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AELN lança Antologia V

 

Antologia V

AELN lança no próximo dia 14 de novembro, às 15 horas, no Museu de Comunicação Hipólito José da Costa mais uma obra, a Antologia V de contos, poemas e crônicas.

A obra de 164 páginas contou com 22 autores, sendo o prefácio do colega José Carlos Laitano, da Academia Rio-Grandense de Letras.

Os autores: Artur Pereira dos Santos, Cacá Melo, Carmem Regina de Oliveira, Célia Jurema Aito Victorino, Cláudia Duarte, Elza Eliana Lisbôa Montano, Evanise Gonçalves Bossle, Fábian Mariotti, Felipe Daer, Heloisa Mascolo, Janaine da Silva Ferrão,  Leda Saraiva Soares, Luiz Alberto de Souza Pedroso, Maria de Lourdes Borges Werlang, Mário Feijó, Mariza Simon dos Santos, Nelson Adams Filho, Rodrigo da Silva Rocha, Rodrigo Trespach, Silvania Anderson, Suely Eva dos Navegantes Braga, Ulda Melo.

Lançamento Antologia V
Dia: 14.11.2015
Horário: 15h
Local: Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, na Rua dos Andradas, 959 – Centro Histórico, em Porto Alegre.

abr 15, 2015 - Contos    No Comments

Conto Feliz Ano Novo!

Por Leda Saraiva

Era dia trinta e um de dezembro.

Grandes preparativos após um dia de intenso trabalho. Reunião na casa de um dos filhos com alguns comes e bebes, rapidamente, preparados para depois assistirem à queima de fogos na praia de Tramandaí.No ar uma euforia. O entusiasmo da família reunida saia pelas janelas.A noite estava perfeita.Era uma sensação de iminente liberdade a deixar para trás contrariedades que ficariam para sempre com o Ano Velho que agonizava. Cadeiras de praia, caixas de isopor à espera de um “vamos lá, minha gente!”. Teriam que se apressar para conseguirem um bom lugar na praia.

-Vamos! Depressa! – dizia Antônia. As crianças não vão.As crianças ficam. É muita gente na praia.

Por decreto, ficou decidido que naquela passagem de ano, os netos ficariam conosco. É evidente que não desejavam nos acompanhar. Mostraram resistência.Mas estava decidido. A contrariedade estampava-se em seus rostos. Eu fiz de conta que nada percebera.Pensei: “O que posso fazer com essas crianças contrariadas? E agora? Como proporcionar-lhes momentos interessantes?

Entraram no carro a contragosto.

– Vó, onde é que nós vamos? – pergunta Carlinhos um tanto indiferente, atirado displicentemente no banco do automóvel.

-Ah! Hoje nós vamos visitar Netuno na praia de Imbé.

-Quem é Netuno, é algum amigo de vocês que não conhecemos, vó? – pergunta Maristela meio sem graça.

-Netuno é o deus dos mares. Ele tem um palácio poderoso no fundo do mar Egeu…

-Vó, onde fica o mar Egeu?- curiosa manifesta-se Suzete.

-O mar Egeu fica na Grécia. Netuno é um Deus grego. Mas como eu estava dizendo, ele mora num palácio no fundo do mar Egeu e percorre os oceanos numa carruagem belíssima, puxada por cavalos com cabeças e crinas de ouro. É acompanhado por uma comitiva de milhares de nereidas, hipocampos, delfins e outros bichos mais. Quando ele passa, o mar se abre. As ondas serenam.

-Vó, que é nereida e essas coisas que tu falaste? – perguntou Maristela.

-Nereida é uma ninfa, uma divindade, uma moça belíssima, parece uma fada; Hipocampo é cavalo marinho. Já viste um cavalo marinho?

-Vi. Lá no CECLIMAR, num aquário. –  respondeu.

-Pois então. Delfins são golfinhos, botos. Vocês já viram os botos na barra do rio Tramandaí?

-Ah! Agora entendi. E daí, vó? Conta, conta… – manifesta-se Maristela.

– Netuno tem uma barba muito longa. Mais longa que a barba do Papai Noel. Na mão direita, costuma empunhar um tridente.

-Que é tridente, vó? – pergunta Daniela, a menor.  E Maristela responde:

-Ô, guria. Tu não sabes o que é tridente? É uma coisa parecida com um garfo enorme. Tem três dentes. Uma vara com três espetos na ponta. Nunca viu o tridente do diabo?

-Tá…tá… tá… Já entendi.

