo disperdiçado.
Tomar um café? Não, sempre tomo no café em frente ao Centro de Cultura Mario Quintana.
Ir ao Mercado Público? Não, só olharia, pois não sairia com sacola aquela hora da tarde.

Comecei então a perambular pela cidade. Foi quando, sem que eu me desse conta, me vi em frente ao Santander Cultural.
Subi as largas escadas centenárias e questionei a recepcionista se havia alguma exposição. – Sim, sempre há!
Subí ao 2º. andar e me deparei com uma exposição de desenhos que causou-me grande alegria. Um dos expositores era justamente o meu professor do Curso no Ateliê da Prefeitura de Porto Alegre.
Fiquei olhando e admirando trabalhos variados, curtindo traços, cores e texturas por um longo tempo. Enchi os meus olhos.

Desci a escada e, sem que eu percebesse, dobrei à direita e enveredei para o Café do local. Lá sentei, abri a Zero Hora do dia, tomei o meu “expresso” e, quando vi, já estava na hora do início da Oficina.
Corri e conseguí chegar com pouco atraso, mas com o coração cheio. Mudei a rotina, desvendei um novo caminho, saí do trivial … e tudo foi tão bom! A partir daquele dia tenho buscado sair do “lugar comum” e sorver o que existe de bom ao meu redor, a olhos vistos, sem que eu tenha, anteriormente, pensado que era possível.

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Dignidade na lama da sarjeta

segunda-feira, maio 2nd, 2011

Dignidade na lama da sarjeta

Por Leda Saraiva, 07.01.2011

O sol pouco se mostrou neste dia de verão. A tarde já estava de partida sem aquele pôr-do-sol que inunda a alma de alegria como a força que emana de uma obra de arte e que nos faz sonhar com um novo amanhecer. Nuvens cinzentas cobrem o céu, deixando transparecer alguns espaços, como retalhos coloridos de um azul acinzentado que faria de tudo para ser celeste. A cara feia do fim de tarde induz a um recolhimento extremamente silencioso, quase melancólico. Da janela da sala onde trabalho, vejo um pássaro apressado pousar no frágil galho da espirradeira que se balança com  tamanha afobação da ave. Tão logo pousa, abre as asas quase em desespero, infla o peito e com toda a força de que é capaz canta, ou melhor, grita estridentemente como a anunciar uma catástrofe sísmica. Outros pássaros se achegam disputando espaço na espirradeira que se alteia pela cerca e se debruça sobre o jardim na frente da casa. A amendoeira que há dois invernos rigorosos quase feneceu, embora tenha perdido seus principais galhos que a tornavam mais alta, recupera-se. O jambolão, na calçada, impõe-se com sua copa harmoniosamente redonda, quase alcançando a rede elétrica pública. Estas árvores, ao entardecer, são uma festa para os pássaros. São pousadas de infinitas estrelas.

É fevereiro na praia. Mês nobre de veraneio. Mas, na minha rua, não passa uma viva alma. Os cães, prenunciando alguma coisa, silenciam seus latidos e buscam algum refúgio. Nas varandas das casas a ausência de pessoas torna a rua mais triste ainda. O silêncio é tão profundo, revestido de cinza, que chega a incomodar. Sabe, quando esse tipo de situação nos inquieta e ficamos como os cães, de um lado para outro… Parece que está prestes a se desencadear algum fenômeno… E ficamos impedidos de fazer qualquer coisa, embora o que fazer não nos falte? Dou uma volta pela casa e volto novamente para escrivaninha, diante da janela. Entre a leitura de uma página e outra,  levanto os olhos para contemplar o que se passa lá fora.

Uma voz me chama:

-Senhora!  Senhora!

Levanto-me. Olho para o portão. Uma senhora, veranista.

-Pois não?

-Senhora, há um homem caído ali na sarjeta… Não estou com meu telefone. A senhora poderia chamar alguém para socorrê-lo?

