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out 14, 2016 - Contos   

Encontros ou reencontros

De repente sem notificação alguma encontramos o passado revivendo no presente. Lembranças, alguns nomes esquecidos com fisionomia clara, constrangimentos ao esquecer algo que se passou em uma época tão marcante.

Então vem o reencontro.

Depois daquelas remexidas de cabeça e um passeio pela memória talvez,vêm em nossas mentes quem fomos, o que fazíamos e o que sonhávamos. Tudo o que vivenciamos com pessoas especiais vêm à tela mental como um filme de nossas próprias vidas. Comédia, drama, romantismo, saudosismo…tanto faz.

Se a recordação está viva é porque nada foi colocado na vala do esquecimento.

Nosso reencontro mexe com nossos sentimentos, aflora a saudade daquele tempo ( que não faz muito) revivermos novamente. Encontro de velhos amigos, ausência de outros, mas o que queremos é a aproximação sem pensar em despedidas para compensar o tempo que passou.

O passado guarnece as lembranças e o presente nos trás aqui novamente, isto prova que não houve recaída.

Carmem Regina

out 31, 2015 - Contos   

Ao longo do caminho

Por Artur Pereira dos Santos

Há exatos 40 anos deixei de lado minha última Monark. Hoje, diante das circunstâncias que transformaram em pesadelo o que poderia ser a simples acomodação dos elementos ouo desgaste esperado dos metais me dirigi à casa que vende bicicletas há tanto tempo quanto ao que adquiri aquela que abandonei depois de usá-la nos primeiros anos a serviço do meu último patrão, sem cobrar um centavo pelo desgaste.

Minha intenção era saber o quanto custava uma, poderia ser usada, para que viesse a ocupar o espaço que deixarei vazio quando vender o carro que hoje possuo.

Na verdade não existe a intenção de adquirir ou vender coisa alguma. Foi a forma que encontrei para passar entre o pesadelo e o sonho sem arranhá-los. Embora a vontade fosse destruir o primeiro e abraçar o segundo.

Cumprimentei os amigos que encontrei na loja e segui na caminhada em direção ao ponto que queria evitar: Comprar passagens para voltar ao local que já me acostumei, mas que sei não ser o meu lugar.

Encontrei amigos e desconhecidos. Com eles conversei para esquecer tantas coisas que me passavam pela cabeça. Cumprida à primeira etapa proposta, dirigi-me a casa de minha irmã.

Meu caminhar penoso fazia-me parar para olhar nomes de ruas nas placas das esquinas. Em uma delas fiquei a comparar quem chegara primeiro a cidade: Se Orestes Clemente Serra ou Lídio Antônio Monteiro, embora soubesse de antemão que quem chegou primeiro foi o último.

Lembrei que naqueles locais encontrava perdizes quando voltava da venda de doces da Dona Cristina ou pé de moleques feito por minha mãe, quando a dunas da Zona Nova eram arrastadas por juntas de bois até os locais que precisavam ser aterrados.
A doce recompensa apareceu apenas quando parei à sombra de um a pitangueira e dela provei algumas frutas maduras, enquanto pensava o quanto já representaram em minha história.

Quando viemos ainda crianças para Capão da Canoa eu e uma de minhas irmãs, já falecida, deixamos as carretas com nossos pais seguirem adiante e viemos apanhando pitangas à beira da cerca que seguia paralela aos contornos da Lagoa dos Quadros.
Pensei mesmo inconformado com as circunstâncias atuais: Afinal, ainda existem pitangas ao longo de meu caminho.

jul 2, 2015 - Contos   

A pressão para viver

Por Mário Feijó

Ontem eu lembrei do meu tempo de menino. Quase tão perto eu diria. E queria logo crescer, talvez pelas inúmeras surras que apanhava. Hoje os tapas que educavam são criminosos. Então muitos filhos passaram a cometer crimes porque não mais apanham, nem recebem castigo. Perderam o medo, e até o respeito.

Eu lembrei que tinha menos de sete anos e por ter tirado a calça e mostrado meu pênis excitado para uma menina da vizinhança (que tinha pedido pra ver), na frente do meu irmão, este contou para o meu pai e eu apanhei uma surra daquelas. Porém lembro até hoje que não havia maldade ou malícia no ato. Era puro exibicionismo de criança, de um lado, e curiosidade do outro.