– Bem. Tridente é uma espécie de cetro mitológico de Netuno. Vocês já viram nas histórias que leram. Todo rei tem um cetro. O cetro representa poder. O tridente de Netuno, conforme a mitologia,tem o poder de abalar a terra e o oceano, produzindo terremotos e maremotos, mas também pode fazer a água brotar das rochas e do solo. Traz as grandes secas e as grandes inundações.

– Puxa vida! Então é poderoso esse tal de Netuno! E anda solto pelo mundo. – diz Carlinhos, o mais velho.

-Vó, quem eram os pais de Netuno? – pergunta Suzete.

-Netuno é o filho mais velho da deusa Ops (deusa da fertilidade) e de Saturno (deus do tempo e da agricultura). De acordo com a mitologia, Netuno cavalga nas ondas do mar em cima de cavalos brancos.

-Chegamos, minha gente!  Vamos estacionar o carro e descer.

-Ai vó, eu tô com medo do velho Netuno -fala Daniela

-Desçam! Rápido! Daqui a pouco é meia noite e nós ainda estamos aqui dentro do carro. Deem as mãos. Está meio escuro. Procurem não se perder.

Os quiosques estavam literalmente tomados de gente. O vento resolvera recolher-se naquela noite em que o Ano Velho daria lugar ao Ano Novo.

 Seria uma boa ação de Netuno?

À medida que nos aproximávamos da praia de Imbé, o movimento aumentava. Era gente que chegava com cadeiras de praia, caixas de isopor carregadas de bebidas, crianças ao colo, crianças levadas pela mão, crianças em carrinhos de bebês.

A lua estava discreta. Algumas nuvens no céu a encobriam para que não tirasse o brilho dos fogos. Na barra, mar e rio entendiam-se: o mar entrava no rio, e este procurava chegar ao mar sem atrapalhá-lo. Era uma troca de gentilezas.

As crianças nunca haviam estado na praia à noite. Para elas era uma novidade.

-Vô, que horas são? – pergunta Carlinhos.

-Faltam cinco minutos para a meia noite.

Sem perder as crianças de vista, aproximamo-nos do mar.Alguns foguetes espocavam aqui e acolá.

Carlinhos, o mais atrevido, demonstrando coragem, entrou no mar e deu não sei quantos pulos nas ondas que chegavam a seus pés. Disse que dava sorte.

É Chegada a hora tão especial. Os ponteiros estão um sobre o outro. Diz o avô

-É meia noite! – Gritam as crianças.

De repente, se desencadeia uma sequência de fogos. O céu enche-se de ruídos e de luzes, proporcionando-nos um espetáculo visual magnífico.Nessa hora, entre gritos, músicas e espocar de foguetes, abraçamo-nos. Então, olhamos para o mar.Fixamos nosso olhar no horizonte, onde céu e mar parecem encontrar-se. Nesse momento, um daqueles fogos de artifício eclode na direção onde o sol costuma nascer. Abraçados,  com a água batendo em nossos pés, vivenciamos um momento de sonho, diante das mais belas formas e cores dos fogos de artifício. Pura magia no meio da noite.Uma voz que parece vir da profundeza das águas, mistura-se aos ruídos:

-Vô, vó, guris, olhem! Lá está o Netuno! Estão vendo?

E foram tantos abraços, tantos beijos meio a felicitações:

Feliz ano Novo! … Feliz Ano Novo!…

abr 15, 2015 - Contos    No Comments

Conto Uma tarde de domingo

Por Leda Saraiva*

Diversas pedras circulares, medindo uns oitenta centímetros de diâmetro, incrustadas ao nível do gramado,distribuíam-se ao redor da Caixa d’água de Imbé. Era ali que brincávamos de “Tem Casa pra Alugar?”

Cada criança se colocava sobre uma pedra. No imaginário infantil, cada pedra se transformava em casa. Um dos participantes da brincadeira ficava de fora e percorria o grupo perguntando:

-Tem casa pra alugar?

As outras crianças respondiam, quando perguntadas:

– Não. Passe outro dia.

Na distração daquele que procurava casa para alugar, alguns trocavam rapidamente de lugar,uns com os outros. Era nessa hora de certa confusão que os mais lentos se perdiam e o que perguntava, ocupava o lugar do distraído. O que perdeu o seu lugar passava a perguntar: “Tem casa pra alugar?” E a brincadeira se estendia pela tarde de primavera. Assim, nos divertíamos por algum tempoem volta da Caixa d’água de Imbé.

Esse reservatório de água localizava-se defronte a Igreja Nossa Senhora de Fátima, sobre o canteiro da Avenida Porto Alegre. Hoje, restam os alicerces que testemunham, num silêncio secreto, nossas brincadeiras e visitas àquele lugar.