-Vamos ver o que há com ele. Será que teve algum mal-estar ou…

Ela me acompanhou. Chegamos bem perto do acidentado. Bicicleta para um lado homem para outro, estatelado na sarjeta lamacenta. Quem seria?  Como seria sua família? Tinha mulher e filhos? Onde morava? Aparentava meia idade, estatura média. Era claro, talvez descendente de italiano ou alemão. Suas roupas não tinham cor ou tinham se revestido com a cor do entardecer sombrio. Via-se que era uma pessoa simples. Barba por fazer… Não se mexia. Logo pensei que estivesse morto. Por várias vezes o chamamos: “O que houve com o senhor?!” Parecia morto ou desmaiado. Depois de algum tempo em que o observávamos, abriu os olhos. Olhou-nos sem nos ver. Nada respondia. Entrei em casa, pequei o celular e do jardim  disquei para o “190”. Expliquei a situação. A resposta foi pronta: “Não temos viaturas, senhora. Estão todas nas ruas prestando atendimento aos chamados: gente esfaqueada, brigas, acidentados, afogados, agressões familiares… Drogas…”

-Então o que faço com esse homem caído na sarjeta?

-Telefone para o SAMU. Disque para o número tal.

Sem deixar de olhar para o homem, tentava ligar para o SAMU. Falava em voz alta pelo nervosismo e inquietude que a situação me causava. Enquanto estou telefonando, chegam aos meus ouvidos os gritos do homem:

-Fala!…  Fala!…  Fala!… Fala!…

“Ainda bem que não está morto”- pensei.

A recepcionista do SAMU ouviu minha história e me passou para a pessoa responsável por tal tipo de atendimento. Expliquei mais uma vez o ocorrido. A resposta foi direta:

- Não podemos fazer nada, senhora, porque não se configura um acidente. A senhora telefone para a Brigada Militar, “190”.

-Já telefonei. Não há viatura disponível. Sugeriram que ligasse para vocês. O homem está caído na rua, próximo á sarjeta. Há o perigo de ser atropelado a qualquer momento. Só depois de ser atropelado é que devo chamar o SAMU?

-Infelizmente, nada podemos fazer.

E eu? O que faço?

A senhora que me chamou para prestar socorro àquele pobre homem, permaneceu ao meu lado o tempo todo. A informação que se tem, quando nos deparamos com alguém acidentado “é não removê-lo para evitar algum agravamento da situação”. Continuamos a observá-lo de longe. Conseguira sentar-se. Só então percebemos que estava com sinais evidentes de embriaguês. Fiquei mais tranquila porque até parece que bêbados são protegidos por anjos…

Na rua, somente a senhora veranista que passava, eu, o bêbado e o silêncio triste daquele entardecer. A situação fugia de nosso controle. Um pouco afastadas, enquanto pensávamos que providências deveríamos tomar, o homem fez um grande esforço e conseguiu levantar-se. Ergueu a bicicleta. Desequilibrou-se  e caiu de cara no lodo da sarjeta com  bicicleta e tudo. Ali ficou por mais um tempo, caído, com sua dignidade enlameada na sarjeta. Fez mais uma tentativa. Levantou-se com dificuldade. Ergueu a bicicleta. Apoiado nesta, como se fosse um andador e bem devagarinho, foi andando rua a fora…

Os passarinhos calaram-se acomodados nas árvores.

Não consegui nem perguntar o nome da senhora que permaneceu comigo naquela situação. Quando me dei conta, já não estava mais ali.

E o silêncio cinzento encobriu a rua.

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Janaína

terça-feira, janeiro 18th, 2011

Janaína

Por Evanise Gonçalves Bossle

Janaína recuperou a voz, a fala, depois de um longo tempo. Sabíamos que ficaria melhor, com o tempo, o tempo cura tudo, o tempo tudo resolve. Então é uma garota novamente feliz. Feliz!… Janaína não será feliz, terá dias felizes, mas realmente feliz, é certo que Janaína não será…

Estávamos com pressa, também, a chuva piorava, precisávamos seguir viagem, tio Marcos tinha pressa e, mais do que pressa, receio de que a chuva interrompesse a nossa passagem pela ponte. Virgílio era mais otimista, otimista a ponto de querer ficar para o jantar, já estava tomando o habitual aperitivo que Seu Rafael oferecia. Por mim, tanto fazia ir ou ficar. Não sabia a gravidade da chuva, era uma criança, uma criança não, uma pré-adolescente inconsequente e, na verdade queria ficar mais, mais tempo perto dele. Mesmo calada, gostava de Augusto, de 14 anos, precisava ficar mais. Eu era muito tímida, falava pouco, quase nada, principalmente com os meninos. Janaína irritava-me, queria atenção, queria brincar com aquele ursinho e comigo. Eu, uma mocinha, eu que não podia, em hipótese alguma brincar na presença de Augusto, o jovem moreno que estava na frente da TV , na modesta sala, de duas poltronas velhas e a mesa de fórmica lascada.