Também lembro que apanhei por ter chamado meu irmão de palhaço. Mas foi uns tapas merecidos, pois eu sabia que palhaço era nome feio, portanto proibido de ser pronunciado.

Depois de quase 60 anos, e algumas “quase” mortes eu aprendi a dizer “merda” e a mandar “à P.Q.P.”. Hoje as meninas, desde pequenas falam “caralho” e “porra” com a maior naturalidade, como se dissessem pipoca ou chocolate. E a gente tem que não se horrorizar, para não ser tachado de careta e retrógrado. Outro dia eu expliquei pras minhas netas de 15 e 16 anos o que as palavras significavam. Nunca mais ouvi elas pronunciarem tais vocábulos.

Quando criança eu gostava de brincar de amarelinha e de queimei, esconde-esconde; bolas de gude e de pular dos degraus da igreja.

Houve uma vez em que cozinhamos um grilo e demos para um vizinho menor comer. Acho que estávamos iniciando na culinária chinesa (no entanto até hoje sinto remorso por isto).

O pai dos meus amiguinhos da vizinhança, Sr. Juca, era dono de uma mercearia e lá vendiam também sorvetes, ficava bem na frente do colégio onde fiz os primeiros anos: “Grupo Escolar José Boiteux”, no Estreito, em Florianópolis-SC. Aquilo era o paraíso, tanto a escola quanto a mercearia do Sr. Juca e da D. Ranildes. Eles tinham duas filhas e dois filhos. A filha mais velha, Neusa, foi o meu primeiro amor infantil, mas acho que até hoje ela nunca soube disto. Algumas vezes passamos a vida inteira sem dizer às pessoas que as amamos. Sim eu a amei. Mas não é o mesmo amor de gente grande. Era um amor grande, de gente pequena, se você me entende.

Somos assim: nunca dizemos “eu te amo” para nossos pais, para nossos irmãos, algumas vezes nem para nossos filhos. Eu nunca ouvi meu pai ou minha mãe dizerem que me amavam. Hoje eu digo para os meus filhos e eles não acreditam. Por que será que nunca acreditam na gente? Por que será que sempre pensam o contrário do que sentimos?

Parece ser mais fácil odiar, e, em ódio todos acreditam. Mas por que não acreditar no amor quando são os bons sentimentos que nos fazem crescer? Quanta coisa na vida mudaria, se disséssemos mais “eu te amo”…

Fui ensinado a ter medo do amor. Até hoje eu digo e me entrego, mas é sempre uma entrega receosa.

E quando a vida segue, aprendemos a ter medo do mundo. Eu aprendi a ficar atento, porém continuo acreditando nas pessoas, mesmo nas que não acreditam mais em mim. Eu sempre fui e sou solidário…

É fácil pensar que temos milhares de amigos quando somos crianças e também adolescentes. Ai quando finalmente começamos a trabalhar, acreditamos que todos no trabalho são nossos amigos, mas no trabalho temos colegas. Podemos até fazer um ou outro amigo, mas trabalho é ambiente de disputa e onde há disputa, as amizades são fugazes. Ambiente competitivo é fértil solo para traquinagens.

Chega uma hora que, quem sobrevive envelhece e quando não temos alguém como companheiro(a) arrumamos um bando de velhos ranzinzas para ter por perto, com medo da solidão. Nesta hora ninguém tem mais paciência uns com os outros e todos resolvem ser honestos… então somos obrigados a ouvir verdades que não queremos, a aturar o mau humor uns dos outros. Tudo em nome de um companheirismo medroso. Medo da vida. Medo da solidão.

Então para não sermos iguais (e somos) tomamos pílulas, para mijar, para cagar, para peidar, para pressão não subir e até para trepar (hoje em dia tem jovem tomando desde cedo, coitados).

Infelizmente é isto o que nos sobra daqueles tempos tão glamourosos e que na época pareciam tão difíceis. Difícil é viver sozinho, sem um amor por perto.

 

abr 15, 2015 - Contos   

Conto Feliz Ano Novo!

Por Leda Saraiva

Era dia trinta e um de dezembro.

Grandes preparativos após um dia de intenso trabalho. Reunião na casa de um dos filhos com alguns comes e bebes, rapidamente, preparados para depois assistirem à queima de fogos na praia de Tramandaí.No ar uma euforia. O entusiasmo da família reunida saia pelas janelas.A noite estava perfeita.Era uma sensação de iminente liberdade a deixar para trás contrariedades que ficariam para sempre com o Ano Velho que agonizava. Cadeiras de praia, caixas de isopor à espera de um “vamos lá, minha gente!”. Teriam que se apressar para conseguirem um bom lugar na praia.

