dez 16, 2009 - Contos    Sem comentario

Área azul

Área azul

Por Artur Pereira dos Santos
Capão da Canoa, dezembro 2009

Zé conseguiu passagem promocional para viajar de avião com a esposa. A compra pela internet exigiu apenas que tivesse cartão de crédito, cujo vencimento não ultrapassasse a quantidade de parcelas com valores que cabiam em seu orçamento mensal.

Começou a perceber as diferenças dos tempos em que viajava por conta da empresa em que trabalhava quando, ao apresentar-se para despachar a bagagem, lhe entregaram uma fita já contendo os números dos assentos que deveriam ocupar, Sem que alguém perguntasse quais os que queriam dentre os disponíveis. Sequer lhe perguntaram se era fumante, como era feito em outros tempos.

Conhecedor da capacidade média de passageiros das aeronaves, não foi difícil chegar à conclusão de que viajariam na cozinha. Mas, afinal, a passagem era promocional, metade do preço, ainda a prazo, conformou-se. O atraso de meia hora na partida também fazia parte do contexto.

Na hora de entrar para a sala de espera, bagagem de mão e bolsa da esposa na esteira e a tradicional bandeja, onde deveriam depositar chaves, telefone celular e outros objetos metálicos, que foram prontamente entregues.

Espantou-se quando foi cercado por dois vigilantes, um já portando uma enorme vara de cerca de dois metros com um equipamento na ponta.

Não soube se era o adiantado da hora e o conseqüente sono que se avizinhava que lhe fez lembrar, como em um sonho, de um antigo patrão que lhe convidara para visitar as cercanias de algumas dunas próximas ao mar, a procura de tesouros enterrados por jesuítas, ou índios, nem lembrava mais. Só lembrava que ele portava um aparelho que detectava metais.

Ao cair em si, ouviu a voz do outro vigilante ordenando-lhe que desse mais alguns passos e ficasse sobre um tapete quadrado, ou retangular, naquela hora não importava o formato, onde o que estava com o equipamento passou a massagear-lhe, ordenando, inclusive, que levantasse os braços para melhor examinar, quem sabe, a procura de algum piercing nas axilas, lembrou ainda bem humorado.

Quando mandaram que virasse de costas, pensou primeiro em baixar a cabeça e fechar os olhos para que todo aquele pessoal que estava ali esperando para entrar não visse a vergonha estampada em seu rosto, Tinha plena consciência do mico que estava pagando.

Contudo, a certeza de estar sendo alvo de algum engano, lhe dava alento. Eles irão pedir desculpas e tudo ficará bem.

Mas, não foi assim. o bendito aparelhinho que lhe percorria o corpo, detectou a minúscula bolsa de moedas que utilizava para o troco diário da padaria, da fruteira e do açougue, além daquelas indispensáveis ao estacionamento na área azul da cidade.

Sacou-a lentamente do bolso, conforme orientação recebida. O que lhe fez lembrar dos filmes de mocinho, de seu passado distante, quando heróis ou bandidos eram obrigados a entregar suas armas pegando-as com as pontas dos dedos. Por fim, maldisse a traição da memória e seguiu viagem. Agradecendo estar sentado em um dos últimos bancos. Ninguém olharia para trás para apontar quem havia pagado aquele mico.

Durante a viagem foi pensando porque, apesar da evolução tecnológica, ainda não haviam inventado um aparelho que detectasse não apenas moedas no bolso dos passageiros, mas cédulas nas cuecas de tanta gente que anda por aí recebendo propina ou fazendo caixa dois para campanha política. Certamente mais Zés poderiam viajar de avião.

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