Meu avô era nosso companheiro. Um avô alegre brincalhão. Andávamos sempre à sua volta. Morávamos em Tramandaí. Aos domingos, costumava passear conosco.  Muitas vezes,atravessamos a velha ponte de madeira para chegar a Imbé. Nessa época, Imbé era um bairro nobre de Tramandaí, predominantemente, habitado por veranistas. No inverno, era só nosso.Era o nosso parque de diversão. Virava um paraíso a ser explorado por nós, crianças curiosas a buscar novidades em suas ruas, verdadeiros labirintos.

 Procurávamos ninhos de quero-quero. Dizem que o quero-quero canta de um lado e o ninho está em outro. Naquela tarde,meio à grama, achamos um ovo partido com um passarinho ainda em formação, agonizando, com aqueles olhos enormes, envoltos numa película leitosa. Naquele instante, aquele frágil corpo parou de se mexer.Foi a nossa primeira experiência com a morte dentro de um ovo. Ficamos observando aquele projeto de pássaro, implume ainda, e sem vida. Por alguns segundos,permanecemos calados diante do mistério da ausência de vida.

Que belo pássaro é o quero-quero! Imponente por sua postura e altivez. É destemido. Está sempre alerta como uma sentinela. O quero-quero é a “Sentinela dos Pampas”, um dos símbolos do Rio Grande do Sul. A beleza de suas penas encanta.Parece uma pintura. Mas Cuidado! É defensor de seu território. Se alguém se aproxima de seu ninho ou de seus filhotes, ataca o invasor com rasantes assustadores, podendo ferir o intruso com os esporões que traz em suas asas.

Depois de admirar um quero-quero que se aproximou de nós, voltamos a observar aquele minúsculo passarinho que não vingou. Um esboço de ave, sem vida, que poderia transformar-se numa espécie belíssima. Só então, nos demos conta de que nosso avô já se distanciara de nós, caminhando com as mãos às costas – era esse o seu jeito de caminhar. Devolvemos o bichinho à grama e corremos em sua direção,apostando corrida para ver quem chegava primeiro.

O meu irmão mais velho era nosso líder.Chamava nossa atenção para o que encontrava de curioso. Corria muito. Distanciara-se de nós. Parou na frente de duas casas geminadas,inteiramente de pedras.Chamou-nos gritando:

– Venham aqui. Ligeiro! Venham ver estas duas casas.

Paramos para observá-las. E ele falou:

-Estas duas casas parecem tão frias… Geladas… Ui…Misteriosas… Mal-assombradas…Parece que estão cheias de fantasmas. Vocês estão ouvindo ruídos estranhos que vêm de dentro delas?

Paralisados de medo, olhos arregalados, ouvidos aguçados.Já estávamos ouvindo os barulhos dos fantasmas a conversarem dentro da casa.Até parecia que objetos voavam e explodiam nas paredes, quando, surpreendentemente, nosso irmão deu um grito fantasmagórico:

 UUUUUUUUUUUUUUUUUUU!…Buáááááááá´!…

Quase desmaiamos. A cor fugiu de nossos rostos. Ficamos algum tempo paralisados, presos ao solo. Com o coração aos pulos, horrorizados, saíamos em disparada, sem olhar para trás. Sabe-se lá… E se algum fantasma resolvesse nos perseguir?…Corremos muito até alcançar o nosso avô que já havia ultrapassado o imponente prédio do Hotel – Cassino Picoral.

 O vento começara a soprar e corria rápido pelas antigas ruas curvas do centro antigo de Imbé que sempre nos enganavam. Apontavam para um lado e nos levavam para outro.

À nossa direita, estava o rio. Silencioso, livro fechado, coberto de limo e de lama,envolto em mistérios, guardando histórias de vidas e lendas que passavam de geração em geração no antigo povoado:A lenda do Minhocão da Lagoa do Armazém; A lenda do Siri, do Linguado e da Savelha. Lembram-se do siri que atravessou o rio,com Nossa Senhora em suas costas?  A lenda da abertura da Barra. Os causos de lobisomem, de bruxas e assombrações… Esse rio é um guardião da história. Guarda a vida dos primeiros pescadores, senhores das águas e dos ventos, sábios conhecedores da natureza. Homens de fé que, no dia a dia, tiravam de suas generosas águas o sustento de suas famílias.

Em determinadas noites, a lua resolvia recolher-se para descansar atrás das grossas nuvens. A escuridão,revestida de vento, envolvia os ranchos dos pescadores, iluminados pela fraca luz das pixiricas e candeeiros. A lenha verde chorava no rústico fogão que cozinhava, sem pressa, o ensopado de peixe e o pirão de farinha de mandioca. O cheiro do fervido espalhava-se pelo rancho, saindo pelas frestas, misturando-se ao vento.