-Vamos! Depressa! – dizia Antônia. As crianças não vão.As crianças ficam. É muita gente na praia.

Por decreto, ficou decidido que naquela passagem de ano, os netos ficariam conosco. É evidente que não desejavam nos acompanhar. Mostraram resistência.Mas estava decidido. A contrariedade estampava-se em seus rostos. Eu fiz de conta que nada percebera.Pensei: “O que posso fazer com essas crianças contrariadas? E agora? Como proporcionar-lhes momentos interessantes?

Entraram no carro a contragosto.

– Vó, onde é que nós vamos? – pergunta Carlinhos um tanto indiferente, atirado displicentemente no banco do automóvel.

-Ah! Hoje nós vamos visitar Netuno na praia de Imbé.

-Quem é Netuno, é algum amigo de vocês que não conhecemos, vó? – pergunta Maristela meio sem graça.

-Netuno é o deus dos mares. Ele tem um palácio poderoso no fundo do mar Egeu…

-Vó, onde fica o mar Egeu?- curiosa manifesta-se Suzete.

-O mar Egeu fica na Grécia. Netuno é um Deus grego. Mas como eu estava dizendo, ele mora num palácio no fundo do mar Egeu e percorre os oceanos numa carruagem belíssima, puxada por cavalos com cabeças e crinas de ouro. É acompanhado por uma comitiva de milhares de nereidas, hipocampos, delfins e outros bichos mais. Quando ele passa, o mar se abre. As ondas serenam.

-Vó, que é nereida e essas coisas que tu falaste? – perguntou Maristela.

-Nereida é uma ninfa, uma divindade, uma moça belíssima, parece uma fada; Hipocampo é cavalo marinho. Já viste um cavalo marinho?

-Vi. Lá no CECLIMAR, num aquário. –  respondeu.

-Pois então. Delfins são golfinhos, botos. Vocês já viram os botos na barra do rio Tramandaí?

-Ah! Agora entendi. E daí, vó? Conta, conta… – manifesta-se Maristela.

– Netuno tem uma barba muito longa. Mais longa que a barba do Papai Noel. Na mão direita, costuma empunhar um tridente.

-Que é tridente, vó? – pergunta Daniela, a menor.  E Maristela responde:

-Ô, guria. Tu não sabes o que é tridente? É uma coisa parecida com um garfo enorme. Tem três dentes. Uma vara com três espetos na ponta. Nunca viu o tridente do diabo?

-Tá…tá… tá… Já entendi.

– Bem. Tridente é uma espécie de cetro mitológico de Netuno. Vocês já viram nas histórias que leram. Todo rei tem um cetro. O cetro representa poder. O tridente de Netuno, conforme a mitologia,tem o poder de abalar a terra e o oceano, produzindo terremotos e maremotos, mas também pode fazer a água brotar das rochas e do solo. Traz as grandes secas e as grandes inundações.

– Puxa vida! Então é poderoso esse tal de Netuno! E anda solto pelo mundo. – diz Carlinhos, o mais velho.

-Vó, quem eram os pais de Netuno? – pergunta Suzete.

-Netuno é o filho mais velho da deusa Ops (deusa da fertilidade) e de Saturno (deus do tempo e da agricultura). De acordo com a mitologia, Netuno cavalga nas ondas do mar em cima de cavalos brancos.

-Chegamos, minha gente!  Vamos estacionar o carro e descer.

-Ai vó, eu tô com medo do velho Netuno -fala Daniela

-Desçam! Rápido! Daqui a pouco é meia noite e nós ainda estamos aqui dentro do carro. Deem as mãos. Está meio escuro. Procurem não se perder.

Os quiosques estavam literalmente tomados de gente. O vento resolvera recolher-se naquela noite em que o Ano Velho daria lugar ao Ano Novo.

 Seria uma boa ação de Netuno?

À medida que nos aproximávamos da praia de Imbé, o movimento aumentava. Era gente que chegava com cadeiras de praia, caixas de isopor carregadas de bebidas, crianças ao colo, crianças levadas pela mão, crianças em carrinhos de bebês.