Minha mãe preocupava-se… sempre se preocupava, raro era estar tranqüila, mas naquela noite, ela estava muito inquieta e já nem ouvia o que Dona Marta, mãe de Janaína e Augusto, dizia.Dona Marta tagarelava incansavelmente. Eu nem prestava atenção, ouvia simplesmente aquele som de conversa, ou melhor, de uma mulher falando sozinha, já que não era uma conversa, era um monólogo, minha mãe apenas assentia com a cabeça, pensando na chuva.

Era chegado o momento da partida. Tio Marcos, depois de rápida despedida, entrou no caminhão, apressado. Nós o seguimos mecanicamente, correndo naquela chuva medonha. Lembro que me despedi de Janaína, contrariada, de sua mãe e abanei a mão para Augusto, que nem retribuiu, fascinado pelo filme da TV, um repetitivo filme de artes marciais de nome complicado.

Depois de uma hora de viagem, tivemos que parar num posto de gasolina devido à força da chuva; as ruas inundavam rapidamente, os buracos de escoamento não davam conta de tanta água. Ficamos no posto por aproximadamente meia hora e iniciamos a jornada. Depois não lembro de quase nada, pois dormi encostada em minha mãe, de mau jeito na pequena boléia. Em meio ao sono, tive sonhos confusos, ouvi muito a voz do tio Marcos, parecia apavorado, eu não sabia o que ele dizia, mas era sobre a chuva, por certo.

Quando acordei, já havíamos chegado. Minha mãe me acordou. Ela estava terrivelmente transtornada, quase chorava, disse-me que era devido às condições da estrada e agradecia a Deus por estarmos todos salvos. Ouvi, depois uma conversa confusa entre os adultos, Virgílio dizia nunca ter visto tamanha desgraça: objetos levados com a correnteza, casas despencando nas encostas dos morros, pessoas correndo de um lado para o outro. E era apenas o começo…

Janaína está bem, come com vontade, já brinca normalmente, e o melhor de tudo, voltou a falar. Quando chegara lá em casa, quatro dias depois de eu tê-la visto em sua casa, agora inexistente, estava irreconhecível, pálida, magra, doente, muda. Eu não falei com ela naquela tarde, fui para casa da tia Sônia, sabia que se ficasse ali, perto dela, lembraria de Augusto e choraria muito, afinal, era inacreditável, tamanha tragédia. Janaína ficara só, sem os pais e sem o belo irmão. Janaína, aquela menininha de cinco anos ficara sem casa, sem nada, e era tão pequena para entender, tão criança para saber realmente o que havia acontecido, mas ela sabia. Era um milagre, diziam, a menina estar salva, as coisas foram levadas com a correnteza. O morro trouxera as casas consigo, todas sobre a de Janaína. Não tiveram tempo nem para entender o que estava acontecendo. Não sei se Augusto viu o final do filme, se pensou em alguma coisa, se sofreu. Também não sei como Janaína se salvou. Falaram pouco sobre isso na casa de tia Sônia, quase nada, sempre quando falavam e eu chegava perto, calavam. Não entendi muito bem. Tudo para mim parecia tão estranho, irreal. Parecia que ao dormir no caminhão eu me negava o direito de acordar daquele pesadelo. Era como se ainda estivesse dormindo, tudo era tão opaco, sem cor, misturado. Acho que o que fez Janaína emudecer, também fez com que me tornasse incapaz de compreender, embora soubesse, não queria saber, embora chorasse, eu não queria sofrer, embora eu acreditasse, não queria acreditar naquela tragédia…

Janaína está bem… Crescemos, mas algo falta em nós. Nunca falamos sobre isso, mas sabemos que perdemos pessoas que realmente amávamos.

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