O tempo e o vento corriam de mãos dadas na praia de Imbé a brincar nas águas do rio e a se embalar nas ondas do mar.

A vida era difícil para aquelas famílias sem recurso algum. Gente que seu nia na alegria, na dor, na doença, sempre solidários. Sua história ficará para sempre guardada nas águas do rio silencioso, outrora tão pleno de vida. Atualmente, um tanto ignorado pela população, a esperar que um dia lhe devolvam a vitalidade.

Hoje, quando atravesso a ponte Giuseppe Garibaldi, não me canso de admirar o rio Tramandaí e vejo cristalizada em suas águas, como a acenar para mim, toda a história que não se mostra para aqueles que a desconhecem.

-Crianças! Venham!- grita meu avô -Chegou o grande momento de atravessarmos a ponte pênsil. Agora eu quero ver quem é valente…

* Conto enviado para o I Concurso de Contos de Imbé, em 23/10/2014.
Classificado em 5ºlugar.

dez 7, 2014 - Contos    No Comments

O frio

Por Artur Pereira dos Santos

Aqui entre nós! Achas que estás muito perto de mim? E eu te digo que estás apenas encostada em mim. É grande a distância entre nós, quase setenta anos.

Em todo esse tempo passaram-se tantas coisas que desconheces. Por exemplo: Brincaste com boizinhos de sabugo? Não né?. Sabias que no meu tempo não se encontrava para comprar essas bonecas lindas com que brincas hoje? Bem, eu nem brincaria com elas, é coisa de menina.

Eu já era bem grande e tive que fazer meus próprios brinquedos: Tive que construir carrinhos de madeira para brincar na lama quando chovia.

Ah, e quando não chovia eu jogava bola. Qualquer bola: de meia, de trapos enroladas em fios que retirava do rolo que a vovó usava para fazer mantas tecidas em um antigo tear de madeira.

O tear era tão rústico e antigo que parecia pintado de suor misturado ao sangue de suas mãos calejadas.

Mas sabe de uma coisa? A vovó também me dizia que eu estava distante dela no conhecimento da vida. Eu achava que não, até ajudava ela a desenrolar os fios de fazer mantas.

Hoje eu entendo o que ela queria dizer. Tu também entenderás um dia, pois essa distância que te falo é apenas o recheio dos sonhos de quem durante a existência quer brincar com todos os brinquedos que a vida vai construindo e com todas as crianças que, através de gerações, vão ajudando a desenrolar os fios com que tecemos as mantas que aquecem nossos corações. Vamos entrar. Tá tão frio aqui.

Concurso Cultural Moacyr Scliar – Contos

O Santander Cultural, em parceria com as Secretarias Estaduais da Cultura e Educação lançou na última sexta-feira, dia 26 de setembro, o Concurso Cultural Moacyr Scliar – Contos Revisitados para alunos do ensino médio da rede pública estadual vinculados à 1ª (Porto Alegre), 2ª (São Leopoldo), 27ª (Canoas) e 28ª (Gravataí) Coordenadorias Regionais de Ensino (CRE). O projeto integra as atividades relacionadas à mostra Moacyr Scliar – o Centauro do Bom Fim, em cartaz no Santander Cultural até 16 de novembro, com entrada franca.

O concurso propõe que os alunos desenvolvam redações que tenham como tema norteador do texto o primeiro parágrafo de um dos contos publicados por Moacyr Scliar. O tema deve estar articulado com as atividades desenvolvidas em sala de aula, conforme o nível de ensino de cada participante. Cada texto inscrito deve ser impresso em folha tamanho A4 e conter até quatro laudas, em fonte Arial tamanho 11 e espaçamento 1,5 linhas.

Com apoio da Câmara Brasileira do Livro, as inscrições são gratuitas e ocorrem de 26 de setembro a 31 de outubro. A premiação será no dia 4 de dezembro. O concurso premiará o melhor texto com notebooks para a escola e o professor e tablet para o aluno. Os segundo e terceiro lugares também ganharão tablets.