A lua estava discreta. Algumas nuvens no céu a encobriam para que não tirasse o brilho dos fogos. Na barra, mar e rio entendiam-se: o mar entrava no rio, e este procurava chegar ao mar sem atrapalhá-lo. Era uma troca de gentilezas.

As crianças nunca haviam estado na praia à noite. Para elas era uma novidade.

-Vô, que horas são? – pergunta Carlinhos.

-Faltam cinco minutos para a meia noite.

Sem perder as crianças de vista, aproximamo-nos do mar.Alguns foguetes espocavam aqui e acolá.

Carlinhos, o mais atrevido, demonstrando coragem, entrou no mar e deu não sei quantos pulos nas ondas que chegavam a seus pés. Disse que dava sorte.

É Chegada a hora tão especial. Os ponteiros estão um sobre o outro. Diz o avô

-É meia noite! – Gritam as crianças.

De repente, se desencadeia uma sequência de fogos. O céu enche-se de ruídos e de luzes, proporcionando-nos um espetáculo visual magnífico.Nessa hora, entre gritos, músicas e espocar de foguetes, abraçamo-nos. Então, olhamos para o mar.Fixamos nosso olhar no horizonte, onde céu e mar parecem encontrar-se. Nesse momento, um daqueles fogos de artifício eclode na direção onde o sol costuma nascer. Abraçados,  com a água batendo em nossos pés, vivenciamos um momento de sonho, diante das mais belas formas e cores dos fogos de artifício. Pura magia no meio da noite.Uma voz que parece vir da profundeza das águas, mistura-se aos ruídos:

-Vô, vó, guris, olhem! Lá está o Netuno! Estão vendo?

E foram tantos abraços, tantos beijos meio a felicitações:

Feliz ano Novo! … Feliz Ano Novo!…

abr 15, 2015 - Contos   

Conto Uma tarde de domingo

Por Leda Saraiva*

Diversas pedras circulares, medindo uns oitenta centímetros de diâmetro, incrustadas ao nível do gramado,distribuíam-se ao redor da Caixa d’água de Imbé. Era ali que brincávamos de “Tem Casa pra Alugar?”

Cada criança se colocava sobre uma pedra. No imaginário infantil, cada pedra se transformava em casa. Um dos participantes da brincadeira ficava de fora e percorria o grupo perguntando:

-Tem casa pra alugar?

As outras crianças respondiam, quando perguntadas:

– Não. Passe outro dia.

Na distração daquele que procurava casa para alugar, alguns trocavam rapidamente de lugar,uns com os outros. Era nessa hora de certa confusão que os mais lentos se perdiam e o que perguntava, ocupava o lugar do distraído. O que perdeu o seu lugar passava a perguntar: “Tem casa pra alugar?” E a brincadeira se estendia pela tarde de primavera. Assim, nos divertíamos por algum tempoem volta da Caixa d’água de Imbé.

Esse reservatório de água localizava-se defronte a Igreja Nossa Senhora de Fátima, sobre o canteiro da Avenida Porto Alegre. Hoje, restam os alicerces que testemunham, num silêncio secreto, nossas brincadeiras e visitas àquele lugar.

Meu avô era nosso companheiro. Um avô alegre brincalhão. Andávamos sempre à sua volta. Morávamos em Tramandaí. Aos domingos, costumava passear conosco.  Muitas vezes,atravessamos a velha ponte de madeira para chegar a Imbé. Nessa época, Imbé era um bairro nobre de Tramandaí, predominantemente, habitado por veranistas. No inverno, era só nosso.Era o nosso parque de diversão. Virava um paraíso a ser explorado por nós, crianças curiosas a buscar novidades em suas ruas, verdadeiros labirintos.

 Procurávamos ninhos de quero-quero. Dizem que o quero-quero canta de um lado e o ninho está em outro. Naquela tarde,meio à grama, achamos um ovo partido com um passarinho ainda em formação, agonizando, com aqueles olhos enormes, envoltos numa película leitosa. Naquele instante, aquele frágil corpo parou de se mexer.Foi a nossa primeira experiência com a morte dentro de um ovo. Ficamos observando aquele projeto de pássaro, implume ainda, e sem vida. Por alguns segundos,permanecemos calados diante do mistério da ausência de vida.