Clique aqui e confira o regulamento do concurso

Fonte: Asscom Sedac
set 26, 2014 - Contos    No Comments

O vício

Por Artur Pereira dos Santos

    Já não estudava mais: o ciclo de estudos acabara após o quinto ano e ele sentia saudades dos livros que retirava na biblioteca da escola. Eram fábulas de Esopo, La Fontaine, contos de Andersen e tantos outros que hoje nem lembra.
    Nunca reclamou do pai por não tê-lo enviado à cidade vizinha para continuar estudando, mas não esquecia o fato de ouvi-lo dizer à mãe que se pudesse manter um dos filhos na escola escolheria sua irmã. Ele era homem e poderia trabalhar em qualquer coisa, ao contrário da irmã, que tinha apenas a possibilidade de se tornar professora e encontrar um bom marido.
    – Apaga essa luz guri! Agora esse vício de ficar lendo até tarde. Ainda tem outros pirralhos que vêm lá do centro trocar essas revistas contigo.
     – Não são revistas, são gibis: eles contam histórias de heróis que lutam contra o mal e sempre saem vencendo.
    – Aí que mora o perigo, retrucava o pai, sem atentar que na cabeça do filho muito além da importância dos cavalos roubados, do resultado do tiroteio nas planícies ou da frustração nas emboscadas armadas pelos bandidos ele conservava o hábito da leitura, numa época em que comprar livros ou mesmo revistas estava longe de seu alcance.
    Às vezes o Salmi, seu velho amigo de folguedos, deixava alguns gibis para que ele trocasse com outros meninos da vila e assim ampliavam a possibilidade de leitura. Roi Rogers, Durango Kid, Zorro, Cavaleiro Negro e outros, são rostos inesquecíveis, muitos deles aliados às suas montarias: Quem daquela época, que gostasse de ler gibis, não se lembra do Silver empinando no alto da colina no final de cada história.
    Com o tempo, o gosto foi mudando e Ellery Queen era o máximo, não havia caso insolúvel para o astucioso detetive. Depois vieram os livros de bolso escritos em língua espanhola, onde os mocinhos rolavam no chão, de um lado para outro e conseguiam desviar-se das seis balas do Smith & Wesson do bandido.
    Por fim os livros: Livros de verdade, enfileirados em sua memória sequiosa de letras e sonhos, engolidos noite a dentro, como ainda fazem suas filhas, que não descuidam de repassar o vício aos netos, estes já com leitura dirigida para os livros infantis e juvenis, conforme o caso.
     Hoje todos os cantos da casa respiram livros. Sabe que jamais se livrará do bendito vício, que causa dependência como todos os outros, com a diferença que educa e afasta das ruas.

mar 25, 2014 - Contos    No Comments

Escrito para as Estrelas

Por Maria de Lourdes Werlang        

Letícia pinta com uma agulha, belas flores num  pedaço de tecido que será uma toalha de mesa. Enquanto ela solta sua criatividade nesse contexto de bordados, sua imaginação alça  voo  ao planeta dos sonhos. Lá se entrega  à  leveza das nuvens e com elas encontra um mundo de prazer, onde a felicidade tem as cores alegres do amanhecer.
        Letícia,  como toda jovem,  almeja encontrar seu príncipe encantado. Aos dezoito anos, conhece um  jovem belo e educado que cativa  seu coração. Durante vários meses, o namoro  acontecia como um conto de fadas. Tudo lindo!
        Num determinado momento, o destino cruel,  separa os dois.
        Passados alguns anos, Letícia encontra alguém que lhe oferece guarida  e muito amor. Ela carente e desprovida do convívio familiar, aceita  esse afeto e se une em casamento.
        Essa  mulher  que dominava a agulha e com ela criava desenhos coloridos sobre o tecido, não conseguia colorir o tecido da sua história. Ela provou o amargo da vida, mesmo recebendo de Deus, o tesouro dos filhos. Sempre atenta para manter um lar em harmonia, apesar dos desamores constantes. Seu coração desprovido de ódio e rancor  sempre encontrava o oásis do perdão para fortalecer seu amor à vida.
        Os anos se passaram, Letícia  e seu companheiro buscaram  um lugar silencioso para morarem, pois seus filhos já estavam adultos e seguiam seus caminhos.
        Amanheceu um lindo dia! Os acordes da natureza se mesclava entre o canto dos pássaros e o ruído das águas da cascata descendo  pelas  pedras.
        Ela acorda cedo, prepara  um  saboroso café para os dois, pois hoje era um dia muito especial, era o dia de  aniversário de casamento. Aguarda seu marido, na expectativa de um abraço carinhoso.  Roni levanta, vai até à cozinha, sem nada falar.
        – Mulher, onde está meu chapéu?
        – Ali no cabide, amor.
        – Vou fazer uma caminhada.
        Letícia desapontada, fala:
        – Eu posso ir contigo?
        – Não  Letícia, tu estás muito gorda, além de feia, ainda caminha devagar.
        Palavras podem  ter o  poder  de balas mortíferas, quando mal usadas. Os sentimentos daquela  mulher foram atingidos pelo  efeito letal  do que ouviu. O silêncio foi sua resposta. Apenas duas lágrimas insistentes  rolam  pela sua face sofrida.
        Depois da saída de Roni, ela pega seu chapéu e sai a caminhar por uma trilha da mata. Essa sim, ouve seus lamentos,  oferece sua sombra para seu corpo descansar, consola sua dor com o canto dos pássaros e ainda lhe proporciona o aconchego do silêncio.
        Ao voltar,  já restabelecida, Letícia segue sua rotina de vida. Ela não guarda mágoa, mas seu coração se fechou  aos afetos daquele homem.
        Um ano se passa, exatamente na mesma data, Letícia recebe a  notícia  de que seu companheiro  havia  sido atropelado na estrada quando fazia sua caminhada costumeira e havia morrido antes de chegar ao Hospital.
        A vida continua para essa mulher, porém agora escrevendo um novo capítulo da sua história.
        Vai em busca de fontes  de prazer, viagens, artesanato e serviços de assistência social.
Numa dessas viagens,  ela percebe  que um senhor  a observa muito. Fica um pouco tímida e se retrai. O homem chega até ela e pergunta:
        – Como é teu nome?
         Sou Letícia de Lima e você quem é?
        – Sou Alberto da Costa. Lembras de mim?
        – Oh! SENHOR! Como não lembrar?
        Ambos ficaram num estado de transfiguração. Falar para quê?!…
        Alberto  teria sido seu primeiro namorado e ela sua primeira namorada.
        Daquele dia em diante, completaram juntos e radiantes aquela viagem. Ambos estavam viúvos e o caminho aberto para os dois.
        Agora  aquela mulher sentia a força do amor, oriunda  do coração de um homem e à isso ela correspondia  com  toda sua sensibilidade.
        Durante o período de namoro, constroem  sonhos. Planejam a execução de uma Horta Comunitária para beneficiar o bairro e unir pessoas num mesmo objetivo.
        Alberto, sempre muito romântico, diz e repete:
        – Nosso amor estava escrito nas estrelas, por isso , essa nova chance em nossas vidas.
        Para homenagear essa  frase  do amado, ela está a bordar estrelas numa colcha que será usada na cama  do casal.
        Os dias passam e a data do enlace religioso se aproxima.
        Um cunhado de Alberto, irmão de sua  esposa falecida,   é  sócio dele numa fábrica de esquadrias. Ao se desentenderem,  Roque numa crise de fúria, puxa um facão que carrega  na cintura e grita, espumando de ódio:
        – Escolhe cara, ou tu ou ela vão morrer. Não vou deixar tu dividir o fruto do nosso trabalho com aquela megera…
        _ Calma Roque. O que é isso?! Respondeu assustado Alberto.
        _ Tou falando sério. Escolhe, se quer poupar tua vida, vou até a casa da megera e acabo com a vida dela, mas antes te deixo amarrado aqui.
        Alberto desprovido de qualquer forma de defesa, apenas sussurrou:
        -A Letícia não vais matar, não. Se queres me mata, covarde!
        – Roque finca o facão no peito de Alberto que cai já quase sem vida.  Ao ver o que tinha feito, Roque sai em disparada, mas é interceptado por um policial que passava por ali e logo foi  prestar conta à Justiça dos homens. Alberto é levado ao Pronto Socorro, mas já  sem vida.
        Na sua casa, Letícia acaba de bordar sua colcha e recebe a visita de sua melhor amiga e confidente.
        – Sarita tu nem imaginas, a felicidade que experimento em companhia do meu amado. As vezes penso que essa alegria  é tão intensa que meu coração nem vai aguentar. Dito isso,  Letícia  sente uma tontura e cai desacordada. Sarita a leva para o Pronto Socorro. Passados alguns minutos, ela sofre uma parada cardíaca e morre.
        Letícia morre num estado de felicidade, sem saber que realmente,  SEU AMOR ESTAVA ESCRITO “PARA” AS ESTRELAS!

jun 4, 2013 - Contos    No Comments

Clara

Por Suely Braga

Clara acordou com o tilintar vibrante do despertador. Espreguiçou-se sonolenta e deu um salto da cama. Tomou um banho rápido. Acordou os meninos.Esquentou a água, colocou-a no nescafé. Sorveu alguns goles,comeu um pedaço de pão dormido com manteiga.Serviu Nescau com leite aos filhos.Tirou as xícaras da mesa,lavou a louça.

Foi ao quarto, olhou-se no espelho, sentiu-se abatida  por uma noite mal dormida, penteou os cabelos já um pouco prateados.Passou baton.

Os ponteiros do relógio correm. Mesmo que acordasse cedo tinha sempre  que correr.

Deu um beijo nos filhos, atravessou a sala em disparada em direção à porta de saída enquanto grita:” meninos, não vão se atrasar, vão depressa para a escola”.