Que belo pássaro é o quero-quero! Imponente por sua postura e altivez. É destemido. Está sempre alerta como uma sentinela. O quero-quero é a “Sentinela dos Pampas”, um dos símbolos do Rio Grande do Sul. A beleza de suas penas encanta.Parece uma pintura. Mas Cuidado! É defensor de seu território. Se alguém se aproxima de seu ninho ou de seus filhotes, ataca o invasor com rasantes assustadores, podendo ferir o intruso com os esporões que traz em suas asas.

Depois de admirar um quero-quero que se aproximou de nós, voltamos a observar aquele minúsculo passarinho que não vingou. Um esboço de ave, sem vida, que poderia transformar-se numa espécie belíssima. Só então, nos demos conta de que nosso avô já se distanciara de nós, caminhando com as mãos às costas – era esse o seu jeito de caminhar. Devolvemos o bichinho à grama e corremos em sua direção,apostando corrida para ver quem chegava primeiro.

O meu irmão mais velho era nosso líder.Chamava nossa atenção para o que encontrava de curioso. Corria muito. Distanciara-se de nós. Parou na frente de duas casas geminadas,inteiramente de pedras.Chamou-nos gritando:

– Venham aqui. Ligeiro! Venham ver estas duas casas.

Paramos para observá-las. E ele falou:

-Estas duas casas parecem tão frias… Geladas… Ui…Misteriosas… Mal-assombradas…Parece que estão cheias de fantasmas. Vocês estão ouvindo ruídos estranhos que vêm de dentro delas?

Paralisados de medo, olhos arregalados, ouvidos aguçados.Já estávamos ouvindo os barulhos dos fantasmas a conversarem dentro da casa.Até parecia que objetos voavam e explodiam nas paredes, quando, surpreendentemente, nosso irmão deu um grito fantasmagórico:

 UUUUUUUUUUUUUUUUUUU!…Buáááááááá´!…

Quase desmaiamos. A cor fugiu de nossos rostos. Ficamos algum tempo paralisados, presos ao solo. Com o coração aos pulos, horrorizados, saíamos em disparada, sem olhar para trás. Sabe-se lá… E se algum fantasma resolvesse nos perseguir?…Corremos muito até alcançar o nosso avô que já havia ultrapassado o imponente prédio do Hotel – Cassino Picoral.

 O vento começara a soprar e corria rápido pelas antigas ruas curvas do centro antigo de Imbé que sempre nos enganavam. Apontavam para um lado e nos levavam para outro.

À nossa direita, estava o rio. Silencioso, livro fechado, coberto de limo e de lama,envolto em mistérios, guardando histórias de vidas e lendas que passavam de geração em geração no antigo povoado:A lenda do Minhocão da Lagoa do Armazém; A lenda do Siri, do Linguado e da Savelha. Lembram-se do siri que atravessou o rio,com Nossa Senhora em suas costas?  A lenda da abertura da Barra. Os causos de lobisomem, de bruxas e assombrações… Esse rio é um guardião da história. Guarda a vida dos primeiros pescadores, senhores das águas e dos ventos, sábios conhecedores da natureza. Homens de fé que, no dia a dia, tiravam de suas generosas águas o sustento de suas famílias.

Em determinadas noites, a lua resolvia recolher-se para descansar atrás das grossas nuvens. A escuridão,revestida de vento, envolvia os ranchos dos pescadores, iluminados pela fraca luz das pixiricas e candeeiros. A lenha verde chorava no rústico fogão que cozinhava, sem pressa, o ensopado de peixe e o pirão de farinha de mandioca. O cheiro do fervido espalhava-se pelo rancho, saindo pelas frestas, misturando-se ao vento.

O tempo e o vento corriam de mãos dadas na praia de Imbé a brincar nas águas do rio e a se embalar nas ondas do mar.

A vida era difícil para aquelas famílias sem recurso algum. Gente que seu nia na alegria, na dor, na doença, sempre solidários. Sua história ficará para sempre guardada nas águas do rio silencioso, outrora tão pleno de vida. Atualmente, um tanto ignorado pela população, a esperar que um dia lhe devolvam a vitalidade.

Hoje, quando atravesso a ponte Giuseppe Garibaldi, não me canso de admirar o rio Tramandaí e vejo cristalizada em suas águas, como a acenar para mim, toda a história que não se mostra para aqueles que a desconhecem.

-Crianças! Venham!- grita meu avô -Chegou o grande momento de atravessarmos a ponte pênsil. Agora eu quero ver quem é valente…

* Conto enviado para o I Concurso de Contos de Imbé, em 23/10/2014.
Classificado em 5ºlugar.

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