No caminho aspirou ao aroma das flores, sugou a beleza da manhã. Percorreu quase correndo as quadras até o terminal do ônibus e.enfrentou a fila imensa.

Entrou e acomodou-se no acento duro de fibra Ao seu lado estarrachou-se uma mulher gorda comprimindo-a contra a janela. Com os olhos cemicerrados tentou cochilar.

O ronco do motor, o vozerio dos passageiros imprensados no corredor, as freadas bruscas, os buzinaços impediam-na de dormir. O aluguel atrasado, as contas de luz, água, telefone, o pagamento do condomínio fervilhavam na sua cabeça como uma panela de pressão.

O marido desempregado perambulando o dia inteiro pela cidade só ouvia:”não há vagas”.Desesperado entrando em depressão, tornando –se agressivo em casa.

Dá o sinal na campainha. Desce na frente do velho prédio desbotado, as paredes que há longos anos não recebem pintura, vidros quebrados nas janelas assoalho encharcado nos dias de chuva.

As crianças esperavam-na. Correm ao seu encontro, abraçam-na entusiasmados. Entra na sala e começa a aula. São trinta e cinco alunos que falam, interrogam, esperam. Atentos, ou, distraídos, aguardam suas respostas e explicações.

A sineta soa. As crianças se dispersam. O beijo da saída e o “até manhã, professora”.

Vai até a cozinha, come um sanduíche que trouxe na sacola. Tira da geladeira o suco que a merendeira preparou.Vai com passos apressados até a parada na frente da escola.

O tempo mudou, a temperatura baixou. O vento fresco começa a soprar. Olha para as gordas nuvens que cobrem quase todo o ceu.

Põe a sacola no ombro. A sacola cheia de livros e mais os produtos do Avon. Embarca no ônibus lotado. Espremida entre os passageiros, sacolejando vai até o fim da linha.

A chuva começa a cair, é uma chuva fina. Caminha na  calçada repleta de pessoas que caminham apressadas,voltando para casa. Chega ao apartamento 305 para entregar os produtos.

Passa na padaria para comprar leite e pão. Entra na fruteira para levar verduras.

Chega em casa.O marido lê o jornal na frente da televisão. As crianças lêem. Tira os sapatos, atira-se na cama sem coragem para se despir. O corpo moído,tensa,estressada.Seu corpo, sua mente estão pedindo férias.Sair, passear, relaxar, longe de tudo e de todos.

Vai preparar o jantar e o almoço, porque amanhã é outro dia. Vai fazer uma gostosa massa com molho, que todos adoram.

Amanhã continuará a rotina.

 

 

out 2, 2012 - Contos    1 Comment

Misteriosa Lagoa dos Barros

Por Leda Saraiva Soares

A lagoa se encrespa. Um ruído estranho e ritmado de tropel ecoa ao longe. Ninfas com cabelos dourados, soltos ao vento… Vestes prateadas esvoaçantes, resplandecem na escuridão. Galopam em belos corcéis brancos sobre as águas num fantástico balé etéreo.

Bela e elegante moça vestida de branco. Cabelos longos até os pés. Em noites de lua cheia, encanta homens que sonham com tesouros enterrados à margem da misteriosa Lagoa dos Barros. Guardiã de tesouro? Pede ao escavador de sonhos um pente. O vivente que lhe trouxer este objeto, sem contar nada a ninguém, encontrará um boião cheio de moedas de ouro nas proximidades da lagoa. Caso contrário, estará fadado a morrer no dia seguinte.

Navio, feericamente iluminado, de tempos em tempos, aparece na lagoa, encantando notívagos.

Uma cidade iluminada surge no meio das águas em noites escuras.

Noiva, extremamente bela, assassinada por seu pretendente é jogada na lagoa com pedras atadas ao pescoço. Em determinadas noites, vaga nas águas em busca de paz, deslocando-se de um lado para outro, como a patinar sobre pista de gelo.

Redemoinhos, formados pelo vento, rodopiam e encrespam a lagoa, assustando e causando tragédia a quem se aventura em passeio de barco.

Misteriosa Lagoa dos Barros, plena de lendas e de histórias fantásticas!

Ao sul, a prainha da lagoa bem frequentada no verão, local eleito pelos filhos de Floriano a Alzira para passarem o dia.

-Floriano, não vou com traje de banho. Vou levar um casaco porque costuma ventar na lagoa e eu não quero passar frio.

É melhor irmos em trajes de passeio, mesmo porque não pretendemos entrar na água.

O acesso à prainha se dá por uma estrada que passa pelos cata-ventos geradores de energia eólica.

-Alzirinha será que travaram os cata-ventos? Nunca os vi parados dessa maneira. Olha lá, estão estáticos!

-Floriano, parece mentira, mas não sopra a menor brisa.

Calam-se. Ouve-se apenas o ruído dos pneus do carro no asfalto.

-Alzirinha estou com uma fome danada! Esse cheiro de frango assado que vem aí de trás está mexendo com o meu apetite.

-E eu, meu querido, não queria te dizer. Ma não vejo a hora de comer, com toda a boca, um ovo cozido com uma pitada de sal. Veja Floriano, já estamos chegando. Pelo que nos informaram é ali naquela entrada.

Os filhos do casal e netos já estão ali com toldos, gazebos, cadeiras de praia, Jeti Sky e tudo o mais para passarem o dia. Floriano e Alzira encarregaram-se de levar um frango assado, ovos cozidos, pão, frutas e refrigerantes.

Meio dia. Sol a pino.

-Oi, vô!… Oi vó!… Que bom que vocês chegaram!

Cumprimentam-se. As crianças entram e saem da água, refrescando-se.

Floriano, discretamente, examina o ambiente. Uma faixa pequena de areia forma a praia. A lagoa calma, límpida, agradável para um banho. Mas entrar na lagoa e sentir nos pés aquele lodo que parece sabão deteriorado… Ah! Que saudade da praia de mar…

Um adulto com Jet Sky leva na carona uma criança. Depois busca outra. Os menores brincam na parte mais rasa. Pouca gente naquela hora. O sol vai chegando com toda a sua energia. Seus raios escaldantes atravessam o tecido dos toldos. O calor abrasador é insuportável. Alzira e Floriano sentem-se inadequadamente vestidos. Não podiam imaginar que na prainha da lagoa estivesse fazendo aquele calor causticante.Não corre uma brisa. Alzira arrependida de ter ido, abre o isopor com os quitutes para que tudo se consumisse o mais rápido possível. O calor a incomoda. As crianças, com fome, aproximam-se. O piquenique acontece de forma desconfortável. O casal sentado nas cadeiras de praia entreolha-se, comunicando-se por telepatia. “Que programa de índio!”

Para completar, surgem, do nada, minúsculas moscas, quase invisíveis. Não dão trégua, atacando sem parar, tirando o prazer da hora tão sagrada. Floriano e Alzira abanam-se com tampas de embalagens para espantar o calor abrasador e os diminutos insetos. Contêm-se em consideração aos filhos e netos, suportando grande mal-estar. Levantam-se das cadeiras tentando refrescar-se. Procuram com os olhos alguma árvore. Nada. Não suportam mais. Minutos depois, pedem permissão para se retirarem. Os filhos entendem. Pretendem ficar até o entardecer.

Floriano arranca o carro. Liga o ar condicionado.

-Que alívio, meu Deus! Que frescor!…

Alzira, quieta ao lado do marido entrega-se a lendas que envolvem a Lagoa dos Barros. Será que ali onde estávamos há um tesouro enterrado? E porque era dia, a guardiã não pode aparecer? E então, parou o vento, mandou um calor infernal, acompanhado de minúsculas moscas para nos atormentar e correr conosco?

-Que lagoa misteriosa, meu Deus…!

 

jan 2, 2012 - Contos    No Comments

Conversando com uma velha senhora

Conversando com uma velha senhora

Por Mário Feijó, 02/01/2011

Ontem à noite esteve em meu quarto uma velha senhora. Cabelos grisalhos que usava em forma de coque, presos a um camafeu. Usava uma blusa acinzentada, saia longa listrada de preto, mas com fundo também cinza. Por cima de tudo tinha um avental alvíssimo com rendas bordadas contornando-o.

Era uma simpatia aquela criatura que em momento algum pareceu-me ser uma desconhecida. Era intima até. Sabia da minha vida. Era carinhosa comigo, e parecia estar aqui com algum objetivo específico. E era tão real, como é real este momento. Não sei se me disse seu nome, mas entendi ser “The Mor”, o que hoje me faz um pouco mais sentido se ao juntar as palavras ao contrário chego ao nome Morthe.

Pobre senhora. Em momento algum me deixou assustado, nem agora que eu sei o seu objetivo. Não era sua intenção, certamente fazer-me algum mal, só estar comigo, ou acompanhar-me a algum lugar específico. Sei que a pobrezinha se foi sem ter cumprido sua missão. Quem sabe havia algum “vivente” ou algum “morrente” que lhe inspirou maior atenção. Certamente minhas conversas andam meio chatinhas no momento…

Quem sabe qualquer dia ela volte com novos assuntos e eu tenha algo mais interessante pra contar…

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